Blog Nós http://nos.blogosfera.uol.com.br Reflexões de uma jornalista otimista sobre nossa vida em comum Sat, 25 May 2019 14:44:10 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=4.7.2 Os pais estão perdendo o controle no grupo do WhatsApp da escola http://nos.blogosfera.uol.com.br/2019/05/25/os-pais-estao-perdendo-o-controle-no-whatsapp/ http://nos.blogosfera.uol.com.br/2019/05/25/os-pais-estao-perdendo-o-controle-no-whatsapp/#respond Sat, 25 May 2019 07:57:43 +0000 http://nos.blogosfera.uol.com.br/?p=374

Foto: Rachit Tank/Unsplash

A intenção é sempre boa: compartilhar informações entre pais e mães cujos filhos estudam na mesma escola. Mas, em pouco tempo, os grupos de pais no WhatsApp descarrilam, perdem a rota. “Em vez de serem os facilitadores poderosos que potencialmente poderiam ser, os aplicativos estão causando confusão entre as famílias”, diz Adriana Schneider Dalollio, que está conduzindo uma pesquisa de doutorado na Escola de Administração de Empresas da Fundação Getúlio Vargas sobre comportamento pré-adolescente. “Uma série de conversas paralelas tira o foco da educação dos filhos”. Os grupos de pais foram um achado da pesquisa de Adriana, cuja tese gira em torno do consumo de imagem de meninas de 10 a 12 anos. “Como estou entrevistando muitos educadores, o assunto dos grupos de WhastApp sempre aparece e as escolas estão preocupadas com isso.” Nesta entrevista, Adriana, que é mãe de uma adolescente de 13 anos e de um pré-adolescente de 11, revela um pouco de suas descobertas.

O que vem chamando sua atenção na pesquisa sobre os tweens? Comecei pensando em pesquisar o consumo entre tweens e percebi rapidamente que esta geração consome mais imagem do que marca, porque a interação entre eles se dá cada vez mais pelas redes sociais do celular que são preponderantemente baseadas em imagens, como o Instagram e o Snapchat.

E quais as consequências desta interação? Há uma mudança de roteiro, especialmente no ritmo e no processo das decisões. Na nossa época, quando a gente queria marcar um programa com uma colega, iniciava a combinação na escola e, a partir daí, os pais assumiam e podia demorar dias. Eram eles que decidiam quando, como e onde. Hoje, estas etapas são cortadas. Os tweens combinam tudo no celular e os pais entram apenas no final, para o transporte. Os aplicativos estão acelerando os processos e isso gera uma dificuldade para os pais, que perdem o controle das interações dos filhos. E, para falar a verdade, nós, pais, estamos perdendo o controle das nossas próprias interações.

Como assim?
A gente recebe muita comunicação, o tempo todo: emails, Facebook, WhatsApp, Instagram. Os grupos de pais acabam filtrando todo este material e isso é bom. O WhatsApp pode ser uma ferramenta maravilhosa para pais que querem conhecer outros pais, que querem trocar dicas, falar sobre suas angústias, perguntar sobre coisas que perdeu na comunicação formal da escola. Mas os educadores que entrevistei se queixam desses grupos porque acreditam que, em vez de facilitar, eles estão dificultando as relações: entre a escola e a família, entre pais e entre as próprias crianças.

Por quê? Por vários motivos. Os grupos amplificam questões de forma desnecessária, o tal do efeito megafone, e viram plataforma para assuntos que não têm nada a ver com educação. Discussões políticas são um ótimo exemplo. Outra coisa que acontece muito é a confusão entre o público e o privado. Na ânsia de ajudar e de tentar resolver problemas, muitas vezes nós, pais, acabamos expondo os filhos.

Por exemplo? Encontrei histórias de pais que publicam print screen das conversas dos filhos com colegas nos grupos de WhatsApp. Os pais, em geral, querem mostrar que o filho foi ofendido, que foi injustiçado, mas não percebem que estão expondo a criança ao publicar o nome e o sofrimento dela em uma arena pública. Muitos pais e mães entram na briga do filho, invadindo o grupo das crianças. Ouvi falar do caso de um pai que se fez passar pelo filho para responder por ele no grupo. Também aparecem exemplos de superproteção.

Que tipo? Mães que pedem ao grupo que enviem a lição de casa, de preferência pronta, para que o filho possa copiar, porque ele faltou ou perdeu a tarefa. Ou ficam perguntando pelo livro que a escola encomendou. Como mãe, eu entendo a aflição, a vontade de ajudar o filho. Mas estamos tirando a responsabilidade das crianças, ocupando um papel que é delas e minando sua autonomia.

Que recomendações você daria para que esses grupos fossem mais eficientes? Há catorze anos, eu fiz um curso sobre a etiqueta do email. Lembro que a professora recomendava que a gente nunca respondesse de imediato a uma mensagem. Acho que a mesma coisa vale para o WhatsApp. É muito fácil escrever e compartilhar mensagens no impulso. O ser humano aprendeu a interagir na socialização face a face. A interação digital é muito nova. A gente precisa aprender a criar filtros digitais para que os grupos sejam mais saudáveis, para que discutam assuntos mais relevantes para as crianças. E sem excluir a escola.

E no caso dos pré-adolescentes? Vejo muitos pais preocupados em monitorar o que o filho faz na internet… É verdade. Mas a gente tem que entender que é impossível. A cada entrevista que faço com uma menina, descubro um novo influencer, um novo joguinho, uma nova atividade, um novo canal no Instagram. Não dá para acompanhar, não dá para checar 24 horas por dia o que eles estão vendo na tela.

Você tem dois filhos. Como faz? Acho que a gente tem que acreditar na conversa com os filhos. Mas não adianta querer conversar sobre tudo que o filho fez ou viu na internet. Acredito no diálogo sobre preservar a vida privada e social, respeitar as diferenças das pessoas do grupo, tomar cuidado com as palavras – porque elas podem ser interpretadas de maneira diferente da original. Muitas vezes, meus filhos reclamam: “mãe, eu já sei disso”. Aprendi a responder que o papel de mãe é assim mesmo. Ser chata é a nossa profissão.

Leia também: Eu zapo, tu zapas, como a vida mudou em 10 anos de WhatsApp, Uma hora por dia, OMS recomenda que crianças de 5 anos usem telas 1 hora por dia, Grupos de pais no WhatsApp: amar ou odiar?

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A transexualidade deixa de ser doença no mês da luta contra a homofobia http://nos.blogosfera.uol.com.br/2019/05/16/a-transexualidade-deixa-de-ser-doenca-no-mes-da-luta-contra-a-homofobia/ http://nos.blogosfera.uol.com.br/2019/05/16/a-transexualidade-deixa-de-ser-doenca-no-mes-da-luta-contra-a-homofobia/#respond Thu, 16 May 2019 07:01:09 +0000 http://nos.blogosfera.uol.com.br/?p=366

Foto: Sharon Mccutcheon /Unsplash

A partir do dia 20 de maio de 2019, a transexualidade deixa de ser considerada um transtorno mental. Nesse dia começa, em Genebra, a 72º Assembleia Mundial da Saúde, quando os países membros da ONU oficializam a adoção da 11º versão da CID, Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas de Saúde. Ou apenas Classificação Internacional de Doenças, uma espécie de enciclopédia das causas de morte e tipos de doenças organizada pela OMS, Organização Mundial da Saúde, braço da ONU. A notícia já havia sido dada no ano passado, mas agora  é oficial.

Nessa nova edição da CID, a transexualidade sai da categoria de transtornos mentais (capítulo 5) e migra para a categoria de cuidados médicos, onde passa a ser chamada de incongruência sexual. Apesar de tanta sigla, a notícia é simples e ótima: a maior autoridade de saúde do mundo trata transexuais como pessoas que podem necessitar de cuidados médicos, especialmente durante um processo de transição de gênero (que envolve cirurgias e terapia hormonal). Mas não mais como pessoas que precisam de tratamento psiquiátrico por serem transgêneros.

Há 29 anos, no dia 17 de maio de 1990, o mesmo aconteceu com a homossexualidade, que deixou de ser chamada de homossexualismo na CID. Ao mudar o sufixo ismo (doença, na medicina) para dade (comportamento), a OMS retirou gays e lésbicas do quadradinho de doentes mentais (a Associação Americana de Psiquiatria já havia adotado a medida em 1973) e as chamadas terapias de “cura gay”começaram a desaparecer. É bom lembrar que terapias de cura gay utilizaram recursos parecidos com tortura. Nos anos 50 e 60, conta o escritor Neel Burton, autor do livro O Significado da Loucura (The Meaning of Madness), o tratamento típico envolvia dar choques elétricos no paciente enquanto ele olhava fotos de homens nus. Segundo o autor, nada disso funcionou. No Brasil, apenas em 1999 o Conselho Federal de Psicologia se posicionou contra este tipo de terapia.

A decisão de retirar a transexualidade do código de doenças mentais demorou pelo menos cinco anos. Em 2014, um grupo de nove cientistas convocados pela OMS para estudar o tema, posicionou-se a favor da “desclassificação”da transexualidade como doença. O grupo foi liderado pela epidemiologista americana Susan D. Cochran e contou com a participação de uma médica brasileira, Elisabeth Meloni Vieira, da USP de Ribeirão Preto.

Portanto, aqui estamos, três dias depois da comemoração da Lei Áurea da Homossexualidade, vendo os transexuais também serem alforriados do estigma na CID. É um começo.

Leia também: https: O inferno da cura gay

 

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Conheça a história do garoto de 4 anos que tem “mãe grande” e “mãe pequena” http://nos.blogosfera.uol.com.br/2019/05/11/conheca-a-historia-do-garoto-de-4-anos-que-tem-mae-grande-e-mae-pequena/ http://nos.blogosfera.uol.com.br/2019/05/11/conheca-a-historia-do-garoto-de-4-anos-que-tem-mae-grande-e-mae-pequena/#respond Sat, 11 May 2019 07:10:53 +0000 http://nos.blogosfera.uol.com.br/?p=358

Carol e Simone, uma família com a “mãe grande” e a “mãe pequena”. Foto: Arquivo pessoal

Carol e Simone se casaram em 9 de maio, dia em que Carol me deu esta entrevista. Escolhi Carol para falar comigo – e ela me escolheu para conversar – porque acredito que precisamos comemorar o Dia das Mães com alguma luz. As empresárias Carol Campos, 42 anos, e Simone dos Santos, 41, são mães de um garoto de quatro, o Pedro, e formam uma família digna e feliz, construída sobre amor, confiança e um contrato de união estável (o casamento). Mesmo assim, são invisíveis para o atual governo do país.

Como você está se sentindo neste Dia das Mães, poucas semanas depois de o presidente da República retirar do ar um vídeo publicitário que mostrava minorias? Ele justificou afirmando que a “massa” quer “respeito à família”. Em setembro de 2018, ainda em campanha, Bolsonaro havia dito que, se fosse eleito, a família seria respeitada, “porque aqui tem macho e fêmea”. É um absurdo, né? A gente lutou muito para conseguir ter um filho, registrar o filho no nome de duas mães e aí vem uma pessoa falar que não existimos, que não merecemos ser respeitadas. É muito chocante ouvir uma pessoa dizer que sua família não é família. Que tipo de violência é essa, quando alguém tenta apagar sua história, seu amor, seus filhos?

Você e Simone formam uma família homoafetiva em um país que ainda não entende famílias fora do padrão. Quando vocês começaram a pensar em ter filhos? Estamos juntas há 15 anos, faz sete que moramos na mesma casa. Eu sempre tive vontade de ser mãe mas a decisão foi se formando quando meu pai ficou doente. Perdi minha mãe aos 11 anos de idade e minha ligação com meu pai era muito forte. Sabia que ele queria netos e pensei em engravidar antes que ele morresse, o que acabou acontecendo em 2012. Mas não deu tempo. Durante os três anos da doença, me dediquei a cuidar dele. Não houve como pensar em gravidez.

O Pedro nasceu em 2015… Sim. Em 2014, quando eu já estava menos abalada com a morte do meu pai, meu ginecologista me disse que, se eu quisesse ser mãe, devia congelar os óvulos ou tentar a inseminação, pois já estava com 38 anos. Horas depois da consulta, eu e a Simone conversamos e decidimos que era a hora. Ela queria ter filhos, mas não passar pela gravidez. Então foi uma coisa natural que eu tentasse a inseminação artificial. Fizemos três tentativas. Perdi o bebê na primeira vez, com dois meses. Na segunda, não deu certo. Na terceira, engravidei do Pedro.

Como foi este processo para vocês? Foi difícil porque você recebe muito hormônio durante a inseminação e acho que isso te deixa mais frágil. Ainda por cima, existem as perdas e as tentativas que não dão certo, que são um baque terrível. Por outro lado, nós estávamos muito segura de que queríamos ser mães, formar uma família. E queríamos fazer tudo juntas. Tanto que, por nossa sorte, fizemos questão que a Simone também assinasse o termo de consentimento para a inseminação.

Por que por sorte? Por que tivemos dificuldade para registrar nosso filho em nome das duas. Por alguns meses, apenas eu era considerada mãe no registro de nascimento. Só quando entramos com uma ação judicial e o juiz decidiu a nosso favor depois de ter uma prova de que as duas estavam envolvidas no processo da inseminação, foi possível registrar o Pedro com duas mães. O termo do consentimento foi a prova. Hoje, nós dizemos para todas as amigas que querem engravidar que assinem juntas o termo de consentimento.

É sempre assim? Nosso caso tem sido usado como jurisprudência a favor do registro de duas mães. Quando você faz uma inseminação cruzada – óvulo de uma, útero de outra –, é mais simples. Mas, no nosso caso, o óvulo e o útero eram meus. A gente não sabia que seria tão complicado até eu estar com seis meses de gravidez e ser informada em um curso de gestantes que o cartório poderia não aceitar duas mães. Ficamos arrasadas naquele dia.

E quando vocês conseguiram mudar o registro? Foi em dezembro de 2015. O Pedro tinha sete meses e fomos juntas ao cartório com o parecer do juiz. Na filiação, constam os nossos nomes. Mãe e mãe.

Como funciona uma família com duas mães? No cartório, o escrivão nos perguntou a mesma coisa. Ele disse que não aguentava uma mãe no pé dele, imagina duas. Foi uma piada, por isso respondemos que, pra gente, não tinha problema. Ia ter problema pra nossa nora – ou genro – que teria que lidar com duas sogras. Mas, na vida real, é muito tranquilo. Sempre fizemos tudo igual, sem dividir papéis. Mesmo na amamentação, depois de algum tempo, a Simone começou a dar as mamadeiras. Quando tem reunião na escola, vamos as duas. Quando tem comemoração do Dia dos Pais, vamos as duas. O Pedro, depois de algum tempo, começou a me chamar mãe pequena e a Simone de mãe grande. Foi uma decisão dele. Os colegas da escola chamam a gente assim também.

Vocês ficam preocupadas com o Pedro? Se ele vai ser discriminado na escola? Por enquanto, está tudo bem. Pedro está numa escola que tenta aprender com a gente como é uma família fora do padrão. Ele é o primeiro aluno com duas mães, porque a escola é pequena, mas a diretora nos acolheu muito bem. Os pais dos colegas ficam curiosos, alguns querem informações sobre inseminação. O Pedro sempre é convidado para as festinhas dos amigos. A nossa preocupação tem mais a ver com o futuro, quando ele tiver 8, 9 anos. Agora, as crianças não têm preconceito, são inocentes. Mais tarde, elas ficam mais cruéis.

E fora da escola? Nossas famílias adoram o Pedro. Tios, primos… Claro que, em alguns momentos, você ouve o que não quer e percebe em que mundo estamos vivendo. Por exemplo, uma conhecida me contou que, numa viagem que fez, num cruzeiro, virou o rosto do filho para que ele não visse um casal de homens de mãos dadas. Segundo ela, o filho era muito novo para ver isso. Este é o problema, a inclusão só acontece quando se trata a diversidade com naturalidade desde cedo. E falo de inclusão de modo geral. Eu e a Simone somos voluntárias em um projeto de inclusão de crianças com Síndrome de Down chamado Best Buddies Brasil. A estratégia destes projetos é promover a convivência de crianças com e sem síndrome. Temos esta preocupação de mostrar para o nosso filho que existem diferenças entre as pessoas. E que está tudo bem, podemos e devemos conviver com isso.

Leia e veja também:FlexFamília Cartas para as nossas filhas, Mãe que fala que filho gay é discreto não o aceita, diz especialista

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O presente que toda mãe tem direito de ganhar no dia 12 http://nos.blogosfera.uol.com.br/2019/05/05/o-presente-que-toda-mae-tem-direito-de-ganhar-no-dia-12/ http://nos.blogosfera.uol.com.br/2019/05/05/o-presente-que-toda-mae-tem-direito-de-ganhar-no-dia-12/#respond Sun, 05 May 2019 07:05:19 +0000 http://nos.blogosfera.uol.com.br/?p=351

O melhor presente: não é isso que você está pensando.                           Foto: Nathan Cowley/ Pexels

 

“O que você quer ganhar no dia das mães?” – meus filhos perguntam.

“Um Kindle com luzinha.”

“Não dá, mãe. O dinheiro não chega.”

“Então quero louça lavada. Casa varrida. Areia do gato trocada. Todo dia.”

“Ah, mas assim também é demais, mãe. Fala sério.”

“Não custa nada, é mais barato que o Kindle.”

“A gente vai levar café da manhã pra você, tá?”

“Todo dia?”

Eu adoro o café da manhã na cama e o dia de paparicos no segundo domingo de maio (escrevi sobre isso, inclusive, no ano passado). Mas, agora, quero mais. Meus filhos reclamam que estou monotemática, só falo da divisão das tarefas domésticas. É chato – principalmente para mim, ao contrário do que eles pensam. No entanto, esta é a minha causa, algo que, hoje, vejo como uma obrigação educativa.

Meus filhos cresceram entendendo que as mulheres são seres capazes, autônomos, não precisam ser tuteladas. São homens feministas, se isso for possível. Mas ainda não entenderam que a mãe deles é mulher, não uma heroína da Marvel.

Na minha opinião, o melhor presente que uma mãe pode receber: ser remunerada pelo seu trabalho nas tarefas domésticas. Calcula-se que, em média, as mulheres tenham uma carga horária de 12 horas semanais maior do que a dos homens, somando o trabalho pago (fora de casa) e a segunda jornada, a da louça, da roupa, da comida, da lição de escola com os filhos. Parte desta carga horária é gratuita, não custa nada a ninguém, só a quem a cumpre.

Mas, sendo impossível ser remunerada, que tal distribuir melhor este trabalho? Sei que é uma meta difícil para alcançar. Criamos uma geração que ou acreditou na falácia da mãe polvo, multitarefas, ou teve uma emprega doméstica deixando a casa parecendo um flat.

Sendo mães, somos culpadas por isso também? Não. A explicação vai além de nós. “Ao longo da história as mulheres assumiram como papel ‘natural’ a provisão de cuidados da família, enquanto os homens o sustento financeiro. Isso contribuiu com a crença social de que a família é responsabilidade da mulher e o trabalho, por seu turno, do homem’, explicam os economistas Luana Passos e Dyeggo Rocha Guedes, no artigo Participação feminina no mercado de trabalho e a crise de cuidados da modernidade: conexões diversas. “O chamado ‘trabalho produtivo’ é exercido pelos homens, enquanto as mulheres compartilham seu tempo ‘naturalmente’ entre a produção de mercadorias fora de casa, a execução das tarefas domésticas e os cuidados da família – o dito ‘trabalho reprodutivo’”.

Segundo dados da PNAD (Pesquisa Nacional de Amostra por Domicílios) de 2105, citados pelos economistas, “por volta de 19% das mulheres economicamente ativas, de 16 a 59 anos, tinham, simultaneamente, ao menos um idoso e uma criança de 0-6 anos no domicílio”.

Você pode estar pensando que eu estou exagerando, que os centennials – esta geração que nasceu no século 21 –, vai ser diferente. Pode ser, mas o fato é que ainda hoje, no mundo, as meninas (entre 5 anos e 14) trabalham 160 milhões de horas a mais do que os garotos em tarefas domésticas, conforme relatório do Unicef, o Fundo das Nações Unidas para a Infância, Harnessing the Power of Data Girls, de 2016O que este número quer dizer? Quer dizer que a gente ainda está reproduzindo uma doença social, a crença de que o trabalho domestico é feminino exclusivamente, não precisa ser remunerado e, portanto, não tem valor. E o que não tem valor, fica invisível. Por isso, talvez, os filhos que criamos enquanto acumulamos o trabalho remunerado com o trabalho doméstico ainda acreditem em fantasias. Tipo:

  • louças se lavam sozinhas.
  • o lixo anda até a lixeira.
  • a máquina de lavar roupa, além de pegar a roupa no cesto, seca, dobra e guarda na gaveta. Sem misturar cuecas com camisetas.
  • existe um duende que, à noite, varre a casa, limpa os móveis e faz a comida aparecer na mesa.
  • ah, o duende também leva o cachorro para passear.

 

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A professora que gostava de ser doméstica, mas gosta mais de ser professora http://nos.blogosfera.uol.com.br/2019/04/27/a-professora-que-gostava-de-ser-domestica-mas-gosta-mais-de-ser-professora/ http://nos.blogosfera.uol.com.br/2019/04/27/a-professora-que-gostava-de-ser-domestica-mas-gosta-mais-de-ser-professora/#respond Sat, 27 Apr 2019 07:00:51 +0000 http://nos.blogosfera.uol.com.br/?p=338

Foto Kyle Arcilla/Unsplash

Calhou de ser neste sábado o 27 de abril, Dia Nacional da Empregada Doméstica. Legal a profissão mais popular entre as mulheres brasileiras – uma em cada seis no mercado formal – ter o seu dia no calendário. Assim como os médicos, os engenheiros e até os jornalistas.

Mas temos o que comemorar? O Brasil consta nos relatórios da Organização Internacional do Trabalho, a OIT, como o país com mais empregadas domésticas do mundo. Quase 6 milhões de mulheres se sustentam nesta função, o que permite que muitos outros milhões possam ter empregos fora de casa.

O único problema: o emprego doméstico paga pouco e sobra para quem está na base da pirâmide – mulheres, a maior parte delas, negras, e com pouca escolaridade. Gostaria de dizer que é uma profissão como qualquer outra. Mas ainda não é. O emprego doméstico em massa é uma evidência das nossas desigualdades sociais. Nos Estados Unidos, onde a desigualdade pode não ser zero, mas é menor que a brasileira, existem apenas 700 mil empregados domésticos (segundo a OIT, de novo).

Estudos do Instituto de Pesquisa Econômica (IPEA) mostraram a diminuição do número de jovens mulheres que entrava neste mercado específico no começo da década. Foi a primavera, nada silenciosa, das classes C e D mandando suas filhas à universidade pela primeira vez. Uma ruptura social rápida, visível e bonita de acompanhar. Só não gostou quem queria continuar terceirizando o serviço doméstico a preço de banana.

Pois bem. Com a volta da recessão, o ritmo da mudança desacelerou. Mas, mesmo assim, muitas mulheres conseguiram mudar de profissão. Uma delas foi minha entrevistada, Lanei Silva dos Santos, 41 anos, que este ano se forma no curso de Pedagogia. Lanei trabalha como recreacionista em uma escola infantil de São Paulo. Esta é a história dela.

Lanei, agora educadora

Você sabia que, neste sábado, se comemora o dia da empregada doméstica?

É mesmo? Nem sabia que existia este dia para elas. Quer dizer, para nós.

Você acha que isso é bom?

É bom, pelo menos a gente pode pensar no papel da empregada doméstica, uma pessoa que está tão próxima e ao mesmo tempo tão distante da família onde ela trabalha.

Você falou “elas”, se referindo às empregadas domésticas e, depois, corrigiu para “nós”…

É, porque fui empregada doméstica por muito tempo. Fui e tenho orgulho, porque este tipo de emprego me sustentou. Cheguei em São Paulo aos 25 anos. Eu morava no interior da Bahia e lá, como minha mãe tinha morrido cedo, cuidava dos meus irmãos e da casa. Quer dizer, fazia o trabalho de empregada doméstica e não recebia salário. Por isso, quando comecei a ganhar com isso, achei muito bom.

Você chegou em São Paulo com trabalho arrumado?

Não. Eu vim visitar o meu irmão e logo uma prima me apresentou para uma família que precisava de empregada. Passava a semana na casa deles e dormia na casa da minha prima nos fins de semana. Hoje, eu acho estranho pensar que a pessoa dorme onde trabalha, não é? Acordava às 7 da manhã e ia dormir às 10 da noite, mas não reclamava porque, como eu disse, antes eu fazia a mesma coisa e não ganhava nada (risadas). Então, na minha cabeça, eu era superbem remunerada. Quando me chamavam pra trabalhar no final de semana, achava ótimo. Ganhava um extra.

Quando você deixou de dormir no trabalho? 

Foi logo, depois de um ano eu fui morar com o pai do meu filho. Montamos uma casa, um apartamento. Diminuí as horas de trabalho no emprego, mas aumentou a carga não remunerada (risadas) porque eu tinha duas casas para cuidar. Essa foi minha vida por quase nove anos, trabalhando em várias casas.

E quando começou a mudar? 

Eu comecei a pensar em mudar quando meu filho tinha 3 anos de idade. Hoje, ele tem 15. Quando cheguei em São Paulo, eu era praticamente analfabeta. Não sabia escrever quase nenhuma palavra. Aí, ele ainda pequeno, eu comecei a me cobrar. Precisava pelo menos saber escrever uma lista de compras! Fiz um teste no EJA (Educação de Jovens e Adultos) e entrei na quarta série. Voltei a estudar e estou estudando até hoje. Descobri que gosto de estudar e que estudar me traz novas oportunidades e outro papel na sociedade. Eu não desgostava de ser empregada doméstica, mas percebi que aquilo não me dava qualificação para outro tipo de trabalho

Como era seu dia, com filho pequeno, trabalho e escola?

Durante o dia, o meu filho ficava na creche. À noite, quando eu estava na escola, o pai cuidava dele. Foi assim por muito tempo, enquanto fiz o supletivo do colegial e depois, um curso técnico de logística.

Você trabalhou como técnica de logística?

Não, não tive coragem, me sentia despreparada mesmo depois de terminar o curso. Eu tinha muita dificuldade na leitura, ficava apavorada com computador e inglês. Eu era a burra da sala, me esquivava dos trabalhos em grupo com medo de passar vergonha. Mas como o curso era de graça e perto de casa, fui até o fim. Não era uma vida fácil, mas eu tinha um certo conforto porque meu marido ganhava três vezes mais do que eu.

E a faculdade de Pedagogia? 

Eu queria continuar estudando. Vi muitas amigas entrando na faculdade e outras se formando. Mas achava que não ia dar conta. Aí, uma amiga insistiu e eu prestei o vestibular. No dia em que saiu o resultado e vi que tinha passado, fiquei doente. Estava feliz, mas com enxaqueca ao mesmo tempo.

Como foi sua experiência como universitária?

Difícil. No primeiro semestre, não entendia quase nada, peguei DP em muitas matérias. Fora isso, eu gastava 70% do meu salário na faculdade. Pensei em desistir quando me separei e não tinha dinheiro para pagar a mensalidade. Mas aí aconteceu uma coisa que mudou tudo.

O que foi? 

Eu consegui o primeiro estágio pedagógico como assistente de professor. Era remunerado. Na verdade, eu não acreditei quando a coordenadora que me entrevistou me disse que ia me dar o estágio. Eu lembro que virei para ela e falei: “Você está falando sério? Porque tenho um emprego que me sustenta e não posso largar se não for para trabalhar em outro lugar”. E não é que ela cumpriu o combinado? Comecei no estágio e já estou aqui há três anos. Agora, sou contratada como recreacionista.

Sua vida melhorou? 

Eu ganho a mesma coisa do que ganhava como empregada. Quando eu terminar a faculdade, vou ganhar salário de professor. Ainda tenho que trabalhar de dia e estudar de noite e fazer a comida para o meu filho antes de sair de casa, cedinho. A gente só se vê às 11 da noite, quando eu chego. Mas trabalhar na escola é muito satisfatório. Primeiro, eu posso sentar ou esticar a perna quando sinto muito cansaço. No trabalho de casa, mesmo estando cansada, você não senta, não dá tempo. Como educadora, eu acompanho o desenvolvimento da criança, da hora em que ela chega na escola até o momento que sai. Se a gente investe na criança, acolhe e ensina, a gente vê o retorno. Hoje, eu penso: como eu pude ficar tão longe disso? É exatamente o que eu quero fazer na vida.

Você se sente mais valorizada como educadora?

A empregada doméstica sempre tem a impressão de que é inferior a qualquer outra pessoa. Ela faz um trabalho essencial, mas parece que está trabalhando obrigada. Não sei, acho que não saiu da cabeça de muita gente nossa história da escravidão. Quando você é empregada e sua amiga vai te apresentar, ela diz só o seu nome. Quando você é professor, ela diz seu nome e sua profissão. Se sua amiga quer comentar que você está chegando do trabalho doméstico, ela diz apenas. Fulana está chegando. Quando você estuda, ela diz Fulana está chegando da faculdade.

Você é a primeira da família a fazer faculdade, não é? 

De dez irmãos, a primeira a terminar o colegial e fazer faculdade. Sei que meu pai, que continua na casinha dele na Bahia, tem muito orgulho disso.

Leia também: Metade das domésticas não sabe a senha do wifi da casa onde trabalham

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Por que velhos e adolescentes defendem mais as ideias feministas? http://nos.blogosfera.uol.com.br/2019/04/15/por-que-velhos-e-adolescentes-defendem-mais-as-ideias-feministas/ http://nos.blogosfera.uol.com.br/2019/04/15/por-que-velhos-e-adolescentes-defendem-mais-as-ideias-feministas/#respond Mon, 15 Apr 2019 17:33:56 +0000 http://nos.blogosfera.uol.com.br/?p=326

Foto: Thiago Thadeu/Unsplash

Jovens adolescentes e idosos são mais feministas do que o restante da população. Esse foi o dado que considerei mais impressionante na pesquisa DataFolha sobre o feminismo e a sociedade brasileira. Na faixa de 60 anos + e na faixa de 16 a 24 anos, mora o maior número de pessoas que se considera feminista: 42% entre os idosos e 47% entre a mais jovem faixa pesquisada.

O DataFolha, segundo a repórter Ana Estela de Sousa Pinto, em reportagem publicada na Folha de S. Paulo, entrevistou 2096 brasileiros – tanto homens quanto mulheres – com 16 anos ou mais. As entrevistas foram feitas no começo de abril e trazem vários cruzamentos, inclusive entre os mais ricos e pobres, entre brancos e negros, entre os que votaram em Jair Bolsonaro e Fernando Haddad para a presidência nas últimas eleições.

De modo geral, o levantamento traz uma notícia boa. Embora, também na categoria das causas feministas, a sociedade se divida, há uma boa parcela, tanto de homens quanto de mulheres, que considera o feminismo benéfico às mulheres e à sociedade (49% dos homens e 45% das mulheres acham que o feminismo traz mais benefícios do que prejuízos). Ou seja: estamos caminhando no entendimento de que desigualdades não são positivas, não estamos?

Faz sentido que as gerações que estejam no extremo do leque demográfico – a geração baby-boomer (com mais de 60 anos) e a geração centennial (com menos de 21 anos, hoje ainda na adolescência) – se revelem mais feministas. Não é a primeira vez que elas concordam em questões de direitos humanos. Centennials são mais abertos à diversidade do que as gerações Y (que nasceram a partir dos anos 80 e hoje estão com mais de 30 anos) e X (os que nasceram no meio dos anos 60 e hoje têm entre 40 e 50 anos). Em 2016, a agência de publicidade McCann divulgou uma pesquisa, A Verdade sobre os Jovens. Nela, a preocupação com igualdade racial, feminismo e direitos LGBT era bem maior entre os menores de 20 anos do que entre os maiores.

Por outro lado, os avós, os baby bommers, são os caras que participaram da revolução sexual, da primavera hippie, da liberação de costumes. Não deveria surpreender que eles, também conhecidos como perennials ou ageless, fossem simpatizantes do feminismo. Entre os jovens centennials e seus avós boomers, ficaram os “caretas”, os adultos X e Y.

Antes que algum Y se manifeste contra este texto, quero explicar que obviamente são muitos os adultos jovens que  adotam o ideário feminista. Também para a geração X admito ressalvas neste texto: as primeiras presidentes de empresa, as primeiras mulheres em conselhos corporativos, têm entre 50 e 60 anos de idade, são X e boomers. E o pioneirismo delas faz muito diferença na adoção de uma visão mais igualitária de gênero dentro das empresas.

No entanto, como tudo que tem a ver com uma abordagem geracional, temos que considerar a existência de um certa força social que define seu tempo. Muitas vezes, esta força não é restrita a uma geração ou não envolve a maior parte das pessoas. Mas ela costuma sobreviver e crescer no futuro.

Os adultos X e Y ficaram ensanduichados em um momento de extremo individualismo e de consumo voraz da nossa sociedade. Nestas gerações, as mulheres foram em massa para o mercado de trabalho. Ganharam poder de compra e independência a um custo enorme. Elas trabalharam mais do que os homens e, talvez, não tivessem tido tempo de pensar em questões feministas. As mulheres um pouco mais jovens, as Y, começaram a desconfiar da sustentabilidade do modelo multitarefa, mas continuaram a jornada de alta produtividade nas empresas – afinal, elas tinham estudado para isso e demonstravam mais escolaridade do que seus pares masculinos. (As mulheres Y formaram a primeira geração a conquistar mais graduação do que homens no país.)

Adolescentes, no entanto, puderam pensar bastante sobre as causas feministas. O novo feminismo foi abraçado pelos coletivos de secundaristas e se transformou em uma ideia pop pela indústria de entretenimento – cinema e música, principalmente.

Talvez cada geração tenha um papel a cumprir. Eu, que sou mais X do que boomer, me contento com meu papel de uma espectadora entusiasmada desta linda peça que avós e netas estão desenvolvendo no palco. Se as mudanças resultarem de um encontro entre a sabedoria e a rebeldia tenho certeza de que serão mudanças incríveis. Mesmo que a rebeldia, neste caso, tenha vindo mais dos avós do que dos seus netos.

Longa vida à equidade de gêneros e à boa convivência entre gerações.

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O bullying é assunto de escola? Ou de todos nós? http://nos.blogosfera.uol.com.br/2019/04/12/o-bullying-e-assunto-de-escola-ou-de-todos-nos/ http://nos.blogosfera.uol.com.br/2019/04/12/o-bullying-e-assunto-de-escola-ou-de-todos-nos/#respond Fri, 12 Apr 2019 07:00:17 +0000 http://nos.blogosfera.uol.com.br/?p=312

Foto: Kat J/Unsplash

Há poucos dias, uma turma de privilegiados adolescentes, alunos de uma escola de elite de São Paulo, o Colégio Santa Cruz, recebeu suspensão por prática de bullying. A suspensão dos jovens, do terceiro ano do ensino médio, foi o desfecho de uma história de exclusão e perseguição a um colega da turma. Eles tinham acabado de voltar de um acampamento, onde a humilhação ao colega, que acontecia desde o primeiro ano do ensino médio, atingiu seu ponto máximo. Depois do acampamento, o colega se transferiu de escola. O colégio, por sua vez, decidiu punir seus estudantes, gente que tem sobrenomes importantes – da política, do mercado corporativo, da academia. Gente que, em dois anos no máximo, estará sentada em cadeiras de faculdades.

Grupos de mães no WhatsApp não falaram de outra coisa durante a semana. Algumas criticavam os jornalistas por divulgar um assunto que julgavam ser “um tema sensível” e de interesse da escola apenas. Outras se perguntavam como aquilo podia ter acontecido naquela escola e qual a responsabilidade deles, pais, com a situação. Diferentemente de outros colégios de elite, o Santa Cruz tem uma tradição humanista, um compromisso com a ideia de formar alunos com consciência cidadã, respeitosos dos direitos humanos.

A notícia da suspensão foi assunto dos grupos – de mães, pais, responsáveis, alunos – e também da imprensa que, aparentemente, está menos chocada com este tipo de acontecimento. Falamos de bullying e de ciberbullying a cada dado divulgado sobre o assunto – em 2017, a Secretaria Estadual de Educação registrou 564 casos de bullying;  em setembro do ano passado, o Unicef, Fundo das Nações Unidas para a Infância, publicou um estudo em que dizia que 17 milhões de alunos entrevistados em 39 países admitiam fazer bullying com os colegas. Finalmente, no massacre de Suzano, a mãe de um dos atiradores afirmou que o filho podia ter sofrido bullying.

As escolas estão divulgando mais o bullying ou os alunos estão praticando mais bullying?

Em 2009, um gigantesco levantamento feito com 18 mil alunos, pais e educadores pela Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), falava de bullying no ambiente escolar. Naquela época, 10% dos alunos disseram ter visto colegas sendo humilhados repetidamente. As principais vítimas: negros, pobres, homossexuais. Em 2017, quando eu estava escrevendo o livro Hipnotizados, sobre tecnologia e comportamento jovem, entrevistei um menino negro, homossexual, que passou a vida escolar sendo xingado e apedrejado na saída da escola, na periferia de Osasco, na Grande São Paulo. O menino, a quem chamei de Guilherme no livro, ocupava o pior quadrante possível da matriz de riscos sociais: negro, pobre, homossexual. Rejeitado pela família e pelos pares – os colegas de escola –, ele felizmente foi abraçado por um projeto social, onde encontrou os primeiros amigos, aos 16 anos de idade. Tanto as humilhações de Guilherme quanto os dados da Fipe mostram o trágico óbvio: as escolas repetem as violências que os brasileiros continuam cometendo contra os grupos mais vulneráveis: negros, pobres, homossexuais. Somos um dos países mais violentos do mundo em quase todas as categorias – contra mulheres, jovens negros, gays, transsexuais. Por que seria diferente na escola? Entre os nossos filhos?

Crianças e adolescentes formam seus valores básicos na convivência com os outros. Se os pais, os tios, os colegas de escola, de igreja e de bairro são preconceituosos, é bastante provável que crianças e adolescentes os imitem

Mas o que acontece quando os outros, os adultos de sua convivência, escolhem uma escola em que o preconceito é combatido, como no caso da escola Santa Cruz? Parece intrigante – e vale uma pesquisa científica – imaginar que a crueldade contra os mais vulneráveis se mantenha mesmo em um ambiente que estimula a convivência respeitosa entre os diversos. Olhamos, estupefatos, para a resistência da ideia de que, para sermos incluídos, devemos excluir. Essa ideia sobreviveu na nossa geração (lembra de Carrie, a Estranha? Lembra do CDF?) e continua vivíssima entre os centennials, os nossos filhos, nascidos no fim do século passado. Como diz o psicólogo José Rogério Lopes, da Universidade do Vale do Rio dos Sinos, no artigo Exclusão social e controle social: estratégias contemporâneas de redução de sujeiticidade, a exclusão social, antes ligada aos marginalizados economicamente, agora “não é mais exclusivamente sócio-econômica ou material, mas também simbólica”, uma injustiça simbólica que acarreta exepriências de desrespeito, hostilidade e sentimentos de invisibilidade e prejuízo da auto-estima na vida cotidiana. Na minha opinião, continua havendo uma criança e um adolescente escolhidos para representar o “diferente”, “o estrangeiro”, aquele que não faz parte do grupo, aquele que não queremos ser. No caso de escolas de elite, talvez não sejam os negros e os pobres as vítimas primeiras do bullying. No seu lugar, estão os diferentes. Aqueles que, por alguma razão, exalam um tipo de fragilidade, uma espécie de feromônio ao contrário, que a matilha dos agressores vai farejar, encurralar e atacar. Uso um termo do reino animal – matilha – porque, na adolescência, na difícil e preciosa etapa da formação da nossa identidade, fazer parte de um grupo garante nossa sobrevivência mental, emocional e, no passado, física. Fazer parte de um grupo é uma das principais lições que aprendemos sobre sobrevivência: aprendemos que grupos são mais fortes do que indivíduos sozinhos. E grupos, como todos sabem, seguem seus líderes. Das muitas lembranças que tenho da adolescência: eu, no intervalo da escola, assistindo três colegas xingando um mendigo que tivera a infelicidade de passar na frente do colégio naquele momento. Não fiz nada para impedir, não as critiquei. Pior, eu ri de uma das piadas horrorosas que elas fizeram. Parece pouco, mas isso me assombra até hoje.

Imagine, então, o que é ser adolescente (introvertido, nerd, esquisito, gordinho, feio, nóia) sem a possibilidade de fazer parte da matilha. Como é difícil se manter, de pé, sem ser incluído, sem a sensação de pertencimento. Imagine, para piorar, que este adolescente não só será excluído, como será rechaçado, humilhado e carimbado com o selo “você nunca fará parte”.

De quem é a culpa?, se perguntam as mães do WhatsApp. De quem é a culpa? nos perguntamos. Claro que a culpa é nossa. Dos pais, dos vizinhos, dos amigos, dos educadores que toleram o bullying. Talvez seja uma culpa ancestral, fruto de um comportamento que determinava quem era forte, fraco (ou mais adaptável), quem contribuía mais ou menos para a sobrevivência da tribo, 20, 40 mil anos atrás. Talvez a gente ainda não seja capaz de entender que não precisamos mais disso. Não precisamos massacrar alguns para a sobrevivência do grupo, não precisamos continuar acreditando em perdedores e vencedores para manter um sistema social que está prestes a ser reduzido a pó – assim, espero.  

Por outro lado, não acho que apenas reconhecer a culpa coletiva vá nos tirar deste lugar atônito, perplexo. Coisas ruins acontecem, mas coisas boas também

Uma escola que tem a coragem de tomar uma atitude contra a humilhação de um de seus alunos, mesmo correndo o risco de ver sua crise existencial exposta na mídia, é um sinal de coisa boa. Uma família que percebe que o filho ficará melhor em ambiente menos hostil parece uma coisa boa. Bullying acontece porque há omissão. A própria natureza do bullying – violência endereçada, contínua – exige a presença de testemunhas coniventes.

Finalmente, lembro de uma conversa que tive com um executivo bem sucedido que, na infância, havia passado pelo que, hoje, consideramos bullying. “A gente está dando muito importância a isso, exagerando”, me disse ele. “Eu ganhei apelidos depreciativos, fiquei de fora de muitas festas, mas sobrevivi. Ganhei casca dura. Isso faz parte do crescimento.” Depois da entrevista, ao escrever o livro, eu me perguntei se, de fato, a gente estava valorizando muito as dificuldades que aparecem no caminho nos nossos filhos; protegendo-os demais e deixando-os pouco preparados para a competição dura e injusta que certamente viverão – pelo menos algumas vezes – no amor e no trabalho.

Mas, mesmo considerando que a visão do executivo tenha pontos válidos, continuo achando que não há nada que justifique um comportamento perverso contra uma criança ou um adolescente. Nem mesmo a certeza de que também os culpados sofrerão. “Vai sobrar para todo mundo”, me diz a mãe de alunos no Santa Cruz, que estuda os princípios da Justiça Restaurativa, aquela que coloca vítimas e agressores para conversar. “Algoz e vítima sofrem a consequência da violência que viveram juntos”, acredita ela. Eu concordo.

 

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“Tem velho que inferniza os filhos”, diz historiadora de 88 anos http://nos.blogosfera.uol.com.br/2019/04/07/tem-velho-que-inferniza-os-filhos-diz-historiadora-de-88-anos/ http://nos.blogosfera.uol.com.br/2019/04/07/tem-velho-que-inferniza-os-filhos-diz-historiadora-de-88-anos/#respond Sun, 07 Apr 2019 08:00:34 +0000 http://nos.blogosfera.uol.com.br/?p=303 Foto: arquivo pessoal

Se por acaso você se encontrar com a historiadora Marina Vaz numa reunião, por exemplo, e quiser ajudá-la a se levantar da cadeira, vai passar um vexame. Ela não só recusará aceitará a gentileza, como vai te olhar de cara feia. Aos 88 anos, Marina prefere não facilitar sua própria existência. “Se a gente deixa de fazer uma coisa, não consegue voltar atrás depois”, me explica. “Tem muito velho que se apoia sem necessidade nas pessoas.” Marina admite que seu corpo envelhece de forma gentil, diferentemente de muitos outros. Ela anda sozinha, pega ônibus, pula Carnaval. A cada quinze dias, pelo menos, sai de seu apartamento, no Butantã, São Paulo, e viaja com amigos pelas estradas difíceis da Serra da Mantiqueira. Lá, atualmente, a historiadora estimula os jovens vizinhos, estudantes secundaristas, a conversar com os familiares mais velhos. O projeto é uma tentativa de “recuperar as vozes do passado através da história oral”, porque quase não há documentos sobre o antigo cotidiano de São Francisco Xavier, vila charmosa ligada à cidade de São José dos Campos, onde Marina mantém segunda residência. Ela representa bem os perennials, os idosos que não cabem nos estereótipos de velhos. Nesta entrevista, que fizemos em seu apartamento, comendo biscoitos de sequilhos e tomando café coado, à moda mineira, Marina conta como é chegar a quase um século de vida com independência e sem medo da morte.

 Você se considera uma perennial?
Acho que sim. Sei que sou velha, óbvio, tenho 88 anos de idade. Mas não me comporto como uma velha tradicional. Sei que sou ponto fora de curva, porque a grande maioria dos velhos não planejou sua velhice. O tempo de vida aumentou e muitos contemporâneos meus preenchem este tempo com doenças, reclamações e dependência de filhos. Não aguento isso. Não gosto de velho chato. A velhice potencializa algumas chatices. Muitos velhos perdem a generosidade, ficam egoístas, acham que o mundo e os filhos têm obrigação com ele. Tem muito velho que inferniza os filhos.

Tem muitos filhos que infernizam os velhos também…
(Risadas). É verdade, uma das minhas filhas tenta me controlar. Sei que as intenções são as melhores, mas o que fazer? Quer saber o que eu como, com qual sapato eu ando. Quando eu vou sair, me dá mil recomendações. Bobagem, enquanto eu estiver lúcida, não quero ser controlada nem cuidada.

“Uma coisa importante explica o fato de eu estar tão bem: eu não tenho marido. Casamento é uma merda” 

Um estudo sobre os perennials afirma que a maneira como se envelhece – boa ou má – depende da maneira como se encara a velhice. Se você é pessimista, envelhece mal e vive menos, em resumo. Você concorda?
Quem envelhece mal é quem não se preparou para isso. Principalmente os homens, que não conseguem aproveitar a vida depois que deixam de trabalhar. As mulheres da minha geração têm sempre alguma coisa para fazer. Eu, por exemplo, cozinho. Planto minhas verduras, hortaliças, na minha segunda casa, em São Francisco Xavier (interior de São Paulo). Eu acompanho o ciclo da vida. Colho, cozinho, como ou sirvo para amigos. Adoro fazer isso. Adoro fazer doce com as frutas das minhas árvores e dar as compotas de presente. Também voltei a bordar, estudar música. E nunca deixei de ler. Além de conviver com a roça, tem uma coisa muito importante que explica o fato de eu estar tão bem. Eu não tenho marido (risadas). Me separei aos 50 anos. Sofri pra burro, mas agora vejo que tive muita sorte. Casamento é uma merda. Absolutamente, eu jamais me casaria de novo.

Sua vida saiu como você planejou?
Não, minha geração não planejava a vida. Fui para a faculdade porque quis, insisti até. Casei nova, tive seis filhos porque naquela época não tinha como evitar. Cuidava das crianças e do meu marido. Criei meus filhos na época da ditadura, pós 68 e aprendi muito com eles. Precisei me mudar duas vezes, acompanhando as transferências que o trabalho do meu marido exigia e deixando meu próprio trabalho para trás. Fui professora em Belo Horizonte e em Curitiba. Perdi um filho, me separei, perdi outro filho. Não, claro que minha vida não saiu como eu queria, nem se eu tivesse planejado. Mas ficou muito melhor quando eu percebi que precisava trabalhar pelo meu espaço. Isso foi importante na época, pouco antes dos meus 50 anos. Depois do divórcio, voltei a estudar, fiz mestrado e doutorado, ganhei uma bolsa da OEA (Organização dos Estados Americanos) para um curso de documentação na Espanha. Lecionei na Escola de Sociologia e Política… Este aprendizado, de que eu precisava do meu espaço, é o que eu mantenho até hoje, na velhice.

Sua vida social é bem agitada. Isso deve contribuir para sua saúde mental.
É verdade. Eu tive amigas intelectuais, muito talentosas, mas que perderam a vida social depois de certo tempo. Estas minhas amigas envelheceram mal, não conquistaram um espaço delas. Ficaram em função de filhos, de netos. Eu não sou refém de nada disso. Gosto de sair com pessoas de todas as idades, inclusive com meus netos de 20 e poucos anos. Tenho uma relação de troca com eles e isso faz bem para os dois lados. Um dia desses, fui com um dos meus netos até a 25 de março para comprar uma fantasia de Carnaval. Fomos de ônibus. Quando eu estava lá, perguntei para ele se o programa não era muito chato. Ele é intelectual, não achei que estivesse se divertindo na 25. Mas ele me respondeu que estava adorando. “Quem tem o privilégio de acompanhar a avó de 88 anos para comprar fantasia?”

Você comentou comigo que este seria seu último Carnaval e que, por isso, queria caprichar…
Ah, acho que eu estava brincando. Faz tempo que falo que vou pular meu último Carnaval. Mas este, de fato, foi importante para mim porque eu queria sair com as cores do LGBTQ, estava farta daquela conversa da ministra Damares, dos meninos de azul e meninas de rosa. Mas esta história do último… É uma piada. Sei que falar de morte é uma dificuldade para a maioria das pessoas, inclusive dos mais velhos. Mas eu não me importo de falar sobre isso. Não tenho medo de morrer. Estaria mentindo se dissesse que não tenho medo de sofrer, mas de morrer, não.

 Sempre foi assim ou teve algum momento que você perdeu o medo de morrer?
Perdi o medo há exatamente 30 anos, em 1989, quando um filho meu morreu. Acho que eu me preparei para a morte junto com ele. Foram dois anos de preparação, ele tinha uma doença terminal, e nós conversávamos muito sobre a morte. Sabíamos que era inevitável. Não me julgo religiosa, mas gosto de pensar no que o budismo prega, na ideia de aceitar a finitude.

 Não teve a ver com sua idade, então.
Quando este meu filho morreu, eu tinha 59 anos e estava começando a envelhecer. Para falar a verdade, eu era uma velha naquela época. Quando fiz 70 anos, era mais nova do que aos 59 (risadas). A sociedade mudou muito, a longevidade mudou. Mas eu sempre pensei no assunto e me preparei.

“Faço questão de andar sozinha. Tomando cuidado, olhando bem o chão pra não cair. Mas sozinha, enquanto for possível”

Quando você começou a planejar sua velhice?
Quando comecei a perceber as limitações. Felizmente, tenho uma memória muito boa, enxergo e escuto bem. Sei que não tenho um perfil físico de uma mulher de 88 anos. Eu ando de ônibus, limpo minhas casas, cozinho, saio, vou a festas. Mas tenho limites. Parei de dirigir aos 83 anos, operei de catarata, uso pouco açúcar. Um dia, perdi o sapato e fiquei ajoelhada, procurando. O joelho doeu… Resumindo, comecei a planejar a velhice quando entendi que precisava viver dentro dos meus limites. E, como detesto ser dependente, passei a economizar para poder estender ao máximo minha autonomia. Sempre fui boa administradora e tive sorte. Mantenho um estilo de vida confortável, mas econômico. Guardo para o dia em que eu não puder me cuidar sozinha e precisar de um cuidador.

 Você não gosta de ser ajudada, não é? Por quê?
Tem muito velho se apoia nas pessoas sem necessidade. Conheço muita gente que fica sentada, pede água pro filho, pede ajuda pra levantar da cadeira. Essas pessoas não entendem que se deixam de fazer uma coisa uma vez, depois não conseguem mais fazer de novo. Por isso, faço questão de andar sozinha. Tomando cuidado, olhando bem o chão pra não cair. Mas sozinha, enquanto for possível.

 O que você pode dizer para pessoas com 50, 60 anos de idade, em relação ao envelhecimento?
Façam um planejamento financeiro, cuidem da saúde e procurem perceber o que vai te fazer bem na velhice. Não coloque sua realização na vida dos outros, nem que os outros sejam seus filhos. Você tem que orientar sua vida para a autossuficiência emocional.

 Você não se enxerga como velha. E como as pessoas te enxergam? Você, como outros idosos, acha que ficou invisível?
Não, pelo contrário. Quando vou a algum lugar, sinto que as pessoas querem me ouvir. E, claro, eu também converso no pé de igualdade, não me inibo, tenho papo para todo mundo. Muitas pessoas mais velhas que eu conheço que sentem rejeitadas. Ficam ressentidas porque não foram convidadas para o casamento, a formatura, o batizado. Acho tudo isso um porre. Prefiro ir ao Carnaval.

Leia também: Os idosos são os novos invisíveis

8 dicas para começar agora a planejar uma velhice tranquila

 

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Dia da mentira: 4 crenças sobre as mulheres desmentidas pela ciência http://nos.blogosfera.uol.com.br/2019/03/31/dia-da-mentira-4-crencas-sobre-as-mulheres-desmentidas-pela-ciencia/ http://nos.blogosfera.uol.com.br/2019/03/31/dia-da-mentira-4-crencas-sobre-as-mulheres-desmentidas-pela-ciencia/#respond Sun, 31 Mar 2019 07:14:19 +0000 http://nos.blogosfera.uol.com.br/?p=292  

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Estamos aqui, no século 21, uma época em que as mulheres nunca tiveram tantos direitos na história recente – ao voto, ao divórcio, ao planejamento familiar, ao trabalho remunerado, a sair sozinha e tomar um chope em um bar. Ao mesmo tempo, estamos a quase um século de conquistarmos a equidade, a situação em que homens e mulheres têm direitos e oportunidades iguais. Quando grupos diferentes se equilibram entre dois lados – quem manda e quem é mandado –, uma estratégia bastante usada para a manutenção do poder é a mentira.

Neste primeiro de abril, descubra algumas das mentiras que ainda ouvimos – e acreditamos – sobre as mulheres nesta entrevista que fiz com o cientista Altay de Souza, pesquisador PhD do Departamento de Psicobiologia da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP). Além de dominar várias disciplinas da ciência, Altay é o cara que faz parceria com Ken Fujioka no ótimo Naruhodo, um dos podcasts de divulgação científica mais legais do mundo.

  1. Só mulheres têm “instinto materno”?

Não. Durante a gestação, o parto e sobretudo durante o período em que o bebê tem menos dois meses, uma série de hormônios é liberada no corpo da mulher para estimular sua ligação com a prole, seus filhos. O principal destes hormônios é a oxitocina, produzida pelo hipotálamo no cérebro e colocada no sangue por uma glândula chamada pituitária. Ele é conhecido como hormônio responsável pelo comportamento de apego. Mas homens que acompanham o processo de gestação, de nascimento e de cuidado com o bebê, também sofrem aumento do nível de oxitocina – embora não tão elevado quanto o da mulher –, ao mesmo tempo em que ocorre uma redução do nível da testosterona, substância virilizante. Portanto, a rigor, esta disposição para a maternagem e o cuidado parental pode existir tanto no homem quanto na mulher. Uma coisa importante quanto à questão: costumamos imaginar que comportamentos, como o instinto materno, são determinados pela biologia ou pelo ambiente, de forma excludente. Mas isso é uma falácia baseada em uma falsa dicotomia. Todo comportamento é sempre uma combinação de fatores biológicos/genéticos e da interação social. O que muda é a intensidade de cada um destes fatores, em função do período do ciclo de vida do indivíduo e do ambiente naquele momento. Para a ciência biológica, o instinto é uma predisposição inata para a realização de determinadas ações ou comportamentos padronizados. Nos animais não-humanos, os comportamentos com forte componente genético/biológico são mais evidentes do que nos humanos, porque boa parte da nossa maturação cerebral acontece fora do útero, o que aumenta a intensidade do fator ambiental.

  1. Mulheres são multitasking? Isso é uma habilidade feminina?

Falei recentemente sobre multitarefas em um dos nossos podcasts, inclusive. Não. Não há  nenhuma evidência científica formal da existência dessa habilidade ou peculiaridade. Aliás, nem mulheres nem homens são multitasking, porque não somos capazes de fazer duas coisas ao mesmo tempo. No máximo, alternamos nossa atenção entre uma coisa e outra, o que compromete nossa capacidade cognitiva e nossa performance. Em suma, se você fizer uma coisa de cada vez, além de fazer mais rápido, vai fazer melhor e com menos erros. O multitasking está relacionado às mulheres porque faz parte da representação social feminina – as mulheres têm de trabalhar, cuidar dos filhos, da casa etc. Nesse sentido, dizer que isso é uma “habilidade” feminina apenas condiciona as mulheres a aceitar a ideia de que tripla jornada é natural. “Vocês dão conta”, elas ouvem, porque é “normal mulher ser multitarefas”. Em vez de valorizar a figura feminina, essa suposta habilidade a estereotipa em um papel social desgastante.

  1. Mulheres que usam a suavidade natural do gênero são mulheres negociadoras?

Não. Isso também é uma categorização atribuída à figura feminina moderna de sociedades ocidentais. Não tem essa coisa de mulheres serem mais suaves, gentis, sedutoras. Falando como psicólogo, suavidade é um termo que descreve alguns comportamentos mas não explicam nada. Eu não olho o seu comportamento e digo que ele é suave; eu olho seu comportamento e associo com algo que eu entendo que é suavidade. Como é possível desenvolver competências comportamentais que, em uma negociação por exemplo, podem gerar essa percepção de suavidade? Podemos medir competências como auto-controle, (capacidade de esperar para um ganho maior no futuro, frente a um ganho menor presente), impulsividade e controle inibitório (o quanto aguentamos esperar e dar lugar ao outro), capacidade de ter alteridade (se colocar na posição de que eu não entendo o lugar do outro, mas sim tenho curiosidade em entender). Mas não podemos medir a suavidade como competência. Geralmente, essa percepção de que mulheres são mais eficientes em negociações acaba sendo um co-produto “positivo” da nossa percepção sobre a diferença entre os gêneros. Em um contexto de negociação, saber quando encarnar o estereótipo que o outro espera (submissão) ou reagir a ele (ser imponente e agressiva), aumenta a persuasão positiva dos outros para com o negociador.

  1. A equidade de gênero não é natural.

A seleção natural não liga para o que as pessoas pensam sobre equidade, ela apenas seleciona traços adaptativos que favorecem a sobrevivência da espécie (e sobretudo, dos seus genes). As diferenças de gênero existem, é óbvio. O problema é achar que diferenças são vantagens. O que pode, finalmente, nos tornar um pouco diferentes de outras espécies é o fato de que temos uma cultura – que também foi fruto de seleção natural – com regras próprias. Entre elas, o princípio da Razoabilidade, da Equivalência e da Equidade. Deixar de pensar que diferenças necessariamente são vantagens e que uma sociedade mais equitativa entre os gêneros vai ser mais justa e maximizar as potencialidades e aptidões dos indivíduos é o papel de todas as pessoas. Para mim é difícil imaginar uma sociedade organizada com essa perspectiva de equidade porque nunca experimentamos essa situação na História que conhecemos. Mas que seria legal, seria, não é?

Leia também: 6 lições sobre assédio que sua filha pode ensinar para sua mãe

De Darwin a Harvard, as mentiras que a ciência já contou sobre as mulheres

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Ativistas ameaçadas de morte se unem em PE: “Fugi do Brasil”, diz uma delas http://nos.blogosfera.uol.com.br/2019/03/23/ativistas-ameacadas-de-morte-se-unem-em-pe-fugi-do-brasil-diz-uma-delas/ http://nos.blogosfera.uol.com.br/2019/03/23/ativistas-ameacadas-de-morte-se-unem-em-pe-fugi-do-brasil-diz-uma-delas/#respond Sat, 23 Mar 2019 07:11:49 +0000 http://nos.blogosfera.uol.com.br/?p=277  

(Foto: arquivo pessoal) A defensora de direitos humanos, Eleonora, cujo filho foi assassinado   

No dia 28 de março, na cidade do Recife, mulheres ativistas vão se reunir para conversar sobre as ameaças que estão recebendo por defender os direitos humanos no Brasil. O encontro está sendo organizado pelo Ministério Público de Pernambuco em conjunto com o movimento Mães pela Igualdade, que nasceu em 2011 para lutar contra a homofobia. Nesta entrevista, Eleonora Pereira, integrante do Mães pela Igualdade, fala sobre sua preocupação com a vida das ativistas.

Em 2010, você perdeu um filho de 24 anos de idade, o José Ricardo, espancado até a morte. Apesar de o crime ter conotação homofóbica, você costuma dizer que seu filhos foi morto no seu lugar, por causa da sua atuação em defesa dos jovens vulneráveis do bairro onde morava, o Jardim São Paulo. Quase dez anos depois, como está a situação dos defensores de direitos humanos no Brasil? É muito delicada. Por isso, estamos organizando este encontro de mulheres ativistas. Queremos dar visibilidade para a situação de ameaça às nossas vidas, a falta de proteção do Estado. A morte da Marielle (a vereadora Marielle Franco) chamou a atenção do mundo para a gravidade da situação, mas precisamos mostrar que o perigo continua existindo. Muitas mulheres morrem em luta contra o crime organizado, em conflitos na luta pela terra, em defesa do meio ambiente e não ficamos sabendo. Em 2017, a Front Line (ong irlandesa Front Line Defenders, de proteção aos defensores de direitos humanos) disse que 68 defensores foram mortos no Brasil. Só em dezembro do ano passado foram assassinados oito defensores no Nordeste. Existem quinze mulheres ameaçadas de morte só no Recife.

Você voltou há pouco para o Brasil, depois de uma temporada na Angola. Por que esteve lá? Eu fugi do Brasil porque estava sendo ameaçada por grupos de extermínio de Recife. Fui em 2016 e voltei em novembro do ano passado. Lá, eu continuei trabalhando com a comunidade LGBTQ (Lésbicas, gays, bissexuais, transexuais e queer). O problema é que as ameaças continuam e não consegui ser inserida no programa de proteção aos Defensores de Direitos Humanos de Pernambuco. (Desde 2004, alguns defensores recebem proteção do Estado, como monitoramento das atividades e acompanhamento policial.)

Então, você está sem proteção… Não sou só eu. Uma defensora ameaçada, aqui do Recife, não pode sair de casa porque não tem acompanhamento policial, apenas sua casa é monitorada por camêras. Uma ativista trans, de combate à tortura, foi ameaçada e se exilou. Está no Canadá. Queremos que o Brasil cumpra a resolução 68 da ONU, que cobra uma proteção maior aos defensores.

Você não pode voltar à sua casa por causa das ameaças e está levantando verbas em um crowdfunding para pagar o aluguel. Que tipo de atividade está conseguindo desenvolver no Recife nessas condições? Estou trabalhando nas periferias, principalmente com mulheres que perderam seus filhos e mães que não os aceitam por serem LGBTQs. Acolher uma mãe que perde um filho é um trabalho muito difícil, que quase ninguém sabe fazer. Depois do enterro, esta mãe, que estava acompanhada por muita gente, fica sozinha. Passa um ano, passam três, e a dor continua, mas ela está sozinha. Então, a gente se reveza para poder ligar, ajudar a trabalhar o luto, a fortalecer esta mãe para ela se cuidar e não se sentir sozinha. Nas periferias, também acompanho mães que discriminam seus filhos, principalmente mães muito religiosas que vêem a homossexualidade e a transexualidade como um pecado.

Qual a diferença entre mães da periferia e de bairros de classe média, neste aspecto? A maior diferença está nas oportunidades que os filhos têm de criar um futuro, mesmo dentro de uma família preconceituosa. Por exemplo, eu acompanho uma família cuja mãe é muito agressiva com o filho, deixou o marido expulsá-lo de casa na adolescência. Nós precisamos chamar o conselho tutelar para reintegrá-lo à família, mas a relação dos dois não é boa. A mãe o chama de prostituto e ele, agora com 18 anos, a ameaça com a possibilidade de fazer programa. Estamos tentando inseri-lo no mercado de trabalho para que isso não aconteça. Na classe média, transexuais talvez não precisem virar prostitutas para sobreviver.

Você também atuou em situações de tráfico de transexuais… Aqui, no Nordeste, temos uma rota de tráfico de trans que comeca no Piauí e , vem pelo litoral até a Paraíba. As quadrilhas são formadas, em geral, por um casal native, que aluga uma casa na praia onde circula muita gente, muito turista. Nesta casa, eles recebem meninos gays do interior que, depois, são levados para clínicas de transformação no Rio de Janeiro. Lá, eles modelam o corpo. Você sabia que os trans com quadris largos valem mais neste mercado?

Não sabia… Pois é. Eles recebem silicone e são enviados para a Itália, em geral. Muitos trabalham na prostituição em sistema de escravidão. O dinheiro que ganham mal dá para a comida que é cobrada. Além disso, muitos gays que não são trans estão se submetendo à mudança do corpo na ilusão de ganhar dinheiro fora do país. E os pais incentivam. Tudo o que querem é que o problema, o fato de ele ser gay, se transforme numa fonte de renda para a família. Há dois anos, recebi uma denúncia de tráfico de prostituição e a Polícia Federal conseguiu desarticular uma rede internacional. Eles estavam com uma garota de 14 anos em cativeiro. Na casa, também tinha dois adolescentes gays.

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