Blog Nós http://nos.blogosfera.uol.com.br Reflexões de uma jornalista otimista sobre nossa vida em comum Sat, 25 Jul 2020 07:40:19 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=4.7.2 Projeto do YouTube convida a pensar que recado você quer deixar pro futuro http://nos.blogosfera.uol.com.br/2020/07/25/projeto-do-youtube-convida-a-pensar-que-recado-voce-quer-deixar-pro-futuro/ http://nos.blogosfera.uol.com.br/2020/07/25/projeto-do-youtube-convida-a-pensar-que-recado-voce-quer-deixar-pro-futuro/#respond Sat, 25 Jul 2020 07:40:19 +0000 http://nos.blogosfera.uol.com.br/?p=1031

(Daniele Franchi/Unsplash)

Não sei se você viu, mas o YouTube nos convidou a pegar o celular neste sábado (25) e gravar trechos do cotidiano. Como o convite não é exclusivo,  imagine a quantidade de cenas do dia a dia que serão capturadas e enviadas ao diretor de cinema Ridley Scott, contratado para produzir o documentário sobre nossas vidinhas. Um filme “cápsula do tempo”, definição do próprio YouTube. 

Não é a primeira cápsula do tempo, não deverá ser a última. Existem várias por aí, com música, roupas, documentos –e até um Chevrolet– aguardando milênios para serem abertas. As cápsulas criadas pela empresa Westinghouse, em 1939 e em 1965, estão três metros abaixo do solo de Nova York e têm instruções para serem abertas apenas em 6939.  Várias cápsulas estão no espaço, na difícil missão de apresentar a humanidade para extraterrestres. Duas viajam a bordo de naves Voyager, outras descansam no interior das sondas Pioneer 10 e Pioneer 11. 

Veja também

O que a cápsula do YouTube deveria conter? O que diríamos sobre nós mesmos a outro ser humano do futuro? Vamos começar pelos “big numbers”. Somos quase 7,8 bilhões de pessoas [1] e continuamos crescendo. Inventamos uma tecnologia que controla a quantidade de filhos, mas, ainda assim, apenas no primeiro dia de 2020, nasceram 392 mil bebês humanos. [2]

Produzimos comida suficiente para alimentar todo mundo e estamos tendo mais problemas de saúde relacionados ao excesso de comida do que à falta dela. Mesmo assim, existe gente passando fome. Estamos nos perguntando, agora, se os recursos da Terra serão suficientes para a nossa sobrevivência, já que nossa atividade afetou 75% da superfície dela. Verdade que conseguimos chegar à Lua e planejamos aterrissar logo em Marte, mas ainda não encontramos outro lugar para morar e prolongar nossa existência.  

Falamos mais de 7.000 línguas e quase todos conseguimos ler os letreiros de ônibus e escrever o próprio nome.  Mas 10% dos nossos ainda são analfabetos. Por outro lado, estamos nos comunicando como nunca, falando mais do que escrevendo, porque inventamos um aparelho que facilita a comunicação e permite enviar e receber mensagens gravadas.

É verdade que estamos dependentes dele, especialmente as crianças. Um dado que fala muito sobre nossas condições atuais: ganhamos muitas décadas de vida. Hoje, os brasileiros chegam aos 80 anos. No começo do século passado, mal beiravam os 40. Por este ponto de vista, é como se passássemos a viver duas vidas em uma.

Somos muito parecidos, uma espécie bem homogênea. Alguns poucos traços nos diferenciam, mas insistimos em valorizar mais as diferenças do que as semelhanças, o que naturalmente gera bastante tensão. Não nos incomodamos muito com desigualdades econômicas e sociais, embora o eixo ético e religioso predominante defenda a justiça e a compaixão. No fim da Segunda Guerra Mundial, no meio do século 20, nos comprometemos a garantir direitos a determinados grupos humanos que havíamos acostumado a desprezar, a excluir, a privar do acesso ao que chamamos cidadania.  Estamos brigando até hoje para que este compromisso seja honrado.

Nos consideramos muito violentos. De fato, nos matamos e nos agredimos, mas um psicólogo canadense, Steven Pinker, diz que nossa era é mais pacífica do que pensamos [3]. Conflitos e guerras contemporâneos, por exemplo, fizeram menos vítimas do que outros eventos do passado. Proporcionalmente, morreu, na Segunda Guerra, metade do número de pessoas que perdeu a vida na queda de Roma, há 16 séculos. As conquistas mongóis, entre os séculos 13 e 14, por sua vez, teriam matado cinco vezes mais vezes mais do que a última guerra mundial.

Somos reclamões por natureza e temos angústias. Uma doença chamada depressão acomete 350 milhões de pessoas no planeta. Mas somos meio bobos também, gostamos de piadas e comédia. Gostamos de estar juntos, o que certamente nos ajudou a chegar onde chegamos enquanto espécie. Agora, estamos em um momento incomum, quando uma doença altamente contagiosa nos isolou dentro de casa, matou mais de meio milhão de pessoas em poucos meses e aumentou muito o número de pessoas em estado de extrema pobreza.  

Mas ainda acreditamos que vamos sair dessa. 

Enviar um pedaço do nosso presente para o futuro, exatamente neste momento, é mais do que uma experiência documental. Acho que é um exercício de fé. Ainda não sabemos exatamente quem somos e em que lugar da história estamos. E, mesmo assim, não nos imaginamos sem futuro. Somos seres bem esquisitos. 

Boa sorte para Ridley Scott.

 

[1] Our World in Data.

[2] Unicef/estimativa

[3] No livro “Os Anjos Bons da Nossa Natureza”. Companhia das Letras. 2013.

]]>
0
O que aprendi com a minha pia de louça suja http://nos.blogosfera.uol.com.br/2020/07/18/o-que-aprendi-com-a-minha-pia-de-louca-suja/ http://nos.blogosfera.uol.com.br/2020/07/18/o-que-aprendi-com-a-minha-pia-de-louca-suja/#respond Sat, 18 Jul 2020 07:00:05 +0000 http://nos.blogosfera.uol.com.br/?p=1023

Foto: Harry Grout/Unsplash

Entro na casa dele. Arrumada, limpa, feita para receber. Cada canto tem uma graça. Um móvel resgatado da família. Um vaso com folhagens secas, resgatadas do desprezo, em um arranjo surpreendente e encantador. Livros empilhados –de maneira irregular, como um sorriso levemente torto, mas bonito ainda assim. Penso que esta casa é um presente para os olhos dos visitantes que, como eu, apreciam minúcias.

Agora, a cozinha, onde vejo a pia seca. Óbvio que tudo foi lavado e guardado, como eu já esperava. Mas o detalhe daquela grande superfície de inox sem um pingo de água me chama a atenção. Quem consegue isso, meu Deus? Uma pia imaculada, como a Virgem Maria? Começo a salivar, estou com inveja.

Minha cozinha nunca ficou assim. Juro que já tentei, nestes últimos cinco, seis anos, quando passei a lavar a própria louça e a da família. Mas, ao contrário da pia que eu estou vendo, a minha sempre tem uma colherzinha suja de café, um copo com bordas manchadas de suco, um prato com lascas de pão. Por trás da torneira, por mais que eu seque, o granito se afoga nos respingos.

Veja também

E vamos à história da briga com minha pia. Ela me escraviza. Posso passar horas diante dela, até ficar com dor nas costas, e não consigo deixar de servi-la. Máquina de lavar louça ajuda, mas não resolve. A pia foi, é e continuará sendo motivo de brigas com filhos e gatilho para combinados novos.

“A partir de segunda-feira, sujou, lavou”, dizem eles. “E as panelas? O escorredor de macarrão? A jarra de suco?”,  pergunto. “Ah, então a gente deixa juntar até acabar a louça do armário”, tentam. “E quem aguenta viver assim?”,  pergunto de novo. Meus filhos acham que sou neurótica com esse negócio de arrumação. Eu acho que eles folgam porque têm uma mãe neurótica.

Quando você olha para o abismo, ele olha para você de volta. Eu e a pia. Olho para ela, o abismo me chama. Como já passei muito tempo diante da cuba, da torneira e do detergente, refleti bastante, tenho certa intimidade com o tema. (Preciso reconhecer que isso eu faço e acho bom enquanto lavo louça: penso.)

“O que eu realmente quero, qual o meu sonho em relação à pia?”, me pergunto, brincando de terapeuta imaginária comigo mesma. “Quero uma pia limpa”, me respondo. “Sempre limpa. E, se não for desejar demais, seca como a do meu amigo.” Mesmo que isso pareça anúncio de absorvente, não reviso a minha vontade. Desejo controlar a pia. Quero que ela congele na situação ideal. Linda. Irretocável. Impossível. Tipo “ninguém entra e ninguém sai”. Tipo “’parem as máquinas”. Tipo “quem manda aqui sou eu”.

Em relação à pia, sou uma fotógrafa, nunca uma cineasta. Desejo arrumar a cena, ajeitar a luz, cuidar da simetria. Consertar a realidade, talvez? Eternizá-la no frame que me agrada. Para ser bem sincera, esta história de congelar cenários também se repete fora da cozinha. Mania de controle vicia, mas é tão frustrante quanto a maldição de Sísifo, o príncipe que passa a eternidade subindo uma pedra que sempre retorna ao lugar de onde foi tirada. Ou, para quem não gosta de mitologia grega, querer controlar é tão frustrante quanto secar gelo. O que é vivo –a pia ensina– é incontrolável. Coisa mais injusta…

]]>
0
Se o home office sobreviver, torço pela morte das reuniões http://nos.blogosfera.uol.com.br/2020/07/11/se-o-home-office-sobreviver-torco-pela-morte-das-reunioes/ http://nos.blogosfera.uol.com.br/2020/07/11/se-o-home-office-sobreviver-torco-pela-morte-das-reunioes/#respond Sat, 11 Jul 2020 07:00:02 +0000 http://nos.blogosfera.uol.com.br/?p=1012

Foto: Christina @ wocintechchat.com/Unsplash

O home office foi aprovado por 70% dos entrevistados em uma pesquisa da Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuária (FEA) da USP, conforme notícia publicada nesta semana. A maior parte desses entrevistados recebe altos salários.

A ideia do home office frequentava minhas aspirações e a de muitos colegas da editora Abril, onde trabalhei por muitos anos e na qual experimentei o mundo corporativo. A Abril foi uma empresa vibrantemente criativa. Uma delícia. Mas também exigente. Meus últimos anos foram exaustivos e, talvez por isso, a fantasia de trabalhar perto dos filhos, maridos, mulheres, gatos e cachorros fizesse tanto sucesso. Um dia na semana de home office significava, acima de tudo, um dia na semana sem reunião.

Veja também

Quando leio que a prática é irreversível, que o mundo do trabalho sofrerá mudanças profundas a partir dessa experiência forçada pela pandemia, fico imaginando o que acontecerá com as reuniões. Será que, finalmente, vamos mexer com a insidiosa cultura das reuniões, a solução mais bem-intencionada e menos produtiva do atual modelo corporativo?

Claro, existem reuniões e reuniões. Algumas, poucas, são para produzir um trabalho coletivo. A maioria serve para que várias pessoas ouçam o que o chefe tem a dizer. Ou para responder o que o chefe tem a perguntar. E quanto mais gente tem na reunião, mais chata ela fica. Porque, com muita audiência, sempre acontece uma apresentação em Power Point. As reuniões começam como sala de aula e terminam como uma lista de “to dos”, uma lista de tarefas.

Epa, quem tem chefe pode ter subordinados, certo? E a lista de “to dos” passa a ser cascateada pela empresa, à medida em que as equipes vão sendo convocadas para ouvir o que o chefe ouviu do chefe dele. Resultado: a empresa vive sentada, tomando cafezinho, anotando o serviço que precisa ser feito –e que leva muito tempo para ser entregue porque, você sabe, está todo mundo em reunião.

Para quem acha que estou exagerando, admito: estou generalizando, deve ter uma ou outra empresa onde as reuniões são diferentes das descritas. Por outro lado, há prova maior de que as reuniões são uma praga nas empresas do que a falta insistente de salas disponíveis para os encontros? Por mais áreas que existam destinadas a esse fim, nunca tem sala suficiente.

O efeito mais enganoso da reunião é que ela só parece ser produtiva. Como é possível produzir quando uma pessoa tem três, quatro reuniões por dia? Que tempo sobra para ela desenvolver o trabalho? Que tempo sobra para pensar, encontrar soluções, buscar resultados?

E aí vem o efeito mais perverso, justamente o efeito come-tempo. Não existe nada mais matador. Um profissional que vive em reunião, vive esbaforido, sem tempo. Uma pessoa sem tempo costuma ser uma pessoa sem capacidade de ouvir, processar o próprio pensamento. Daí vem a segunda etapa da perda de produtividade, o “briefing” superficial e desamarrado, a encomenda que exige respostas para perguntas que não foram sequer formuladas. Assim como as reuniões, o “briefing” mal feito também cascateia. E o resultado é mais perda de tempo com o “briefing” , a refação do “briefing”, o temido alinhamento da expectativa.

Voltando ao começo do texto: o home office. Claro que as reuniões continuam por meio virtual, nem daria para ser diferente. Mas, acredito, com o distanciamento físico parece que elas evidenciam seus defeitos. Certamente, as pessoas já notaram que encontros em vídeo levam menos tempo que os presenciais. O que me faz pensar que, talvez, haja aí uma esperança. Quem sabe comece uma mudança na cultura das reuniões? Quem sabe os executivos consigam desmamar delas?

Tem muita coisa importante para mudar no modelo de trabalho em grandes empresas. Os próprios conceitos de trabalho e de empresa podem estar sendo revisados neste momento. Mas, qualquer que seja o novo modelo, nele a cultura das reuniões não deveria sobreviver.

]]>
0
A pergunta que eu não fiz à minha mãe quando ela se tornou avó http://nos.blogosfera.uol.com.br/2020/07/04/a-pergunta-que-eu-nao-fiz-a-minha-mae-quando-ela-se-tornou-avo/ http://nos.blogosfera.uol.com.br/2020/07/04/a-pergunta-que-eu-nao-fiz-a-minha-mae-quando-ela-se-tornou-avo/#respond Sat, 04 Jul 2020 07:00:45 +0000 http://nos.blogosfera.uol.com.br/?p=1006

Recebo da minha sobrinha uma foto antiga pelo WhatsApp. Já descolorida, mostra minha mãe e meu filho mais velho. Estão lado a lado, de cócoras, com as mãos sobre as bordas de um cocho d’água, um pneu de trator cortado ao meio. Galinhas ciscam ao fundo. A bunda de um porco enorme, branco e preto, está em primeiro plano, o que deixa a foto meio engraçada. No fundo, a única cor que preservou a vivacidade vem de uma grande árvore.

Onde eles estavam? Quando foi isso? Eu não me lembro.

Até receber o registro dela, aquela cena seria considerada uma impossibilidade. Não havia visitado minha família apenas quando meu filho era bebê de colo? E só voltado a vê-los, no Maranhão, cinco, seis anos depois? A foto, tão insignificante na sua banalidade, estava impondo outra história. Subversiva, surpreendente.  

Veja também

É uma situação estranha. Um pedaço do passado que se perdeu na minha memória e que voltou porque alguém o encontrou, no fundo da gaveta, na forma de uma fotografia. Voltou não para me assombrar, mas para me deixar perplexa, como quando se ganha um presente inesperado no meio de um dia comum. Desembrulhei a foto, camada por camada, com o maravilhamento de quem percebe que, dentro do pacote singelo, existe algo de que você vai gostar muito.

Olho atentamente para o rosto do meu filho, um pouco contrariado, parece. O clique deve ter interrompido sua intenção de colocar a mão na água do cocho. Um movimento suspenso, assim como o tempo.

Seu pequeno corpo, só de short, mostra a barriga gordinha das crianças pequenas. Três, quatro anos de idade, calculo. Ao seu lado, uma mulher mais jovem do que eu sou hoje, da qual eu também tinha me esquecido porque minha mãe, a atual, a substituiu completamente. (Quem se lembra da mãe quando ela era jovem? Somos implacáveis na atualização da imagem dos pais, mas absolutamente condescendentes nas nossas. Aos 40, 50 e 60, não nos sentimos duas décadas mais novos?)

Minha mãe veste calças compridas, salmão apagado. O cabelo não tem fios brancos ainda, e ela já é avó. Se fôssemos estranhas, eu diria a ela que parecia muito jovem para ter um neto. E ela responderia que, imagina, até que tinha demorado para vir o primeiro. Eu também perguntaria como ela se sentia sendo avó –pergunta que, aliás, nunca fiz, embora agora me pareça tão obviamente interessante. Perguntei como dar banho no bebê, que chá fazer para a cólica, mas nunca quis saber dos sentimentos dela diante de um neto. Claro, estava muito mais preocupada com meus sentimentos diante de um filho.

Fico curiosa e com vontade de perguntar àquela mulher da foto como estava se sentindo perto de um neto que via tão poucas vezes, que morava tão longe. Estava com medo de que ele não gostasse de seu quintal? Ou tinha certeza de que, sendo criança da cidade, ele tinha se encantado? Eu queria conhecer aquela mulher, queria conversar com ela.

Da primeira visita que fiz a minha família, um ano após ser mãe pela primeira vez, eu me lembro muito bem. Eles tinham acabado de mudar radicalmente de vida, deixando suas antigas e citadinas profissões para estrear na lavoura, em uma cidade que fica a mais de 3.000 quilômetros de distância da minha. Fazenda sem luz, sem água encanada, casa com telhado de sapé e chão batido. Da rodovia mais próxima até a sede, duas horas de viagem em estrada de terra e de areia. Quando furava o pneu, duas horas e meia. Quando furavam dois pneus, seis horas no mínimo, considerando que tínhamos que andar até um vilarejo para encontrar o borracheiro.

Naquela ocasião, eu precisava desesperadamente de férias com meu marido, depois de um ano cuidando do bebê. Sem dormir direito, sem sair para dançar ou ir a uma festa. E como tinha festa nos anos 80 em São Paulo! Na minha fantasia, poderia deixar meu filho com a avó enquanto fugíamos para a praia mais próxima. Foi uma decepção que nunca superei, o fato de minha mãe não ter aceitado nossa proposta. Meses depois, já enxergando a situação de forma mais racional, entendi que ela tomou a decisão correta. Seria um risco muito grande manter o bebê –o bebê da filha– em um local tão precário, distante da cidade e de cuidados médicos.

Entendi, mas não superei.

E percebi isso ao olhar para essa foto como se ela viesse de um universo paralelo. Suponho que a mágoa com minha mãe eclipsou da minha memória o fato de eu ter, sim, visitado a família pouco depois daquela vez em que me foi negada a oportunidade de desfrutar de uma segunda lua de mel, já que a primeira, por falta de opção, foi passada em um motel barato.

Coisas estranhas acontecem quando nossas emoções batem à porta do hipocampo, o centro da memória no cérebro. Coisas estranhas acontecem quando o passado permite ser reescrito. É uma história pequena, boba. A história de uma foto com porcos, galinhas, uma árvore, uma mulher e uma criança. Minha criança. Minha mãe redescoberta. E, enfim, perdoada.

]]>
0
Corrida aos shoppings em meio à pandemia: nossa única diversão é consumir? http://nos.blogosfera.uol.com.br/2020/06/27/corrida-aos-shoppings-unica-diversao-e-consumir/ http://nos.blogosfera.uol.com.br/2020/06/27/corrida-aos-shoppings-unica-diversao-e-consumir/#respond Sat, 27 Jun 2020 14:36:13 +0000 http://nos.blogosfera.uol.com.br/?p=981

Há muito tempo, em outra vida, o shopping center era um programa obrigatório de fim de semana. Dá até vergonha de admitir, mas frequentei muito mais o shopping do que o cinema, o museu, o teatro e o parque. Acho que gastei o valor de uns dois carros em suas lojas.

Aos sábados ou aos domingos, surgia uma sensação difusa de que alguma coisa era extremamente necessária na minha casa, no meu guarda-roupa. Na época, dizia-se que compras e outros mimos eram uma forma de reparação pela semana exaustiva de trabalho. Auto-indulgência. “Eu trabalhei tanto que mereço” aquela roupa cara, aquele jogo de cama de mil fios, aquele eletrodoméstico.

Saía do shopping, horas depois, carregando sacolas pesadas e com a sensação enganosa de que, apesar de estar mais pobre, eu estava mais leve: achava que tinha resolvido vários problemas, havia comprado soluções. Toalhas novas prometiam banhos mais confortáveis. Roupas caras prometiam estilo. Sapatos, minha perdição, prometiam um motivo para começar a segunda-feira com entusiasmo na empresa.

Veja também

Demorou tempo demais para eu perceber que tinha menos alegria do que trabalho ao desempacotar tudo. Que a promessa de felicidade ao sair de casa se transformava em cansaço e vazio. Quantos quilômetros foram gastos em uma imensa caixa fechada, sem abertura para o tempo lá fora? Quanto estressei o cérebro com o excesso de estímulos naqueles labirintos projetados para não ter atalhos?

Cores, mensagens das lojas, cheiros, barulhos: olhando agora, penso que eu vivia em um parque de diversões sem diversão. Hoje, entrar em um shopping me dá uma mistura de emoções. Ansiedade. Desejo. Claustrofobia.  Acho que, como ex-dependente de shopping, chegar perto da droga me causa fascínio e repulsa.

Tudo isso para falar que entendo a corrida aos shoppings em tempo de pandemia. Entendo, não fico chocada com o comportamento das pessoas que, mesmo diante do risco de se contaminar com uma doença grave, não resistem ao apelo do shopping. O lazer das pessoas que vivem em metrópoles é ir ao centro de compras, certo?  Quem já viu pais levarem seus filhos para brincar de bola ou de bicicleta na Decathlon sabe do que estou falando.

As pessoas que correm para os shoppings estão sofrendo com a abstinência das promessas da vida encantada das compras, eu acredito. Nossas estruturas cerebrais, suponho, reagem à visão de objetos que desejamos com uma inundação de neurotransmissores do prazer. Desejamos ter, queremos possuir coisas que consideramos bonitas –não nos contentamos apenas em apreciá-las. Elas, acreditamos, nos fazem pessoas melhores. Mais admiráveis, mais invejáveis, mais dignas. Sim, porque, nessa altura, alguém ainda duvida de que o verbo consumir seja o que melhor define o propósito de vida do ser humano contemporâneo?

O desejo, em si, é algo próprio da vida, claro. Sem ele, não nos levantamos da cama, não sobrevivemos nem garantimos a continuidade da espécie. O problema é que estamos sendo enganados –ou estamos nos enganando. Dizem os sites de etimologia que a origem da palavra consumo não tem a ver com sobrevivência, pelo contrário. O significado em latim da palavra consumo –consumere– quer dizer esgotamento. E o que esgota, acaba.

Não seria bom se, ao final desta pandemia, nós conseguíssemos passear com nossos desejos para muito além dos shoppings?

]]>
0
Carta para mães e pais que não assumem seus filhos LGBTs http://nos.blogosfera.uol.com.br/2020/06/20/carta-para-maes-e-pais-que-nao-assumem-seus-filhos-lgbts/ http://nos.blogosfera.uol.com.br/2020/06/20/carta-para-maes-e-pais-que-nao-assumem-seus-filhos-lgbts/#respond Sat, 20 Jun 2020 07:00:09 +0000 http://nos.blogosfera.uol.com.br/?p=974

Foto: Margaux Bellott/Unsplash

Junho é mês de celebrar o orgulho LGBT+. Enquanto alguns pais e mães estão levantando a bandeira por um mundo mais acolhedor, existem outros que continuam fugindo da luta. Para estes últimos, escrevi o texto abaixo, minha maneira de dizer: junte-se a nós. Orgulho é um sentimento muito mais digno do que a vergonha.

Cara mãe,

Seu filho está na minha casa. Ele é gay. Eu sei disso e tenho quase certeza de que você sabe também. Ele me conta que está namorando. Uma menina.

Imagino que você esteja aliviada com esse namoro. Agora, vai poder dizer para irmãos e cunhados que seu filho é um garotão, menino normal. Que aquele jeito diferente, que deixava todo mundo meio inquieto, era apenas uma fase. Ele é só um pouco mais sensível do que os outros, e daí? Você mal pode esperar para levá-lo, junto da nova namorada, ao próximo encontro da família.

Veja também

Quando seu filho disse que estava gostando de uma colega, aquela aflição que você sentia desde que ele tinha 2, 3 anos de idade diminuiu bastante, não é? Uma coceirinha, um alfinete que espetava fininho toda vez que ele lhe lembrava uma menina. Ou dizia coisas de menina. Ou só tinha amigas meninas. Ou se escondia no quarto para brincar com uma boneca velha que a priminha tinha esquecido na sua casa.

Você nunca disse coisas horríveis que outras mães costumam falar. “Isso não é coisa de homem!”, por exemplo. Nunca impediu seu filho de nada. Mas também não incentivou porque, no fundo, achava que aquilo ia passar. Achava, não. Torcia. Rezava.

Com o tempo, seu filho foi aprendendo o que ele podia fazer ou evitar fazer quando você estava por perto. E, para o bem de todos, se levantou um acordo silencioso de convivência. Seja discreto, era sua fala no acordo. Aquela risada que você dá… melhor, não.

Agora, eu pergunto: quanto você acha que custa para o seu filho namorar uma menina? É fácil calcular. Imagine você dando um beijo ou fazendo sexo com alguém que não lhe desperta o menor desejo. Pelo contrário, dá até uma certa repulsa. Imagine você passando a vida inteira sendo algo que não é, tendo que fingir gostar do que não gosta, sendo impedido de ficar com alguém que ama?

Não estou querendo acabar com sua alegria. Seu filho pode continuar saindo com meninas e até decidir morar com uma. Mas, caso isso aconteça, tenho certeza de que a coceirinha vai continuar te perturbando. Por outro lado, caso seu querido filho consiga se libertar, consiga se olhar no espelho e se enxergar, caso decida que vai procurar um amor –porque a vida é dele e é só uma–, caso ele se case com outro homem e caso você esteja ao lado dele quando isso acontecer, eu garanto: não haverá coceira e nem alfinete. Apenas uma sensação de liberdade. E dignidade. Você sabe que fez a coisa certa.

Caros pais,

Seu filho é uma garota-garoto. Cabelos curtíssimos, óculos grandes, camiseta larga e calça jeans larga também. Quando nos apresentamos –ele iria passar a tarde em casa fazendo um trabalho de escola com meu filho–, soube que ele se chamava Antonio. Um nome bonito, pensei.

No fim da tarde, antes de ligar para vocês para combinar a volta dele, Antonio me avisou, alarmado: “Alice, para meus pais eu sou Alice”.

Pergunto a ele se vocês, os pais, não desconfiam da sua identidade verdadeira. Antonio me diz que isso nem passa pelas suas cabeças. Seu filho tem apenas 15 anos e já conhece o peso de um segredo. Já aprendeu, bem cedo, que vai precisar carregar esse peso sozinho, porque, aparentemente, vocês não são capazes de ajudá-lo com isso.

Fico com muita vontade de sacudi-los. Como assim? Como vocês não percebem que têm um filho? Como preferem deixá-lo enfrentar sozinho as dores do mundo –que não são poucas para transexuais? Do que vocês têm tanto medo? Por que não assumem o papel que, nós, pais, prometemos cumprir quando nascem os filhos? Que nós os amaremos e os aceitaremos como eles são, que tentaremos colaborar para que o mundo em que vivam seja um lugar seguro, que não vamos sacrificar os desejos deles para que os nossos prevaleçam?

Mas sei que não posso fazer isso. Não vou dizer a vocês que acho muito triste que Antonio só possa ser ele mesmo fora de casa. Na própria, ele precisa viver fantasiado de Alice.

O que eu sei sobre a vida de vocês? Vou apenas escrever este texto e torcer para que, um dia, quem sabe, algo nele faça sentido para pais e mães de Antonios.

]]>
0
Coletoras de lixo na pandemia: a gente trabalha com fé ou fica sem emprego http://nos.blogosfera.uol.com.br/2020/06/13/coletoras-de-lixo-na-pandemia-a-gente-trabalha-com-fe-ou-fica-sem-emprego/ http://nos.blogosfera.uol.com.br/2020/06/13/coletoras-de-lixo-na-pandemia-a-gente-trabalha-com-fe-ou-fica-sem-emprego/#respond Sat, 13 Jun 2020 07:00:29 +0000 http://nos.blogosfera.uol.com.br/?p=956

Da esq. para a dir.: as coletoras de resíduos Valéria e Maria

Alguns pensadores da vida contemporânea acreditam que muitos profissionais pouco valorizados antes da pandemia passaram a ser vistos com outros olhos pelas pessoas, caso dos enfermeiros, cuidadores, motoboys e faxineiras.

Ganham pouco, infelizmente. Mas, sem eles, ficou muito claro para todos que a vida seria muito pior. Nesse quadro de profissionais, estão os funcionários da limpeza urbana. O que a gente até hoje chama, erroneamente, de lixeiros. Uma das profissões mais desprezadas do século 20. Na minha geração, era comum vê-los como a última profissão desejada para os filhos. Imagine, então, o que teria acontecido se os coletores de lixo também tivessem se isolado nesta crise. Quão caóticas ficariam nossas casas, prédios e cidades sem o recolhimento dos resíduos que produzimos –1 quilo em média, por brasileiro, a cada dia.[1]

Quis entrevistar coletores para saber como eles estavam lidando com a situação causada pela Covid-19. Tive a sorte de conversar com duas mulheres, funcionárias de uma empresa de coleta de resíduos da região de São José dos Campos, no interior de São Paulo. Maria Claudia Lima Santos, 40 anos, e Valéria Aparecida Ramos da Silva, 41, trabalham juntas na coleta seletiva, de segunda a sábado. Não mudaram sua rotina de trabalho desde o começo da pandemia, mas adotaram novos cuidados pessoais de higiene para proteger suas famílias.

Veja também:

O que ficou diferente na vida de vocês por causa da Covid-19?

Maria: A gente ganhou álcool gel, galão de água e sabão para trabalhar no caminhão. Ganhamos máscara também, mas já avisamos a empresa que não dá para trabalhar de máscara.

Valéria: Não dá para correr de máscara, a gente fica sem respirar.

Vocês devem ficar com medo de levar o vírus para dentro de casa…

Valéria: Ficamos, claro. A gente mexe com muito lixo porque as pessoas não separam direito o orgânico do reciclável. Mas não tem jeito. Ou a gente trabalha com fé ou fica sem emprego.

Maria: É como ela falou. Temos medo, mas temos que trabalhar. O que a gente tem feito é cuidar bastante da higiene. Quando chega em casa, nem senta e nem abraça os filhos antes de bater o sapato no pano, tirar a roupa e tomar banho.

Vocês têm filhos. Quem cuida deles enquanto vocês trabalham?

Maria. Minha filha de 17 cuida da menina de oito anos.

Valéria: Meu filho mais velho tem 18 e trabalha com o pai. A caçula tem nove. Eu pago uma menina para olhar ela para mim.

Eles têm saído de casa ou estão em isolamento social?

Valéria: Meu filho mais velho sai com o pai. Por sorte, os dois estão com trabalho. A menina não sai de jeito nenhum.

Maria: Minhas filhas também ficam em casa me esperando.

O trabalho de vocês é tão essencial que vocês não puderam ficar em casa, sem trabalhar. Mesmo assim, imagino que tenha muito preconceito contra os coletores.

Maria: Tem gente que respeita, mas tem gente que chega a tampar o nariz quando a gente passa. E o nosso caminhão é de reciclados, não fede.

E você, Valéria, sofre algum tipo de preconceito?

Valéria: Por incrível que pareça, o maior preconceito é da família. Tenho parentes que dizem que mulher não devia fazer serviço de homem. Aí eu digo que eu sou uma mulher moderna [ri]. O que adianta trabalhar atrás de um computador se eu não gosto de jeito nenhum da área administrativa?

Você já trabalhou na área administrativa?

Valéria: Sim, eu sou formada em administração, trabalhei na contabilidade de um departamento de recursos humanos por um tempo. Não gostei. E eu gosto da minha profissão de coletora. É cansativa, mas tenho preparo físico e me sinto bem.

Vocês fazem algum treinamento físico para o trabalho? Precisa?

Maria: Eu jogo futebol.

Valéria: Eu faço musculação. Se não fizer, você não aguenta. Detona pé, detona joelho de tanto subir e descer do caminhão. Além da prática e da habilidade, a gente tem que estar alongada. E ter garra, porque não é fácil.

O que você considera mais difícil?

Valéria: Olha, o mais difícil é ter que correr muito. Por isso, tem que ter preparo físico. E a gente trabalha no meio de muitos homens também.

 Vocês me contaram que, na turma de vocês, tem quatro colegas homens. Tem machismo no meio?

Maria: Ah, tem motorista que não gosta de trabalhar com mulher coletora porque a esposa tem ciúme. E eles falam isso pra gente. Mas a gente dá conta da corrida e de pegar peso do mesmo jeito ou melhor ainda que os homens.

E os filhos, como enxergam a profissão de vocês?

Valéria: Eu quis muito ser funcionária dessa empresa, ter um emprego mais estável. Meus filhos gostam.

Maria: Quando eu fui contratada, contei para as minhas filhas que ia trabalhar no caminhão de lixo. Lá em casa, tudo é conversado. Minha novinha ficou louca, quis porque quis vir no meu trabalho e conhecer tudo. Na escola, ela diz para os coleguinhas que a mãe trabalha no caminhão. Tem o maior orgulho.

 

[1] Panorama dos Resíduos Sólidos no Brasil/Abrelpe

 

]]>
0
Paulo Gustavo, Djamila e jornalistas negros: um dia para ficar na memória http://nos.blogosfera.uol.com.br/2020/06/06/paulo-gustavo-djamila-jornalistas-negros-um-dia-para-ficar-na-memoria/ http://nos.blogosfera.uol.com.br/2020/06/06/paulo-gustavo-djamila-jornalistas-negros-um-dia-para-ficar-na-memoria/#respond Sat, 06 Jun 2020 07:00:58 +0000 http://nos.blogosfera.uol.com.br/?p=964

Cinco comentaristas e um apresentador negros para falar de racismo na GloboNews

No meio da semana, nesta semana tão turbulenta, nervosa, angustiante e esperançosa, li no Instagram uma notícia que me emocionou: o ator e comediante Paulo Gustavo havia emprestado sua página com mais de 13 milhões de seguidores, durante todo o mês de junho, para a filósofa Djamila Ribeiro, colunista do jornal “Folha de S. Paulo”. Ela ganhou uma audiência enorme para fazer algo que Paulo Gustavo não conseguiria: discutir as relações raciais no país com autenticidade e credibilidade. Djamila, negra, militante, estava assumindo seu lugar de fala – o lugar de alguém que vive a situação sobre a qual está opinando.

Quando a noite chegou, eu tive a certeza de que estava vivendo um dia que excepcional, do qual me lembraria por muito tempo, o tempo que a memória permitir. A GloboNews, do grupo Globo, levou ao ar um inédito painel com profissionais negros de sua equipe de jornalismo. Isso aconteceu na edição especial sobre o racismo no programaEm Pauta”, das 8h da noite. Heraldo Pereira, apresentador doJornal das Dez” na emissora – e primeiro apresentador negro da história do “Jornal Nacional” –, conduziu o programa no lugar do colega Marcelo Cosme, branco. Como muitos dos acontecimentos recentes, o programa foi histórico. Reuniu, além de Heraldo, as seguintes profissionais do jornalismo: Zileide Silva, Flavia Oliveira, Maju Coutinho, Aline Midlej e Lilian Ribeiro, repórteres, âncoras, comentaristas e apresentadoras.  Eles estavam juntos para comentar os protestos anti-racismo dos Estados Unidos.

 Veja também

Por que isso me emocionou? Claramente, a emissora abriu esse espaço porque foi pressionada pelos acontecimentos. Um dia antes, um comentário no Twitter sobre a brancura dela tinha viralizado nas redes sociais. Irlan Simões, editor da plataforma de informações sobre futebol democrático NaBancada.Online, havia publicado o comentário “Rapaziada, a pauta é racismo!” junto com a foto da tela do programa do dia anterior, onde seis comentaristas discutiam os protestos gerados pelo assassinato de George Floyd, um homem negro, por Derek Chauvin, policial branco, nos Estados Unidos. Os seis comentaristas, além do apresentador do programa, eram brancos. “Nós entendemos o recado”, disse Marcelo Cosme antes de ceder o lugar para Heraldo naquela noite. Aline Midlej, âncora do jornal GloboNews, inclusive lembrou que a pauta (racismo comentado por jornalistas negros) “veio de fora”.

Seria melhor que viesse de dentro, certo. Seria lindo que nem precisasse acontecer – porque o racismo já não seria mais pauta, estaria no nosso passado. Seria incrível se Djamila Ribeiro fosse seguida por 13 milhões de pessoas em sua própria página, sem que Paulo Gustavo precisasse se afastar para fazer esse gesto tão generoso e corajoso. Na minha opinião de comentarista (mestiça, meio branca, meio amarela), que bom que isso aconteceu, mesmo que tenha demorado tanto. Porque, na verdade, os dois fatos que me emocionaram têm em comum, além do assunto, o sinal de que está em andamento um movimento que precisamos iniciar se quisermos viver em uma sociedade mais justa.

Tanto Paulo Gustavo quanto Marcelo Cosme e os seis comentaristas brancos abriram mão de privilégios (mesmo considerando que, no caso dos jornalistas, a ordem tenha vindo de cima) para dar espaço a quem não costuma ter. E, me desculpem pela antecipação, mas antes que alguém comente, aqui embaixo, que as jornalistas negras da Globo são privilegiadas, quero deixar claro que não estou me referindo a elas, mas aos que elas representam, mais da metade dos brasileiros, negros e pardos, segundo o IBGE. Lembrando, de cabeça, o que disse Aline Midlej no programa: “[Para avançar em direção a uma sociedade melhor,] a gente tem que sentir o desconforto do nosso conforto… Olhar [para os nossos espaços de privilégios] e se perguntar: onde estão os negros?”

E o que é esse conforto? É, por exemplo, não precisar se preocupar, durante a gravidez, com a alta probabilidade de ver o futuro filho agredido e, talvez, morto em consequência da violência policial. Em contraposição, o desconforto, como contou Maju Coutinho, é uma mulher sofrer a crueldade de considerar a ideia de não ser mãe por medo de colocar um filho negro no mundo. “Isso não pode ser normal”, disse Maju. O que me deixa mais otimista com tudo isso, repito, são os sinais de que, dessa vez, parece difícil que o movimento seja revertido. Ele tem mais força, parece ter conquistado jovens negros e brancos.

Voltando ao programa da GloboNews: representada por três dos seis jornalistas presentes na edição especial, a geração Y estava claramente mais articulada que a geração anterior, a X, para falar do tema. Talvez porque as duas gerações que nasceram dos anos 80 para cá – os Y e os Z – tenham tido mais espaço para refletir e trocar experiências sobre o assunto, talvez porque tenham nascido em momentos mais maduros para a integração inter-racial. Talvez porque seus pais – os X – tenham conseguido colocar mais pessoas negras em posições influentes (Barack Obama). Talvez a pedagogia Paulo Freire seja a responsável (brincadeira). Para boa parte dos Y e dos Z, o racismo simplesmente não faz mais sentido. E se há uma causa, um propósito de geração, pela qual vale lutar, esta causa tem grandes chances de ser “Black Lives Matter” (Vidas negras são importantes). É por ela que os jovens estão gritando nas ruas.

]]>
0
De perto, nem nossa família é normal: a difícil convivência no confinamento http://nos.blogosfera.uol.com.br/2020/05/30/de-perto-nem-nossa-familia-e-normal-a-dificil-convivencia-no-confinamento/ http://nos.blogosfera.uol.com.br/2020/05/30/de-perto-nem-nossa-familia-e-normal-a-dificil-convivencia-no-confinamento/#respond Sat, 30 May 2020 07:00:45 +0000 http://nos.blogosfera.uol.com.br/?p=951

Foto: Vinicius Amnx Amano/Unsplash

Há cerca de dois anos, quando estava fazendo pesquisas para o livro Hipnotizados, O que Nossos Filhos Fazem na Internet e o que a Internet faz com Eles, descobri um estudo que calculava em quatro horas o tempo médio de convívio diário entre pais e filhos em idade escolar. Me lembro de pensar que era muito pouco, menos do que o tempo que crianças e adolescentes passavam com os professores, por exemplo. Aí, surge a pandemia da Covid-19, vira o mundo de cabeça para baixo, coloca todo mundo dentro de casa e, como único efeito colateral positivo, libera o home office. O sonho de passar mais tempo com os filhos se concretiza.

Então passamos a usufruir da nova proximidade. Tomamos o café da manhã juntos, sem pressa – ninguém vai sair correndo para o escritório ou para a escola –, à tarde rola uma sessão de pipoca e, talvez, um filme, pais e filhos juntinhos, desfrutando da companhia. Colocamos os filhos para dormir e contamos histórias mais compridas, porque não temos aquele e-mail do chefe para responder tarde da noite.

Veja também

 

Depois dos primeiros dias, surgem os primeiros incômodos. O chefe se adapta ao novo esquema e passa a exigir muito mais. Voltamos a ter que responder e-mails dele em horários pouco apropriados. Percebemos que não conseguimos trabalhar na sala porque as crianças estão gritando enquanto brincam – ou brigam. (Aliás, começamos a notar que as crianças estão implicando muito umas com as outras e planejamos conversar com elas sobre isso.) Então vamos para o quarto. Mas nosso cônjuge também teve a mesma ideia. O quarto fica meio apertado e decidimos revezar. Enquanto um trabalha, o outro limpa a casa ou lava a louça.

Estou descrevendo uma família que vive em harmonia, parceiros dividindo as tarefas e os cuidados com os filhos. Coisas como violência doméstica não acontecem com essa família. Mas, mesmo assim…

Depois de um mês nesse novo arranjo, começamos a sentir falta do espaço pessoal, de um pouco de solidão. Passamos a torcer para que o confinamento acabe antes do previsto, para que o parceiro retorne ao trabalho fora de casa e as crianças voltem aos seus professores. E claro que adoraríamos deixar a faxina na mão de uma profissional. Queremos voltar ao normal, ao trânsito, às reuniões chatas e sem fim no trabalho, queremos ter culpa de passar pouco tempo com o filho, queremos ter saudade do parceiro.

São várias as histórias que tenho ouvido. A filha adulta de uma amiga voltou para a casa dos pais durante a quarentena. Eles se adoram. Imaginavam que esse tempo juntos seria algo que, na verdade, nunca foi: perfeito. Mas a filha, agora adulta, desenvolveu seu próprio método de organizar a casa, que conflita com o jeito dos pais. Minha amiga me conta que tem medo de que o convívio fique difícil por causa de uma coisa tão boba, as diferenças de estilo na gestão da casa. Mas pequenas diferenças, diferenças de fim de semana, podem incomodar muito quando se repetem de segunda a segunda. Você já passou pela experiência de ficar alguns dias na casa de amigos? Na chegada, é uma delícia; na saída, nem tanto. A gente tem mania de idealizar os relacionamentos e não se prepara para as dificuldades de convívio, inevitáveis.

Eu moro em um apartamento com meus dois filhos. Ficar confinada não causou grandes mudanças, porque eu já trabalhava em casa. Mesmo assim, havia as saídas, a escola, os passeios, as visitas aos amigos. Agora, estamos os três nos trombando o tempo todo. Eu, ficando impaciente com a bagunça que eles fazem na cozinha. Eles, reclamando que eu só reclamo.

A convivência intensa, mesmo com pessoas com quem moramos, é muito mais complicada do que pensávamos. É diferente de férias, um período com fim determinado, quando em geral mudamos o ambiente e o estado de espírito. Agora não. Nossa casa se transforma em um experimento social, algo parecido com o confinamento do Big Brother. Ficamos perto demais das pessoas e, como cantou Caetano Veloso, de perto ninguém é normal. Nem a nossa família.

]]>
0
Depois das férias escolares, nossos filhos merecem férias da pandemia http://nos.blogosfera.uol.com.br/2020/05/23/depois-das-ferias-escolares-nossos-filhos-merecem-ferias-da-pandemia/ http://nos.blogosfera.uol.com.br/2020/05/23/depois-das-ferias-escolares-nossos-filhos-merecem-ferias-da-pandemia/#respond Sat, 23 May 2020 07:00:11 +0000 http://nos.blogosfera.uol.com.br/?p=942

Foto: Mi-Pham/Unsplash

Conto para o meu filho que as férias da escola dele foram antecipadas para junho. As aulas, se forem autorizadas pelas autoridades municipais, voltam no começo de julho. Ele pergunta se haverá um tempo livre entre o isolamento e o retorno à escola. Começo a rir, ironizando: “Um tempo de férias porque vocês estão muito cansados com as aulas online, né?”

Mas aí me dou conta de que a pergunta dele faz todo o sentido e a minha ironia é, no mínimo, tacanha. Entre deixar o confinamento e voltar às salas de aula, os alunos deveriam, sim, ter um tempo para usufruir da liberdade.

Veja também

No primeiro mês da pandemia, recebi de uma amiga, no WhatsApp, um lindo texto sobre alunos, escolas e pandemia. Minha amiga não conseguiu rastrear a origem. Eu, por minha vez, deletei o artigo sem querer e peço desculpas por não citar a fonte. Mas o conceito defendido no texto tinha muito a ver com a pergunta feita por meu filho. Em vez de nos preocuparmos com a pressa na retomada das aulas e a recuperação do conteúdo perdido, devíamos valorizar a qualidade da retomada do acesso à vida social, à nova normalidade.

Devíamos dar tempo para que nossos filhos processem esse acontecimento – a pandemia – que marcará a geração deles com a mesma intensidade que guerras marcaram gerações anteriores. Não é pouca coisa. Devíamos abrir um espaço para que crianças e adolescentes se reencontrem em uma situação de puro usufruto do fim do isolamento. Uma experiência de alegria. A céu aberto. Que andem nas ruas, brinquem nos parques, visitem os amigos. Celebrem a volta à vida.

Conteúdos da grade escolar podem ser recuperados em qualquer outra época, não acredito que fará diferença se a equação de segundo grau for ensinada no primeiro semestre de 2020 ou no segundo. Ou ainda em 2021, se não conseguirmos controlar a pandemia antes disso. Não fará diferença se nossos filhos prestarem Enem ou vestibular neste ano ou no ano que vem, com 16, 17 ou 18 anos de idade. Não estou falando da reorganização do cronograma pedagógico, claro, essa é uma encrenca a ser resolvida por educadores e Ministério da Educação. Estou dizendo apenas que um adolescente não perderá nenhuma oportunidade de trabalho se sair da faculdade um ano mais tarde.

As crianças não ficarão menos capacitadas intelectualmente se atrasarem o aprendizado de determinados conteúdos. O Brasil tem quase 50 milhões de estudantes. Quase todos, fora das escolas já que, segundo o site do Ministério da Educação, a maior parte das escolas públicas está com as aulas suspensas. O mesmo acontece com 1,5 bilhão de crianças e adolescentes no mundo, de acordo com estimativas da Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura) e a UIT (União Internacional de Telecomunicações). Eles calculam que metade desses estudantes não tenha acesso à internet em casa. Ou seja, essa não é uma situação de exceção apenas para os nossos, mas para toda a humanidade.

No final de março, o presidente da República autorizou que escolas não cumpram a quantidade de dias letivos em 2020, mas manteve a obrigatoriedade da carga horária. Já o MEC avisa que “é preciso sempre esclarecer que, no processo de reorganização do calendário escolar, o ano letivo pode, em situações determinadas e para efeito de reposição de aulas e atividades, não coincidir com o ano civil. No processo de reorganização dos calendários escolares, é fundamental que a reposição de aulas e a realização de atividades escolares possam ser efetivadas preservando a qualidade de ensino.” O que vai acontecer na prática? Corrida atrás do tempo perdido e um segundo semestre, no mínimo, exigente e estressante para os alunos.

Minha pergunta: precisa disso mesmo? Tenho uma suspeita de que não há como repor o conteúdo de forma apressada e manter qualidade. Por outro lado, o que estamos planejando, pais e educadores, para provocar reflexões nas crianças e jovens sobre este momento único que vivemos? Muitas crenças, muitas verdades foram questionadas, especialmente em torno da ideia de que nosso estilo de vida talvez não seja muito sustentável, que o modelo econômico no qual acreditávamos deva ser revisto. E que não estamos com o futuro garantido. Coisas imprevistas acontecem.

A sensação de que, isolados em casa, estamos apenas perdendo tempo, é enganosa. Estamos ganhando tempo. Tempo de vida e de aprendizado sobre a vida. Aprendizado (difícil, eu sei) sobre a convivência. Isso é insubstituível. Não precisamos ter pressa para repor conteúdo.

]]>
0