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Depois da pandemia, vamos rever prioridades, acredita futurista britânico

Brenda Fucuta

02/05/2020 04h00

David Wood. Foto: Arquivo Pessoal

Foto: Arquivo Pessoal

Como será nosso novo normal? Que lições teremos aprendido com a pandemia e o isolamento? Para responder a esse tipo de pergunta, não há ninguém melhor do que um futurista, um especialista em traçar cenários de futuro para a humanidade. Por isso, fui buscar as respostas com David Wood, matemático com doutorado em filosofia da ciência, presidente do grupo Futuristas de Londres. Autor de vários livros, dentre eles "A Abolição do Envelhecimento" (Editora NTZ), recém-lançado no Brasil, ele defende a ideia de que em poucas décadas podemos ter 90 anos em corpos de 50. David enviou suas respostas, por e-mail, de sua casa em Londres, onde está confinado com a esposa, esperando o pior passar.  

Na sua opinião, passada a pandemia, voltaremos a viver como antes?
Duvido que as coisas em algum momento voltem ao "velho normal". Em vez disso, a quarentena está nos fornecendo a chance de refletir profundamente sobre o que é importante na vida.

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Que mudanças sociais esta experiência de pandemia e de isolamento poderá provocar? Quais alterações na convivência podemos esperar a partir de agora?
No momento, diversas tendências coexistem. Vimos alguns horríveis exemplos de racismo e de confrontações partidárias. Mas também vimos alguns sinais do que pode ser chamado de "Grande Reconsideração", uma revisão das nossas prioridades. Estamos percebendo que profissionais essenciais ganham muito pouco. Estou falando de enfermeiros, porteiros de hospitais, faxineiros e funcionários de entrega. Ao contrário, banqueiros ou executivos muito bem pagos não parecem mais ser tão necessários (com esses salários enormes) para o bem-estar da sociedade. Se essa Grande Reconsideração se expandir, veremos um valor maior sendo dado à saúde humana em vez de ao lucro financeiro. Um exemplo é a crescente demanda pela adoção de um sistema de renda básica universal. No dia 22 de abril, em uma carta no [jornal] "Financial Times", um grupo de mais de 100 políticos do Reino Unido, de partidos diferentes, fizeram um pedido para que o país adote um esquema de renda básica universal de reabilitação.

O impacto que o novo coronavírus vai provocar no mundo será enorme. Poderíamos ter evitado o colapso do sistema de saúde e a recessão que está por vir? 
Sim, poderíamos. Na verdade, deveríamos ter nos preparado melhor. Embora não fosse possível prever o momento exato nem a natureza deste surto, analistas e futuristas frequentemente chamaram a atenção para o risco de uma pandemia global devastadora. O livro "Divided Nations" [Nações Divididas], do professor Ian Goldin, da Universidade de Oxford, fala bastante de problemas internacionais impostos por pandemias. Bill Gates trouxe mais atenção ao perigo em sua palestra no TED, "The next outbreak? We're not ready" (O próximo surto? Não estamos preparados, em tradução livre), de 2015. Nos últimos meses de 2016, um exercício realizado pelo governo do Reino Unido, Exercise Cygnus, destacou intensamente a falta de preparação no Reino Unido para uma possível pandemia futura. Mas então… quase nada mudou, preferiu-se a negação em vez da tomada de atitude diante das lições alarmantes do exercício. O Reino Unido atuou de forma sonâmbula até o fiasco da Covid-19.

Quais as principais lições que podemos tirar dessa crise?
Aprender que precisamos nos preparar melhor para pandemias futuras é pouco. De modo geral, devemos perceber que a sociedade está sujeita a disrupções de grande escala, por causa da imensa conectividade que vivemos agora e do desenvolvimento acelerado de novas tecnologias: novos colapsos financeiros, danos causados por malwares, manipulação das mídias sociais, armas de bioengenharia utilizadas por fundamentalistas… Quanto mais poderosas se tornam as inteligências artificiais e as novas tecnologias, maiores são os riscos de consequências devastadoras causadas por agentes humanos malignos. Por outro lado, muitas das novas tecnologias, como a nanotecnologia, a biotecnologia, infotecnologia e a cognotecnologia, se bem administradas, poderiam causar profundos efeitos benéficos. Vimos uma fração disso durante o isolamento. Sem as redes sociais e os aplicativos de mensagem, as pessoas teriam sentido uma pressão maior para quebrar os princípios da quarentena. Nesse caso, as taxas de infecção e morte pela pandemia provavelmente seriam significativamente maiores.

Como podemos situar a pandemia atual junto a outros momentos críticos para a humanidade? Ela é mais ou menos grave?
Felizmente, a atual pandemia é muito menos séria, em termos da fração da população da Terra que provavelmente morrerá da infecção, que pandemias anteriores como a Peste Negra e a gripe de 1918-1919. Mesmo as consequências para a economia serão menos sérias. Apesar de o FMI ter dito que prevê a pior recessão global desde os anos 1930, a economia terá o potencial de voltar ao normal no seu devido tempo. O maior risco é de um período prolongado de medo, incerteza e dúvidas levar alguns líderes políticos preparados para o combate a um conflito militar altamente arriscado (como uma distração para tentar evitar críticas por lidar mal com a pandemia) que poderia crescer e se tornar uma guerra nuclear global.

Seu último livro, a "Abolição do Envelhecimento", fala sobre os novos parâmetros da duração da vida do ser humano, certo? O senhor chegou a pensar no que teria acontecido se esse vírus tivesse nos alcançado em uma etapa de desenvolvimento biológico em que não houvesse mais envelhecimento no mundo? 
Por volta de 2040, terapias biotecnológicas de baixo custo podem estar amplamente disponíveis para reverter os efeitos do envelhecimento biológico. Alguém com a idade de cerca de 90 anos poderia, neste cenário, ter a vitalidade e a boa saúde geral de uma pessoa de cerca de 50 anos de hoje em dia. Estimo que há cerca de 50% de chance que esse cenário se realize — desde que a sociedade decida priorizar esse resultado, e dar a esse projeto o apoio suficiente, algo que não acontece hoje em dia. Uma consequência de ter uma idade biológica menor (apesar de ter uma idade cronológica maior) é que se torna menos provável que as pessoas morram de doenças crônicas. Doenças cardíacas, câncer, diabetes, demência, derrame e outras causas comuns de morte tendem a crescer exponencialmente em seriedade quando nosso corpo envelhece. Enquanto algumas pessoas jovens infelizmente morrem de câncer, isso acontece com uma quantidade muito maior de pessoas mais velhas. Nesse sentido, o envelhecimento mata. Portanto, a abolição do envelhecimento reduzirá significativamente as taxas de mortalidade. No caso da Covid-19, a idade biológica menor resultaria em um sistema imunológico mais forte e saudável, o que é melhor em geral para lutar contra infecções. Mas é bom lembrar que, quando o envelhecimento for abolido, ainda haverá riscos de diversas novas infecções virais. Diferentes doenças infecciosas, podem atacar as pessoas de várias maneiras. Na gripe de 1918-1919, por exemplo, muitas pessoas jovens e saudáveis morreram.

Sobre a autora

Brenda Fucuta é jornalista, escritora e consultora de conteúdo. Autora do livro “Hipnotizados: o que os nossos filhos fazem na internet e o que a internet faz com eles”, escreve sobre novas famílias, envelhecimento, identidade de gênero e direitos humanos. Além de entrevistar pessoas incríveis.

Sobre o blog

Reflexões de uma jornalista otimista sobre nossa vida em comum

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