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“Depois da gripe espanhola, ficamos mais hedonistas”, diz escritor

Brenda Fucuta

04/04/2020 04h00

Wagner Barreira em foto de arquivo pessoal

Que tipo de sociedade seremos depois da covid-19? A terrível pandemia de 1918, a gripe espanhola, que matou cerca de 50 milhões de pessoas e produziu um isolamento em massa parecido com o que estamos vivendo agora, pode nos dizer o que acontecerá conosco passada a crise? 

Foi essa provocação que levei ao jornalista Wagner Barreira, que tem acordado e dormido com a gripe espanhola desde 2017, quando começou a pesquisar a chegada da doença ao Brasil para compor seu romance "Demerara". Tive o privilégio de ler os primeiros capítulos do livro porque conheço Wagner há mais de 30 anos. (Além de colegas de redação em muitas ocasiões, temos um filho em comum.) A seguir, Wagner, que ainda está finalizando o romance, revela o que descobriu em sua pesquisa.

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Seu livro ainda está sendo escrito, mas a pesquisa foi concluída. Depois da pandemia de 1918, o mundo ficou muito diferente?
A gripe espanhola aconteceu em um ambiente pós-guerra, então a gente precisa considerar esses dois fatores para explicar a sociedade que foi construída a partir dessa combinação. O "depois" da pandemia e da Primeira Guerra foi uma sociedade mais permissiva, mais aberta e hedonista em muitos países. Os loucos anos 20, tão bem retratados pelo escritor norte-americano Scott Fitzgerald, muito provavelmente não teriam acontecido se a pandemia não tivesse existido. Havia uma urgência de viver. E não foi só nos Estados Unidos. Em 1919, o sucesso do Carnaval carioca foi uma música chamada "E o mundo não se acabou". A letra, que é do compositor Assis Valente, fala de um sujeito que "beijou na boca de quem não devia", "pegou na mão de quem não conhecia". Na política, depois da gripe espanhola surgiu no Brasil o movimento tenentista, que reivindicava mais participação das classes médias urbanas, que desembocaria na Revolução de 30. Na Itália houve o nascimento do fascismo. Mas a sociedade, cem anos depois, é muito diferente daquela do início do século passado. Então, falamos de liberalidade de costumes, um certo empoderamento feminino e de soluções radicais na política, sinais que vão em direções opostas.  

Você acha que isso poderá acontecer agora também? O que vamos incorporar no novo normal, na sua opinião?
Apesar da semelhança na rapidez de contágio dos dois vírus, o da gripe e o da covid-19, acho precoce imaginar o que vai acontecer com a gente. A gripe espanhola teve três ondas, e a segunda foi muito mais letal que a primeira na Europa, por exemplo. Ela matou algo entre 20 milhões e 100 milhões de pessoas. Hoje, fala-se em 50 milhões, cerca de 3% da população mundial. Mas as subnotificações e a precariedade estatística da época tornam os números muito frágeis. Na Ásia, por exemplo, os registros de mortalidade são estranhos, relativamente baixos para a China, que não tinha mecanismos sanitários centralizados para computar os dados. Na Índia, morreram entre 12 milhões e 17 milhões de pessoas. No Irã, um quinto da população. As contas oficiais falam em 35 mil mortos no Brasil, que tinha apenas 29 milhões de habitantes. Parece pouco, mas no Rio de Janeiro, a maior cidade do país, houve colapso no sistema de saúde e nos cemitérios e esse colapso não se dá só no atendimento, mas nos registros dos casos que se tornaram estatísticas históricas. É evidente que houve subnotificação. 

Muitos falam que esta pandemia vai definir grandes mudanças no comportamento social.
Talvez. Sairemos com muitos questionamentos. Será que o modelo de trabalho vai se manter depois da experiência em massa do home office? Será que continuaremos tolerando tantas desigualdades sociais? Ou será que elas ficarão intoleráveis por si só? Vamos repensar a maneira como a sociedade está tratando os idosos? São perguntas muito difíceis de responder, mas posso arriscar um palpite sobre o isolamento social. Apesar da facilidade, inédita, de estarmos juntos sem estarmos presentes fisicamente, por causa da internet e todos os dispositivos de comunicação, percebemos que somos uma espécie tátil. Precisamos do toque, do abraço, do contato físico. Para mim, isso é o tipo de obviedade que estava sendo pouco valorizada antes da doença. 

Você interrompeu a escrita de "Demerara" por um tempo e a retomou quando o coronavírus aparecia na China. Foi coincidência ou senso de oportunidade?
"Demerarafoi planejado para ser meu primeiro livro, mas no meio do caminho surgiu a ideia de escrever sobre Lampião e Maria Bonita, por isso precisei interrompê-lo. Só depois que lancei o livro sobre o casal, em 2018, é que voltei a pesquisar a gripe espanhola. Então, sim, foi uma coincidência eu ter retomado o assunto exatamente quando aparecia outra pandemia no mundo. Não sei, mas talvez se não fosse a covid eu estaria escrevendo em outro ritmo. Agora interrompi vários trabalhos para me dedicar ao romance.

 Sua pesquisa envolveu uma longa viagem à Portugal e Espanha. Por que essa viagem se a gripe, apesar do nome, não surgiu na Espanha?
Eu queria escrever um romance cujo protagonista fosse inspirado no meu avô espanhol, de quem só se sabia que tinha chegado ao Brasil no Demerara, o navio que saiu de Liverpool, na Inglaterra, e trouxe o vírus da gripe.  No meu livro, o Demerara para em Vigo, na Espanha, para deixar tripulantes doentes – e é onde embarca o protagonista, Bernardo. Isso, na vida real, não ocorreu. O navio fez uma única parada na Europa, em Lisboa. Antes de chegar ao Brasil, passou pela África e já contabilizava dois mortos a bordo. Aqui, fez escala em Recife, Salvador, Rio de Janeiro, Santos e seguiu para Montevidéu e Buenos Aires. Na Espanha, até o rei caiu doente. Vigo, a cidade do protagonista, era um centro de espionagem, por onde passavam cabos telegráficos submarinos que ligavam a Europa e a América. A Espanha era neutra, mas a cidade convivia com navios de guerra ingleses e submarinos alemães. 

Seu avó foi contaminado?
Não, não foi. Ele chegou ao Brasil, se casou e teve filhos. Morreu quando meu pai ainda era bebê. Infelizmente, sua memória desapareceu. Então, ainda que baseado em nome e em navio reais, meu livro é pura ficção, tendo a gripe espanhola como pano de fundo. A escritora Marguerite Yourcenar disse que sempre iremos reconstruir o monumento à nossa maneira, mas é importante usar só as pedras autênticas. A construção do livro segue os fatos históricos do período.

Que semelhanças você encontrou entre o Brasil da gripe espanhola e o da covid-19?
Um dado curioso é que as recomendações das autoridades sanitárias em 1918 e hoje são praticamente as mesmas. Isolamento e higiene das mãos. Da mesma maneira que agora, a sociedade reagiu com espanto e terror à chegada da doença. E, sim, houve piadas em jornais, algo parecido com os memes atuais. A velocidade de transmissão não poupou ricos nem pobres. Houve uma espécie de quarentena, as ruas ficaram vazias, tal como agora. Mas o Brasil da época era um país em construção, com abundante mão de obra imigrante. Uma população rural considerável – e desassistida. As condições de vida nas cidades não eram melhores, com as mesmas favelas e cortiços que preocupam os epidemiologistas atuais.

O presidente da época morreu de gripe espanhola, não é?
O presidente, Rodrigues Alves, morreu mesmo de gripe espanhola, mas ainda não comandava o governo quando contraiu a doença, era o presidente eleito. Não há notícias se ele estava ou não isolado, mas é possível que a atividade política da campanha tenha ajudado na contaminação. Ele tinha 71 anos, estaria no que chamamos hoje de grupo de risco, e já não gozava de boa saúde.

As condições sanitárias são melhores agora, os avanços científicos também. Você acha que chegaremos ao extremo de repetir cenas, como você conta no livro, de presos forçados a retirar corpos das vítimas das ruas em 1918?
Bem, espero que não. Mas, francamente, acho que o inimigo continua tão ou mais feroz. No Equador, já existem corpos abandonados nas ruas.  Cemitérios em São Paulo já fazem trinta enterros diário de mortos pelo coronavírus, e estamos na primeira fase da epidemia. Como já disse, as armas que temos hoje são as mesmas do começo do século passado. Torço para que elas sejam adotadas por todos. 

Sobre a autora

Brenda Fucuta é jornalista, escritora e consultora de conteúdo. Autora do livro “Hipnotizados: o que os nossos filhos fazem na internet e o que a internet faz com eles”, escreve sobre novas famílias, envelhecimento, identidade de gênero e direitos humanos. Além de entrevistar pessoas incríveis.

Sobre o blog

Reflexões de uma jornalista otimista sobre nossa vida em comum

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