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Você está pronto para ser quase eterno?

Brenda Fucuta

19/10/2019 04h00

Foto: Joshua J Cotten/Unsplash

No Vale do Silício, onde estão os empreendedores mais ousados e as empresas de tecnologia mais avançadas, a eternidade é um assunto quase corriqueiro. São pelo menos duas frentes que acreditam no fim da morte ou na extensão da vida a limites jamais imaginados. De um lado, temos a biotecnologia, de outro, a ligação do nosso cérebro com a nuvem. Na biotecnologia, estão as grandes techs que investem em interferências artificiais a fim de impedir a degeneração do corpo. Essas empresas anteveem um cenário em que nanorobôs poderiam "consertar" marcadores genéticos responsáveis pelas doenças e pelo envelhecimento. A biotecnologia acredita numa extensão da vida, com uma velhice perfeitamente saudável. Para quem puder pagar por isso, naturalmente. 

De outro, temos Ray Kurzweill, hoje diretor de engenharia do Google e o mais famoso profeta do Vale do Silício. Ray e seu amigo Peter Diamandis, que fundaram uma universidade chamada Singularity, acreditam que em algum momento o cérebro humano, especialmente a parte mais desenvolvida dele, o neocórtex, poderá se valer dos recursos digitais para se expandir. A última aposta de Ray foi que isso aconteceria entre 2040 e 2045. 

Muitas vezes, as duas frentes se cruzam. Diamandis, autor do livro "Abundância: O Futuro É Melhor do Que Você Pensa", apoia a SENS Research Foundation, organização sem fins lucrativos que procura tratar e curar as doenças do envelhecimento. Ray, com 70 anos, toma remédios que ganharam a fama de rejuvenescer (um deles é uma substância para tratar diabetes, que virou modinha no Vale do Silício. Ray, no entanto, é portador da doença.)

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Seguindo uma lógica parecida com a de Ray, uma cientista americana chamada Martine Rothblatt defende, no livro "Virtualmente Humanos",  que em pouco tempo seremos capazes de criar reproduções das nossas sinapses no computador. Isso significaria que nosso cérebro, nosso jeito de pensar e até de responder a estímulos –como perguntas feitas por outra pessoa– estariam instalados em algum dispositivo eletrônico onde doenças e degenerações não o alcançariam. Na prática, portanto, isso levaria a uma situação de eternidade. Se realmente formos capazes de clonar nossa identidade em um mundo de dados digitais, só morreríamos se houvesse um bug no planeta. 

Martine tem uma robozinha batizada com o nome de sua mulher, Bina, que está aprendendo com a cientista a responder a um acontecimento da mesma maneira que sua mulher faria. Ela não possui apenas a memória de Bina mas, pretensamente, também a maneira de pensar. Bina48 já foi entrevistada por vários jornalistas. Veja o que disse uma de suas primeiras entrevistadoras, a jornalista Amy Harmon, do jornal The New York Times. "Como outros chatbots, Bina 48 poderia procurar na internet respostas para perguntas factuais. Mas ela poderia também se basear em muitas horas de entrevistas com a Bina real." A Bina original continua muito mais interessante do que seu clone mas, nestes nove anos, a robô aprendeu muita coisa. Se continuar assim, quem sabe? Quando a verdadeira Bina morrer, seus parentes e amigos poderiam continuar conversando com ela por meio do clone virtual. "É claramente possível, através da tecnologia, que a morte seja algo opcional", disse Rothblatt, citada pelo jornalista Tad Friend, da revista The New Yorker, em 2017. E então, você está pronto para a eternidade?

 

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Brenda Fucuta é jornalista, escritora e consultora de conteúdo. Autora do livro “Hipnotizados: o que os nossos filhos fazem na internet e o que a internet faz com eles”, escreve sobre novas famílias, envelhecimento, identidade de gênero e direitos humanos. Além de entrevistar pessoas incríveis.

Sobre o blog

Reflexões de uma jornalista otimista sobre nossa vida em comum

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