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Corrida aos shoppings em meio à pandemia: nossa única diversão é consumir?

Brenda Fucuta

27/06/2020 11h36

Há muito tempo, em outra vida, o shopping center era um programa obrigatório de fim de semana. Dá até vergonha de admitir, mas frequentei muito mais o shopping do que o cinema, o museu, o teatro e o parque. Acho que gastei o valor de uns dois carros em suas lojas.

Aos sábados ou aos domingos, surgia uma sensação difusa de que alguma coisa era extremamente necessária na minha casa, no meu guarda-roupa. Na época, dizia-se que compras e outros mimos eram uma forma de reparação pela semana exaustiva de trabalho. Auto-indulgência. "Eu trabalhei tanto que mereço" aquela roupa cara, aquele jogo de cama de mil fios, aquele eletrodoméstico.

Saía do shopping, horas depois, carregando sacolas pesadas e com a sensação enganosa de que, apesar de estar mais pobre, eu estava mais leve: achava que tinha resolvido vários problemas, havia comprado soluções. Toalhas novas prometiam banhos mais confortáveis. Roupas caras prometiam estilo. Sapatos, minha perdição, prometiam um motivo para começar a segunda-feira com entusiasmo na empresa.

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Demorou tempo demais para eu perceber que tinha menos alegria do que trabalho ao desempacotar tudo. Que a promessa de felicidade ao sair de casa se transformava em cansaço e vazio. Quantos quilômetros foram gastos em uma imensa caixa fechada, sem abertura para o tempo lá fora? Quanto estressei o cérebro com o excesso de estímulos naqueles labirintos projetados para não ter atalhos?

Cores, mensagens das lojas, cheiros, barulhos: olhando agora, penso que eu vivia em um parque de diversões sem diversão. Hoje, entrar em um shopping me dá uma mistura de emoções. Ansiedade. Desejo. Claustrofobia.  Acho que, como ex-dependente de shopping, chegar perto da droga me causa fascínio e repulsa.

Tudo isso para falar que entendo a corrida aos shoppings em tempo de pandemia. Entendo, não fico chocada com o comportamento das pessoas que, mesmo diante do risco de se contaminar com uma doença grave, não resistem ao apelo do shopping. O lazer das pessoas que vivem em metrópoles é ir ao centro de compras, certo?  Quem já viu pais levarem seus filhos para brincar de bola ou de bicicleta na Decathlon sabe do que estou falando.

As pessoas que correm para os shoppings estão sofrendo com a abstinência das promessas da vida encantada das compras, eu acredito. Nossas estruturas cerebrais, suponho, reagem à visão de objetos que desejamos com uma inundação de neurotransmissores do prazer. Desejamos ter, queremos possuir coisas que consideramos bonitas –não nos contentamos apenas em apreciá-las. Elas, acreditamos, nos fazem pessoas melhores. Mais admiráveis, mais invejáveis, mais dignas. Sim, porque, nessa altura, alguém ainda duvida de que o verbo consumir seja o que melhor define o propósito de vida do ser humano contemporâneo?

O desejo, em si, é algo próprio da vida, claro. Sem ele, não nos levantamos da cama, não sobrevivemos nem garantimos a continuidade da espécie. O problema é que estamos sendo enganados –ou estamos nos enganando. Dizem os sites de etimologia que a origem da palavra consumo não tem a ver com sobrevivência, pelo contrário. O significado em latim da palavra consumo –consumere– quer dizer esgotamento. E o que esgota, acaba.

Não seria bom se, ao final desta pandemia, nós conseguíssemos passear com nossos desejos para muito além dos shoppings?

Sobre a autora

Brenda Fucuta é jornalista, escritora e consultora de conteúdo. Autora do livro “Hipnotizados: o que os nossos filhos fazem na internet e o que a internet faz com eles”, escreve sobre novas famílias, envelhecimento, identidade de gênero e direitos humanos. Além de entrevistar pessoas incríveis.

Sobre o blog

Reflexões de uma jornalista otimista sobre nossa vida em comum

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