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De perto, nem nossa família é normal: a difícil convivência no confinamento

Brenda Fucuta

30/05/2020 04h00

Foto: Vinicius Amnx Amano/Unsplash

Há cerca de dois anos, quando estava fazendo pesquisas para o livro "Hipnotizados, O que Nossos Filhos Fazem na Internet e o que a Internet faz com Eles", descobri um estudo que calculava em quatro horas o tempo médio de convívio diário entre pais e filhos em idade escolar. Me lembro de pensar que era muito pouco, menos do que o tempo que crianças e adolescentes passavam com os professores, por exemplo. Aí, surge a pandemia da Covid-19, vira o mundo de cabeça para baixo, coloca todo mundo dentro de casa e, como único efeito colateral positivo, libera o home office. O sonho de passar mais tempo com os filhos se concretiza.

Então passamos a usufruir da nova proximidade. Tomamos o café da manhã juntos, sem pressa – ninguém vai sair correndo para o escritório ou para a escola –, à tarde rola uma sessão de pipoca e, talvez, um filme, pais e filhos juntinhos, desfrutando da companhia. Colocamos os filhos para dormir e contamos histórias mais compridas, porque não temos aquele e-mail do chefe para responder tarde da noite.

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Depois dos primeiros dias, surgem os primeiros incômodos. O chefe se adapta ao novo esquema e passa a exigir muito mais. Voltamos a ter que responder e-mails dele em horários pouco apropriados. Percebemos que não conseguimos trabalhar na sala porque as crianças estão gritando enquanto brincam – ou brigam. (Aliás, começamos a notar que as crianças estão implicando muito umas com as outras e planejamos conversar com elas sobre isso.) Então vamos para o quarto. Mas nosso cônjuge também teve a mesma ideia. O quarto fica meio apertado e decidimos revezar. Enquanto um trabalha, o outro limpa a casa ou lava a louça.

Estou descrevendo uma família que vive em harmonia, parceiros dividindo as tarefas e os cuidados com os filhos. Coisas como violência doméstica não acontecem com essa família. Mas, mesmo assim…

Depois de um mês nesse novo arranjo, começamos a sentir falta do espaço pessoal, de um pouco de solidão. Passamos a torcer para que o confinamento acabe antes do previsto, para que o parceiro retorne ao trabalho fora de casa e as crianças voltem aos seus professores. E claro que adoraríamos deixar a faxina na mão de uma profissional. Queremos voltar ao normal, ao trânsito, às reuniões chatas e sem fim no trabalho, queremos ter culpa de passar pouco tempo com o filho, queremos ter saudade do parceiro.

São várias as histórias que tenho ouvido. A filha adulta de uma amiga voltou para a casa dos pais durante a quarentena. Eles se adoram. Imaginavam que esse tempo juntos seria algo que, na verdade, nunca foi: perfeito. Mas a filha, agora adulta, desenvolveu seu próprio método de organizar a casa, que conflita com o jeito dos pais. Minha amiga me conta que tem medo de que o convívio fique difícil por causa de uma coisa tão boba, as diferenças de estilo na gestão da casa. Mas pequenas diferenças, diferenças de fim de semana, podem incomodar muito quando se repetem de segunda a segunda. Você já passou pela experiência de ficar alguns dias na casa de amigos? Na chegada, é uma delícia; na saída, nem tanto. A gente tem mania de idealizar os relacionamentos e não se prepara para as dificuldades de convívio, inevitáveis.

Eu moro em um apartamento com meus dois filhos. Ficar confinada não causou grandes mudanças, porque eu já trabalhava em casa. Mesmo assim, havia as saídas, a escola, os passeios, as visitas aos amigos. Agora, estamos os três nos trombando o tempo todo. Eu, ficando impaciente com a bagunça que eles fazem na cozinha. Eles, reclamando que eu só reclamo.

A convivência intensa, mesmo com pessoas com quem moramos, é muito mais complicada do que pensávamos. É diferente de férias, um período com fim determinado, quando em geral mudamos o ambiente e o estado de espírito. Agora não. Nossa casa se transforma em um experimento social, algo parecido com o confinamento do Big Brother. Ficamos perto demais das pessoas e, como cantou Caetano Veloso, de perto ninguém é normal. Nem a nossa família.

Sobre a autora

Brenda Fucuta é jornalista, escritora e consultora de conteúdo. Autora do livro “Hipnotizados: o que os nossos filhos fazem na internet e o que a internet faz com eles”, escreve sobre novas famílias, envelhecimento, identidade de gênero e direitos humanos. Além de entrevistar pessoas incríveis.

Sobre o blog

Reflexões de uma jornalista otimista sobre nossa vida em comum

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