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Paulo Gustavo, Djamila e jornalistas negros: um dia para ficar na memória

Brenda Fucuta

06/06/2020 04h00

Cinco comentaristas e um apresentador negros para falar de racismo na GloboNews

No meio da semana, nesta semana tão turbulenta, nervosa, angustiante e esperançosa, li no Instagram uma notícia que me emocionou: o ator e comediante Paulo Gustavo havia emprestado sua página com mais de 13 milhões de seguidores, durante todo o mês de junho, para a filósofa Djamila Ribeiro, colunista do jornal "Folha de S. Paulo". Ela ganhou uma audiência enorme para fazer algo que Paulo Gustavo não conseguiria: discutir as relações raciais no país com autenticidade e credibilidade. Djamila, negra, militante, estava assumindo seu lugar de fala – o lugar de alguém que vive a situação sobre a qual está opinando.

Quando a noite chegou, eu tive a certeza de que estava vivendo um dia que excepcional, do qual me lembraria por muito tempo, o tempo que a memória permitir. A GloboNews, do grupo Globo, levou ao ar um inédito painel com profissionais negros de sua equipe de jornalismo. Isso aconteceu na edição especial sobre o racismo no programa "Em Pauta", das 8h da noite. Heraldo Pereira, apresentador do "Jornal das Dez" na emissora – e primeiro apresentador negro da história do "Jornal Nacional" –, conduziu o programa no lugar do colega Marcelo Cosme, branco. Como muitos dos acontecimentos recentes, o programa foi histórico. Reuniu, além de Heraldo, as seguintes profissionais do jornalismo: Zileide Silva, Flavia Oliveira, Maju Coutinho, Aline Midlej e Lilian Ribeiro, repórteres, âncoras, comentaristas e apresentadoras.  Eles estavam juntos para comentar os protestos anti-racismo dos Estados Unidos.

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Por que isso me emocionou? Claramente, a emissora abriu esse espaço porque foi pressionada pelos acontecimentos. Um dia antes, um comentário no Twitter sobre a brancura dela tinha viralizado nas redes sociais. Irlan Simões, editor da plataforma de informações sobre futebol democrático NaBancada.Online, havia publicado o comentário "Rapaziada, a pauta é racismo!" junto com a foto da tela do programa do dia anterior, onde seis comentaristas discutiam os protestos gerados pelo assassinato de George Floyd, um homem negro, por Derek Chauvin, policial branco, nos Estados Unidos. Os seis comentaristas, além do apresentador do programa, eram brancos. "Nós entendemos o recado", disse Marcelo Cosme antes de ceder o lugar para Heraldo naquela noite. Aline Midlej, âncora do jornal GloboNews, inclusive lembrou que a pauta (racismo comentado por jornalistas negros) "veio de fora".

Seria melhor que viesse de dentro, certo. Seria lindo que nem precisasse acontecer – porque o racismo já não seria mais pauta, estaria no nosso passado. Seria incrível se Djamila Ribeiro fosse seguida por 13 milhões de pessoas em sua própria página, sem que Paulo Gustavo precisasse se afastar para fazer esse gesto tão generoso e corajoso. Na minha opinião de comentarista (mestiça, meio branca, meio amarela), que bom que isso aconteceu, mesmo que tenha demorado tanto. Porque, na verdade, os dois fatos que me emocionaram têm em comum, além do assunto, o sinal de que está em andamento um movimento que precisamos iniciar se quisermos viver em uma sociedade mais justa.

Tanto Paulo Gustavo quanto Marcelo Cosme e os seis comentaristas brancos abriram mão de privilégios (mesmo considerando que, no caso dos jornalistas, a ordem tenha vindo de cima) para dar espaço a quem não costuma ter. E, me desculpem pela antecipação, mas antes que alguém comente, aqui embaixo, que as jornalistas negras da Globo são privilegiadas, quero deixar claro que não estou me referindo a elas, mas aos que elas representam, mais da metade dos brasileiros, negros e pardos, segundo o IBGE. Lembrando, de cabeça, o que disse Aline Midlej no programa: "[Para avançar em direção a uma sociedade melhor,] a gente tem que sentir o desconforto do nosso conforto… Olhar [para os nossos espaços de privilégios] e se perguntar: onde estão os negros?"

E o que é esse conforto? É, por exemplo, não precisar se preocupar, durante a gravidez, com a alta probabilidade de ver o futuro filho agredido e, talvez, morto em consequência da violência policial. Em contraposição, o desconforto, como contou Maju Coutinho, é uma mulher sofrer a crueldade de considerar a ideia de não ser mãe por medo de colocar um filho negro no mundo. "Isso não pode ser normal", disse Maju. O que me deixa mais otimista com tudo isso, repito, são os sinais de que, dessa vez, parece difícil que o movimento seja revertido. Ele tem mais força, parece ter conquistado jovens negros e brancos.

Voltando ao programa da GloboNews: representada por três dos seis jornalistas presentes na edição especial, a geração Y estava claramente mais articulada que a geração anterior, a X, para falar do tema. Talvez porque as duas gerações que nasceram dos anos 80 para cá – os Y e os Z – tenham tido mais espaço para refletir e trocar experiências sobre o assunto, talvez porque tenham nascido em momentos mais maduros para a integração inter-racial. Talvez porque seus pais – os X – tenham conseguido colocar mais pessoas negras em posições influentes (Barack Obama). Talvez a pedagogia Paulo Freire seja a responsável (brincadeira). Para boa parte dos Y e dos Z, o racismo simplesmente não faz mais sentido. E se há uma causa, um propósito de geração, pela qual vale lutar, esta causa tem grandes chances de ser "Black Lives Matter" (Vidas negras são importantes). É por ela que os jovens estão gritando nas ruas.

Sobre a autora

Brenda Fucuta é jornalista, escritora e consultora de conteúdo. Autora do livro “Hipnotizados: o que os nossos filhos fazem na internet e o que a internet faz com eles”, escreve sobre novas famílias, envelhecimento, identidade de gênero e direitos humanos. Além de entrevistar pessoas incríveis.

Sobre o blog

Reflexões de uma jornalista otimista sobre nossa vida em comum

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