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Os "fodidos" estão falando

Brenda Fucuta

02/11/2019 04h00

Foto: Elias Arias/Unsplash

O que a jovem ativista Greta Thunberg está dizendo quando recusa uma premiação de R$ 200 mil e coloca o dedo na cara dos adultos? Que sua geração não tolera o mundo que estamos deixando para eles. O que chilenos, equatorianos, peruanos e bolivianos estão fazendo nas ruas? Gritando que não aguentam mais a falta de empregos. Não suportam mais a traição reincidente das pessoas que foram eleitas por eles. Que estão cansados de ser a parte do mundo que está sempre perdendo.

Eles têm legitimidade para reclamar das condições em que vivem. Não são os políticos, os cientistas sociais, os sindicalistas e os etc que discursam no seu lugar. A fala é deles, dos perdedores.

O que chamo de perdedores são aqueles 3,8 bilhões de pessoas no planeta que ganham, juntos, o equivalente à riqueza de apenas 26 trilhardários. (Um relatório divulgado em janeiro de 2019 pela ONG Oxfam concluiu que a desigualdade na distribuição de riqueza estava fora de controle.)

Os perdedores do mundo estão assumindo seu lugar de fala. Quando isso acontece, a coisa pode ficar explosiva. Se você for ao cinema, agora, vai encontrar os moradores de Gotham City protestando, atiçando fogo e saqueando a cidade de Batman –um espelho tão fiel da temperatura de tantas outras cidades do mundo real que chega até a arrepiar.

Para continuar falando de cinema, dessa vez de um faroeste brasileiro espetacular, citemos "Bacurau": nele, também os moradores de uma pequena vila sertaneja ficam de saco cheio. Não serão mais roubados, assassinados, vilipendiados e –principalmente– subestimados. Os bacurauenses vão dar o troco. E não só eles, mas também os espectadores, se sentirão vingados.

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Existe uma raiva reprimida na base da pirâmide, aquela que sustenta os vencedores. No conto "O Cobrador", Rubem Fonseca conta o dia de um perdedor, só diferente de tantos outros porque tem um 38 e está a fim de botar para quebrar.

Com dor de dente, o cobrador vai ao dentista, mas não tem "quatrocentos cruzeiros" para pagar o tratamento. Tenta sair do consultório, mas o dentista bloqueia a porta. "Era um homem grande, mãos grandes e pulso forte de tanto arrancar os dentes dos fodidos. E meu físico franzino encoraja as pessoas. Odeio dentistas, comerciantes, advogados, industriais, funcionários, médicos, executivos, essa canalha inteira. Todos eles estão me devendo muito… Eu não pago mais nada, cansei de pagar!, gritei para ele, agora eu só cobro! Dei um tiro no joelho dele. Devia ter matado aquele filho da puta."

Esse é o começo do conto. Depois, a violência do perdedor vai crescendo até se transformar em um delírio psicopata. "Tão me devendo colégio, namorada, aparelho de som, respeito, sanduíche de mortadela no botequim da rua Vieira Fazenda, sorvete, bola de futebol", diz o cobrador. O texto foi escrito em 1979. É assustador. Quarenta anos depois, ainda me lembro dele quando vejo essa raiva nas ruas e nos cinemas.

Será que vamos chegar a assistir ao levante dos cobradores? Como poderia não acontecer? Uma mulher de quem gosto muito, Neon Cunha, designer e ativista pelos direitos trans, me disse uma vez que o mundo só tem conserto se a gente abrir mão de alguns privilégios. Parece uma obviedade, mas é verdadeiro exatamente porque é óbvio. Alguém com dinheiro para sustentar três futuras gerações pode abrir mão de um pouco para sustentar uma geração atual? Alguém pode abrir mão de sua vaga na garagem? Do projeto de ter filhos CEOs?

Perdedores só existem porque existem vencedores. Sem querer ser alarmista, mas… Ou a gente traz mais pessoas pra cima ou vamos todos pra baixo.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Brenda Fucuta é jornalista, escritora e consultora de conteúdo. Autora do livro “Hipnotizados: o que os nossos filhos fazem na internet e o que a internet faz com eles”, escreve sobre novas famílias, envelhecimento, identidade de gênero e direitos humanos. Além de entrevistar pessoas incríveis.

Sobre o blog

Reflexões de uma jornalista otimista sobre nossa vida em comum

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