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Depois das férias escolares, nossos filhos merecem férias da pandemia

Brenda Fucuta

23/05/2020 04h00

Foto: Mi-Pham/Unsplash

Conto para o meu filho que as férias da escola dele foram antecipadas para junho. As aulas, se forem autorizadas pelas autoridades municipais, voltam no começo de julho. Ele pergunta se haverá um tempo livre entre o isolamento e o retorno à escola. Começo a rir, ironizando: "Um tempo de férias porque vocês estão muito cansados com as aulas online, né?"

Mas aí me dou conta de que a pergunta dele faz todo o sentido e a minha ironia é, no mínimo, tacanha. Entre deixar o confinamento e voltar às salas de aula, os alunos deveriam, sim, ter um tempo para usufruir da liberdade.

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No primeiro mês da pandemia, recebi de uma amiga, no WhatsApp, um lindo texto sobre alunos, escolas e pandemia. Minha amiga não conseguiu rastrear a origem. Eu, por minha vez, deletei o artigo sem querer e peço desculpas por não citar a fonte. Mas o conceito defendido no texto tinha muito a ver com a pergunta feita por meu filho. Em vez de nos preocuparmos com a pressa na retomada das aulas e a recuperação do conteúdo perdido, devíamos valorizar a qualidade da retomada do acesso à vida social, à nova normalidade.

Devíamos dar tempo para que nossos filhos processem esse acontecimento – a pandemia – que marcará a geração deles com a mesma intensidade que guerras marcaram gerações anteriores. Não é pouca coisa. Devíamos abrir um espaço para que crianças e adolescentes se reencontrem em uma situação de puro usufruto do fim do isolamento. Uma experiência de alegria. A céu aberto. Que andem nas ruas, brinquem nos parques, visitem os amigos. Celebrem a volta à vida.

Conteúdos da grade escolar podem ser recuperados em qualquer outra época, não acredito que fará diferença se a equação de segundo grau for ensinada no primeiro semestre de 2020 ou no segundo. Ou ainda em 2021, se não conseguirmos controlar a pandemia antes disso. Não fará diferença se nossos filhos prestarem Enem ou vestibular neste ano ou no ano que vem, com 16, 17 ou 18 anos de idade. Não estou falando da reorganização do cronograma pedagógico, claro, essa é uma encrenca a ser resolvida por educadores e Ministério da Educação. Estou dizendo apenas que um adolescente não perderá nenhuma oportunidade de trabalho se sair da faculdade um ano mais tarde.

As crianças não ficarão menos capacitadas intelectualmente se atrasarem o aprendizado de determinados conteúdos. O Brasil tem quase 50 milhões de estudantes. Quase todos, fora das escolas já que, segundo o site do Ministério da Educação, a maior parte das escolas públicas está com as aulas suspensas. O mesmo acontece com 1,5 bilhão de crianças e adolescentes no mundo, de acordo com estimativas da Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura) e a UIT (União Internacional de Telecomunicações). Eles calculam que metade desses estudantes não tenha acesso à internet em casa. Ou seja, essa não é uma situação de exceção apenas para os nossos, mas para toda a humanidade.

No final de março, o presidente da República autorizou que escolas não cumpram a quantidade de dias letivos em 2020, mas manteve a obrigatoriedade da carga horária. Já o MEC avisa que "é preciso sempre esclarecer que, no processo de reorganização do calendário escolar, o ano letivo pode, em situações determinadas e para efeito de reposição de aulas e atividades, não coincidir com o ano civil. No processo de reorganização dos calendários escolares, é fundamental que a reposição de aulas e a realização de atividades escolares possam ser efetivadas preservando a qualidade de ensino." O que vai acontecer na prática? Corrida atrás do tempo perdido e um segundo semestre, no mínimo, exigente e estressante para os alunos.

Minha pergunta: precisa disso mesmo? Tenho uma suspeita de que não há como repor o conteúdo de forma apressada e manter qualidade. Por outro lado, o que estamos planejando, pais e educadores, para provocar reflexões nas crianças e jovens sobre este momento único que vivemos? Muitas crenças, muitas verdades foram questionadas, especialmente em torno da ideia de que nosso estilo de vida talvez não seja muito sustentável, que o modelo econômico no qual acreditávamos deva ser revisto. E que não estamos com o futuro garantido. Coisas imprevistas acontecem.

A sensação de que, isolados em casa, estamos apenas perdendo tempo, é enganosa. Estamos ganhando tempo. Tempo de vida e de aprendizado sobre a vida. Aprendizado (difícil, eu sei) sobre a convivência. Isso é insubstituível. Não precisamos ter pressa para repor conteúdo.

Sobre a autora

Brenda Fucuta é jornalista, escritora e consultora de conteúdo. Autora do livro “Hipnotizados: o que os nossos filhos fazem na internet e o que a internet faz com eles”, escreve sobre novas famílias, envelhecimento, identidade de gênero e direitos humanos. Além de entrevistar pessoas incríveis.

Sobre o blog

Reflexões de uma jornalista otimista sobre nossa vida em comum

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