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Gisela Adissi, da Associação dos Cemitérios: "Não vai haver colapso"

Brenda Fucuta

25/04/2020 04h00

Foto: Graziella Fraccaroli

Falar sobre a morte é um tabu. Mas nos últimos meses temos falado sobre ela o dia inteiro – o que não é tão ruim como parece. Nesta dramática experiência de contágio acelerado por um vírus desconhecido, estamos sendo obrigados a pensar sobre o luto, seus rituais e sua importância nas nossas vidas.

Esta é a opinião da Gisela Adissi, a jovem presidente da Associação dos Cemitérios e Crematórios Privados do Brasil (Acembra) e do Sindicato dos Cemitérios e Crematórios do Brasil (Sincep). Gisela também é uma das sete mulheres que integram o grupo Vamos Falar Sobre o Luto!, criado em 2015 para compartilhar informações e histórias e amparar quem passou pela experiência mais difícil do mundo: perder alguém amado. Nesta conversa, falamos sobre o impacto da morte pela Covid-19 na sociedade contemporânea e no sistema funeral do país.

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Por qual desafio o sistema funeral está passando ou vai passar com a pandemia? Entraremos em colapso, assim como pode acontecer com o sistema de saúde?
Nada indica que chegaremos a esse ponto. Temos capacidade nos cemitérios e nos crematórios. A nossa dificuldade está no número de câmaras frias que, grosseiramente falando, são os locais onde os corpos são depositados até sua liberação para a funerária. Algumas cidades, como São Paulo, onde o número de óbitos por Covid-19 é alto, estão preocupadas com o assunto e se preparando para criar espaços de armazenamento de corpos. É importante também que se acelere a liberação de funcionamento dos novos crematórios, que são locais com grande quantidade de câmaras frias. Existem muitos crematórios na fila de espera por causa dos trâmites burocráticos.

Como os cemitérios estão lidando com a pandemia? Há uma sobrecarga muito grande?
No Brasil, temos em média 3.500 mortes por dia de todas as causas. Até 21 de abril, o número de pessoas que morreram com Covid-19, ou com suspeita da doença, era de 3.094, segundo o site dos cartórios de Registro Civil que está no Portal da Transparência do governo federal. [No dia 21 de abril, o Ministério da Saúde divulgou o número de 2.741 óbitos. A diferença entre os números talvez se explique pela inclusão, dos cartórios, dos óbitos suspeitos.] Então, o número de mortes pela Covid fica quase irrelevante se olharmos apenas para a média. Mas se mergulharmos nas cidades que são centros da doença, como São Paulo, aí, sim, vemos uma diferença que se torna expressiva. Mesmo assim, não a ponto de paralisar nosso setor. Na minha opinião, o grande desafio nessa questão está no processo do luto, como vamos passar por ele, com tantas restrições e mudanças.

Que mudanças aconteceram?
Muitas. Quando as pessoas começaram a morrer pela Covid-19, tivemos que pesquisar o tema, os protocolos internacionais, e criar um protocolo com orientações que pudessem afastar o risco de contágio: como cuidar do corpo, do transporte, evitar a aglomeração? Até hoje, não sabemos se o risco de contágio permanece depois da morte. Então o protocolo deixou o processo da morte ainda mais estéril. Funcionários usam equipamento de proteção mais rigoroso, o corpo é embalado em dois invólucros impermeáveis e o caixão é, obrigatoriamente, fechado. O sepultador usa aquele macacão impermeável branco, que assusta um pouco, os velórios devem durar não mais do que duas horas na nossa orientação, o número de pessoas que velam não deve ser maior do que dez, sem rodízio. Considerando que a família não pode se despedir presencialmente do paciente que está na UTI, todo o processo de despedida fica interrompido e muito mais difícil.

Na sua opinião, que tipo de impacto essas dificuldades podem causar nas famílias afetadas pela doença?
Embora muitas famílias peçam que não haja velório para evitar risco de contágio, a maioria sofre a privação da despedida. No projeto Vamos Falar Sobre o Luto!, costumamos dizer que o luto não tem cura, porque não é uma doença, mas tem uma trajetória que precisa ser elaborada. São as cinco etapas clássicas: a da negação, da letargia, da barganha, da raiva e da aceitação. Não necessariamente precisam vir nessa ordem e nem precisam acontecer da mesma forma para todas as pessoas. Algumas etapas, inclusive, podem se repetir. Dentro do processo de luto, essa trajetória é importantíssima para que haja a despedida sem culpa, sem arrependimentos. Pela minha experiência, as despedidas mais difíceis são aquelas em que a família sente que não conversou o suficiente e, na hora do luto, percebe que mal conhecia a pessoa. Não se sabe qual a flor preferida, a música… Se isso já é complicado, imagine agora em que temos uma condição que nos impede de cumprir todas as etapas do luto.

Como as pessoas têm se despedido?
Tenho acompanhado coisas muitos legais. Por exemplo, quando a família marca um horário para todo mundo acender uma vela. Ou a troca de histórias sobre a pessoa que morreu. Ou reunião no Zoom, como aconteceu na despedida do Daniel Azulay [artista plástico e educador que morreu aos 72 anos, vítima da Covid-19]. Os participantes mostravam fotos e contavam histórias que viveram com ele. Foi muito bonito. Estamos vivendo um momento de total ressignificação dos rituais de luto. Em 2016, fiz uma pesquisa em São Paulo, a Cartografia da Morte. Em 2018, ampliei para o Brasil inteiro, entrevistamos mais de mil pessoas. Percebemos que os brasileiros não se identificavam mais com os rituais; a Missa de Sétimo Dia tinha perdido a adesão, assim como o uso do preto nas roupas. Agora que fomos privados desses rituais, estamos em busca de alternativas, estamos procurando qual é a homenagem que realmente faz sentido.

Você acha que daqui para a frente será assim?
Também no caso do luto, tudo que não foi feito em 10 anos de digital, estamos resolvendo em dois meses. Ainda bem que encontramos novas maneiras de nos despedirmos, mas não acredito que os rituais pela internet substituam os presenciais. Eu acredito que, quando pudermos estar juntos de novo, vamos incorporar as criações de agora ao acolhimento que demanda proximidade física. As pessoas precisam de um abraço, isso faz parte da rede de apoio de quem está de luto. Mesmo quando não se sabe o que dizer, é importante estar junto, ficar do lado, fazer companhia, ajudar na casa… Não existe a palavra apropriada para este momento, mas existe a presença apropriada.

E a ideia da morte que está nos rondando 24 horas por dia? Que efeitos sofremos desse luto coletivo?
É muito angustiante, com certeza. Mas tem uma coisa positiva, que é o fato de falarmos sobre a morte. Nós sempre negamos a morte, é um tabu tão grande que, apesar de ser inevitável, apenas 10% das pessoas se preparam para esse momento, adquirindo um plano, um seguro, tomando providências para sua despedida. Agora, a gente está falando sobre o assunto, ele está em cima da mesa. E eu acredito piamente que, para suportarmos o luto, precisamos falar dele.

Sobre a autora

Brenda Fucuta é jornalista, escritora e consultora de conteúdo. Autora do livro “Hipnotizados: o que os nossos filhos fazem na internet e o que a internet faz com eles”, escreve sobre novas famílias, envelhecimento, identidade de gênero e direitos humanos. Além de entrevistar pessoas incríveis.

Sobre o blog

Reflexões de uma jornalista otimista sobre nossa vida em comum

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