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Ninguém escuta ninguém: estamos todos “phubbados”?

Brenda Fucuta

29/02/2020 04h00

Foto: Mckaela Lee/Unsplash

Você precisa repetir uma história porque seu interlocutor não se lembra dela – mas você sabe, tem certeza de que ela já foi contada. Ou: seu interlocutor fala muito de si e, quando chega a sua vez, o que acontece? Você fica no vazio, ele deixa de prestar atenção.

Alguma dessas situações parece familiar? Comigo vêm acontecendo com frequência. No começo, achei que eu era a responsável. Estava ficando desinteressante? Tinha perdido o dom da conversa? Depois, considerei a faixa etária. Meus conhecidos estavam envelhecendo e tendo lapsos de memória? Mas, então, me dei conta que a desatenção estava contaminando todo mundo: gente nova e gente velha, gente que você conhece superficialmente e gente com quem convive há décadas. Está todo mundo "phubbado" e "phubando" – ignorado e ignorando – o interlocutor. Phubbing vem do inglês (phone + snobbing) e explica aquela situação em que a pessoa esnoba a outra para prestar atenção no celular.

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Estou emprestando o termo das relações digitais para usá-lo também nas conversas analógicas porque suspeito que elas possam estar relacionadas. A prática de consultar a rede social e atender o celular durante uma conversa – seja no restaurante, no carro ou em casa – está se normalizando nas nossas vidas. Prejudicada, a interação inclui respostas demoradas, entonação mecânica e falta de contato visual, segundo o professor Jesper Agaard, da Aahus University, da Dinamarca, que publicou um estudo sobre o assunto em janeiro de 2019. Segundo Jesper, o phubbing deixa a pessoa em um estado de presença ausente. Apenas o corpo dela – e, talvez, um tiquinho de atenção – está com você.

Fico me perguntando se as pessoas não estão se transportando para este estado de distração permanente mesmo quando não há celular por perto. Será que viciamos o cérebro no entretenimento contínuo dos vídeos, games e seriados? Ou na cacofonia das redes sociais? Por que prestar atenção em uma pessoa somente quando eu poderia ler a opinião de centenas no Twitter? Acompanhar, no Instagram, o que dezenas de amigos estão fazendo? Será que isso explica a falta de interesse generalizada?

Nos anos 1980, aconteceu um fenômeno parecido. Ainda não havia acesso à internet e nem celular quando as crianças começaram a ser enviadas aos consultórios de psicólogos e neurologistas porque estavam tendo dificuldade para prestar atenção nas aulas. Esse fenômeno foi considerado um transtorno que hoje conhecemos bem, o Transtorno de Déficit de Atenção, o TDA. Para ajudar as crianças a recuperar sua capacidade de foco e de concentração, foi criada uma terapia à base de Ritalina. Uma ou duas gerações foram tratadas com ela.

Quarenta anos depois, somos nós, os adultos, que não conseguimos nos concentrar na mais básica das interações humanas, a conversa. E, pior: o phubbing, segundo outros pesquisadores – os britânicos Varoth Chotpitayasunondh e Karen M. Douglas, da Universidade de Kent – tem um enorme potencial para se alastrar. Uma pessoa phubbada hoje será um phubbador amanhã. Isso porque existe a lei da reciprocidade nesses casos. Uma vez que você foi excluído, se achará no direito de excluir. Ou seja, a coisa pode se propagar com a rapidez de um vírus.

Odeio conclusões fáceis em relação às novas tecnologias. Espero que eu esteja errada e que o phubbing digital nada tenha a ver com a epidemia da distração que eu percebo nas pessoas com as quais convivo. Mas que isso tudo está muito esquisito, está, você não acha?

O quê? Você precisa ler de novo? Ah, tudo bem. Devia estar com a cabeça em outro lugar, eu entendo.

Sobre a autora

Brenda Fucuta é jornalista, escritora e consultora de conteúdo. Autora do livro “Hipnotizados: o que os nossos filhos fazem na internet e o que a internet faz com eles”, escreve sobre novas famílias, envelhecimento, identidade de gênero e direitos humanos. Além de entrevistar pessoas incríveis.

Sobre o blog

Reflexões de uma jornalista otimista sobre nossa vida em comum

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