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Os grupos de família estão brigando de novo: melhor no WhatsApp que na rua

Brenda Fucuta

16/11/2019 04h00

Ivan Pergasi/Unsplash

Desde a semana passada, começou de novo. Os grupos de família do WhatsApp estão apitando, nervosos, com a guerra civil dos bolsominions X petralhas. É o tio publicando memes toscos do Bolsonaro, o primo reagindo com fake news sobre Lula. Vice-versa também vale. Os irmãos começando com brincadeiras, dias depois já se estranhando. A mãe entrando no meio para contemporizar. "Deixa disso, o grupo é para falar de coisas boas, de coisas da família." Não respeitam nem a mãe. "Se a gente não pode falar o que pensa com a família, para que serve a família?" Ui, pesado. Ninguém se salva nessa batalha.

Porque é disso que se trata agora. Não tem mais projeto político nem vontade de conversar, não tem sequer uma meta. Da última vez, pelo menos, a gente achava que tinha um objetivo, eram as eleições. Qual o objetivo agora? Nenhum, apenas o colapso de duas visões de mundo que não conseguem conviver, antíteses sem futuro, destinadas a ser engolidas, ambas, pelo buraco negro. É o errado lutando contra o errado, encarnados em dois líderes que, embora tenham biografias incomparáveis, parecem estar fadados a liderar a mesma coisa nesse momento –apenas ódio.

Será que nada nos liga, senão o ódio?

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Existem coisas intoleráveis. Coisas que realmente não merecem compreensão e aceitação. Contra essas coisas, temos que nos levantar, brigar, gritar. Mas e quando o intolerável de um é o contrário do intolerável de outro? Nesse momento, passamos a falar línguas estranhas, perdemos a noção de unidade, despedaçamos o que seria a identidade de um povo. Passamos a aceitar as brigas das torcidas organizadas, conseguimos nos ver como cruzados lutando a guerra justa. Na guerra santa, todos os valores se subordinam à grande causa, certo? Se os vizinhos, os amigos, os colegas e os parentes não estão com você, estão contra você.

Assim começam as guerras fraternas. As guerras civis.

Na vida fora dos aplicativos –a vida contada pelas pesquisas de opinião–, existem os famosos três terços que formam o Brasil atualmente. Dois terços estão em guerra aberta entre si, é o país polarizado. O terço restante ou não achou seu rumo, ou ligou o f* ou não tem WhatsApp. São aqueles que, como a mãe do começo do texto, dizem: "Deixa disso, esses políticos não merecem entrar no grupo da família".

A intenção é boa, mas eles estão errados. O debate político tem, sim, que entrar no aplicativo. Precisamos aprender a discutir, a brigar com argumentos, memes e emojis. Não com armas –que estão bem na moda, aliás. É chato, eu confesso que tenho quase nada de paciência, mas não vejo outra saída. As discussões nos grupos de família estão nos dando uma chance de crescer, de ouvir, de ceder e de convencer. Não devíamos fugir delas.

Essa é a nossa oportunidade de exercitar a democracia no dia a dia, no primeiro espaço coletivo que temos, o do convívio familiar. Melhor brigar no WhatsApp do que nas ruas. Quem sabe, com isso e um pouco de exercício honesto da política, a gente consegue evitar a Bolívia?

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Brenda Fucuta é jornalista, escritora e consultora de conteúdo. Autora do livro “Hipnotizados: o que os nossos filhos fazem na internet e o que a internet faz com eles”, escreve sobre novas famílias, envelhecimento, identidade de gênero e direitos humanos. Além de entrevistar pessoas incríveis.

Sobre o blog

Reflexões de uma jornalista otimista sobre nossa vida em comum

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