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Por que devemos ter muito medo da ideologia de gênero?

Brenda Fucuta

05/09/2019 04h00

Foto: Laercio Cavalcanti/Unsplash

Temos que ter medo da ideologia de gênero porque ela é fake news, é descaradamente populista e mal-intencionada. Muito pior do que o terraplanismo. Enquanto o terraplanismo causa mal apenas a quem quer continuar ignorando a ciência e vivendo no mundo da fantasia medieval, a ideologia de gênero tem um compromisso com a perversidade –torce os fatos para aumentar o preconceito, a discriminação e o sofrimento, especialmente o sofrimento de crianças e adolescentes.

Por que ela é fake news? Para começar, a expressão ideologia de gênero não tem fundamento teórico . Ela é uma criação de setores ultraconservadores da Igreja Católica que, no fim dos anos 90 (sim, na virada do século, antes do Papa Francisco), decidiram "anunciar o prelúdio do apocalipse moral disseminando a tese de que os movimentos feministas e de lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais e intersexuais (LGBTI) estariam promovendo a destruição da família e incentivando toda sorte de libertinagens sexuais dentre as quais a pedofilia, a zoofilia e a necrofilia" , comenta Ivanderson Pereira da Silva, da Universidade Federal de Alagoas, em esclarecedor artigo publicado na Educação em Revista em dezembro de 2018.[1]

Por que é populista? Adotada por movimentos políticos, a ideologia de gênero passou a nomear uma suposta lavagem cerebral que professores estariam provocando na cabeça de seus alunos. Ao ensinar a ideologia, ele estariam negando a distinção entre homens e mulheres e promovendo a homossexualização do mundo. (Nenhuma ideologia é capaz de produzir esses dois fenômenos. Homens e mulheres continuarão nascendo com diferenciais fisiológicos. E ninguém se " transforma" em homossexual porque aprendeu isso na escola.)

Por que é mal-intencionada? Sem compromisso nenhum com a ética e a responsabilidade social, ela apela para o que é conhecido como pânico moral: a reação exaltada e irracional diante de situações desconhecidas ou novas. Ninguém promove o pânico moral com boas intenções. E, sendo irracional, ele nunca termina bem.

Por que é perversa? Porque os movimentos políticos estavam, basicamente, chamando de ideologia de gênero a educação sexual nas escolas e o combate à homofobia, à misoginia e à transfobia. Educação sexual é uma questão de saúde, não de moral ou de religião. Os malucos paniquistas estão negando o fato de que crianças e adolescentes têm corpo. Têm órgãos sexuais, que precisam ser conhecidos, lavados e cuidados para que não se transformem em fonte de doenças, neuroses e abusos.

Finalmente, para não me estender muito no assunto e pedindo desculpas pela simplificação do tema, os paniquistas estão condenando parte dos nossos filhos –aqueles que não se enquadram no seu jeito de entender o mundo– a uma vida escolar cheia de humilhação, desrespeito, desconhecimento e sofrimento.

[1] Na pesquisa "Em busca do significado para a expressão ideologia de gênero"

 

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Brenda Fucuta é jornalista, escritora e consultora de conteúdo. Autora do livro “Hipnotizados: o que os nossos filhos fazem na internet e o que a internet faz com eles”, escreve sobre novas famílias, envelhecimento, identidade de gênero e direitos humanos. Além de entrevistar pessoas incríveis.

Sobre o blog

Reflexões de uma jornalista otimista sobre nossa vida em comum

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