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Dia da mentira: 4 crenças sobre as mulheres desmentidas pela ciência

Brenda Fucuta

2031-03-20T19:04:14

31/03/2019 04h14

 

iStock

Estamos aqui, no século 21, uma época em que as mulheres nunca tiveram tantos direitos na história recente – ao voto, ao divórcio, ao planejamento familiar, ao trabalho remunerado, a sair sozinha e tomar um chope em um bar. Ao mesmo tempo, estamos a quase um século de conquistarmos a equidade, a situação em que homens e mulheres têm direitos e oportunidades iguais. Quando grupos diferentes se equilibram entre dois lados – quem manda e quem é mandado –, uma estratégia bastante usada para a manutenção do poder é a mentira.

Neste primeiro de abril, descubra algumas das mentiras que ainda ouvimos – e acreditamos – sobre as mulheres nesta entrevista que fiz com o cientista Altay de Souza, pesquisador PhD do Departamento de Psicobiologia da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP). Além de dominar várias disciplinas da ciência, Altay é o cara que faz parceria com Ken Fujioka no ótimo Naruhodo, um dos podcasts de divulgação científica mais legais do mundo.

  1. Só mulheres têm "instinto materno"?

Não. Durante a gestação, o parto e sobretudo durante o período em que o bebê tem menos dois meses, uma série de hormônios é liberada no corpo da mulher para estimular sua ligação com a prole, seus filhos. O principal destes hormônios é a oxitocina, produzida pelo hipotálamo no cérebro e colocada no sangue por uma glândula chamada pituitária. Ele é conhecido como hormônio responsável pelo comportamento de apego. Mas homens que acompanham o processo de gestação, de nascimento e de cuidado com o bebê, também sofrem aumento do nível de oxitocina – embora não tão elevado quanto o da mulher –, ao mesmo tempo em que ocorre uma redução do nível da testosterona, substância virilizante. Portanto, a rigor, esta disposição para a maternagem e o cuidado parental pode existir tanto no homem quanto na mulher. Uma coisa importante quanto à questão: costumamos imaginar que comportamentos, como o instinto materno, são determinados pela biologia ou pelo ambiente, de forma excludente. Mas isso é uma falácia baseada em uma falsa dicotomia. Todo comportamento é sempre uma combinação de fatores biológicos/genéticos e da interação social. O que muda é a intensidade de cada um destes fatores, em função do período do ciclo de vida do indivíduo e do ambiente naquele momento. Para a ciência biológica, o instinto é uma predisposição inata para a realização de determinadas ações ou comportamentos padronizados. Nos animais não-humanos, os comportamentos com forte componente genético/biológico são mais evidentes do que nos humanos, porque boa parte da nossa maturação cerebral acontece fora do útero, o que aumenta a intensidade do fator ambiental.

  1. Mulheres são multitasking? Isso é uma habilidade feminina?

Falei recentemente sobre multitarefas em um dos nossos podcasts, inclusive. Não. Não há  nenhuma evidência científica formal da existência dessa habilidade ou peculiaridade. Aliás, nem mulheres nem homens são multitasking, porque não somos capazes de fazer duas coisas ao mesmo tempo. No máximo, alternamos nossa atenção entre uma coisa e outra, o que compromete nossa capacidade cognitiva e nossa performance. Em suma, se você fizer uma coisa de cada vez, além de fazer mais rápido, vai fazer melhor e com menos erros. O multitasking está relacionado às mulheres porque faz parte da representação social feminina – as mulheres têm de trabalhar, cuidar dos filhos, da casa etc. Nesse sentido, dizer que isso é uma "habilidade" feminina apenas condiciona as mulheres a aceitar a ideia de que tripla jornada é natural. "Vocês dão conta", elas ouvem, porque é "normal mulher ser multitarefas". Em vez de valorizar a figura feminina, essa suposta habilidade a estereotipa em um papel social desgastante.

  1. Mulheres que usam a suavidade natural do gênero são mulheres negociadoras?

Não. Isso também é uma categorização atribuída à figura feminina moderna de sociedades ocidentais. Não tem essa coisa de mulheres serem mais suaves, gentis, sedutoras. Falando como psicólogo, suavidade é um termo que descreve alguns comportamentos mas não explicam nada. Eu não olho o seu comportamento e digo que ele é suave; eu olho seu comportamento e associo com algo que eu entendo que é suavidade. Como é possível desenvolver competências comportamentais que, em uma negociação por exemplo, podem gerar essa percepção de suavidade? Podemos medir competências como auto-controle, (capacidade de esperar para um ganho maior no futuro, frente a um ganho menor presente), impulsividade e controle inibitório (o quanto aguentamos esperar e dar lugar ao outro), capacidade de ter alteridade (se colocar na posição de que eu não entendo o lugar do outro, mas sim tenho curiosidade em entender). Mas não podemos medir a suavidade como competência. Geralmente, essa percepção de que mulheres são mais eficientes em negociações acaba sendo um co-produto "positivo" da nossa percepção sobre a diferença entre os gêneros. Em um contexto de negociação, saber quando encarnar o estereótipo que o outro espera (submissão) ou reagir a ele (ser imponente e agressiva), aumenta a persuasão positiva dos outros para com o negociador.

  1. A equidade de gênero não é natural.

A seleção natural não liga para o que as pessoas pensam sobre equidade, ela apenas seleciona traços adaptativos que favorecem a sobrevivência da espécie (e sobretudo, dos seus genes). As diferenças de gênero existem, é óbvio. O problema é achar que diferenças são vantagens. O que pode, finalmente, nos tornar um pouco diferentes de outras espécies é o fato de que temos uma cultura – que também foi fruto de seleção natural – com regras próprias. Entre elas, o princípio da Razoabilidade, da Equivalência e da Equidade. Deixar de pensar que diferenças necessariamente são vantagens e que uma sociedade mais equitativa entre os gêneros vai ser mais justa e maximizar as potencialidades e aptidões dos indivíduos é o papel de todas as pessoas. Para mim é difícil imaginar uma sociedade organizada com essa perspectiva de equidade porque nunca experimentamos essa situação na História que conhecemos. Mas que seria legal, seria, não é?

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Brenda Fucuta trabalhou em jornais e revistas por 30 anos e se especializou no comportamento de jovens e mulheres. Atualmente, estuda a convivência de gerações e escreve sobre o universo digital dos adolescentes.

Sobre o blog

Reflexões de uma jornalista otimista sobre nossa vida em comum