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Especialista fala de limites na internet para crianças e jovens

Brenda Fucuta

17/03/2019 04h01

Foto: Alexander Dummer/Unsplash

Aos 6 anos de idade, uma em cada dez crianças e adolescentes usuários de Internet tiveram contato com a rede pela primeira vez. Aos 12 anos, oito em cada dez navegam. Para ficar mais tempo na internet, 20% das crianças e adolescentes de 11 a 17 anos deixaram de comer. 23% tentaram passar menos tempo e não conseguiram.

Este tipo de dado vem sendo colhido por um centro de estatísticas, o Cetic.br, ligado ao NIC.br (Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR), que pesquisa o uso da internet no Brasil desde 2012. O relatório que resulta desta pesquisa, anual, chamado TIC Kids Online, fala sobre o comportamento de internautas de 9 a 17 anos de idade, mas também mostra como os pais estão lidando com o uso da rede por seus filhos.

Para falar sobre pais, filhos e cuidados com as telas, entrevistei a advogada Kelli Angelini, gerente jurídica do NIC.br, coordenadora  do projeto Internet com Responsa, voltado aos adolescentes, pais e responsáveis, educadores e pessoas com 60 anos ou mais.

 

As crianças estão entrando na internet cada vez mais cedo. Qual a idade adequada, na sua visão?
A internet é um ambiente de oportunidades, porém, assim como outros ambientes oferece riscos e responsabilidades. Quanto mais cedo a criança tem acesso à Internet, mais cedo ela está exposta a um ambiente em que há de tudo, assim como uma rua ou uma praça pública. Quanto à idade adequada, esta é a pergunta que os pais sempre fazem e sempre respondo que não há idade padrão para liberar o acesso à internet ou ao celular. Cada pai e mãe tem que observar se o filho já tem noção de autoproteção e de responsabilidade na internet. No meu caso, por exemplo, não deixo minha filha de 8 anos acessar a internet sem a presença de um adulto porque sei que ela não tem ainda noção de autoproteção, de responsabilidade, de dimensão das consequências. Mais do que tentar descobrir uma idade padrão, os pais deveriam analisar a maturidade do filho. A Sociedade Brasileira de Pediatria traz algumas recomendações ligadas à área da saúde, como por exemplo, permitir o acesso à Internet por apenas uma hora por dia para crianças de 2 a 5 anos; proibir o computador no quarto de crianças de até 10 anos; respeitar as 9 horas de sono para adolescentes; equilibrar horas online com atividades esportivas e brincadeiras.

Os pais pesquisados por vocês mostram alguma preocupação com o uso que os filhos fazem da internet?
Os jovens entrevistados na TIC Kids Online citam trabalhos escolares como resposta principal ao serem perguntados sobre o que fazem na internet. Isso é bom, porque significa que eles passam a ter acesso também a inúmeras oportunidades. Por outro lado, percebemos que poucos pais acompanham, de fato, o uso da internet por seus filhos. Sem a mediação dos adultos, esses jovens estão expostos a riscos, a excesso de uso, a conteúdo inadequado para a idade e à interação com desconhecidos. Mais de um terço deles diz já ter testemunhado um episódio de discriminação e 42% informam já ter tido contato com alguém que não conheciam pessoalmente. O que mais chama a atenção é o fato de que, quando algo os incomoda na internet, os jovens buscam mais ajuda com os amigos e professores. Então, a reflexão que temos que fazer: por que não está havendo interação entre pais e filhos em caso de riscos? E as escolas, estão preparadas para dar conta de mais essa tarefa?

Que tipo de "dramas" digitais as escolas estão administrando?
Uso indevido de imagem e violação da intimidade, quando os alunos utilizam fotos de colegas ou até mesmo de professores, sem autorização, para zombar ou fazer piadinhas de mau gosto. Há casos, inclusive, de alunos que chegam a enviar imagens íntimas ou constrangedoras de colegas para a escola inteira, gerando consequências devastadoras para aqueles que são expostos. Essas situações muitas vezes não ocorrem dentro do ambiente escolar, mas os pais buscam ajuda e punição nas escolas. Será que as escolas devem funcionar como tribunais julgando fatos como estes? E mais, será que os profissionais das escolas estão capacitados para lidar com situações assim? É difícil responder, mas não tenho dúvidas que o caminho é prevenir jovens para evitar que essas situações aconteçam e, aí sim, a escola e os pais têm um papel fundamental.

Veja alguns dados:

Pais:
84% dos pais dizem que seus filhos não passaram por nenhuma situação de incômodo ou constrangimento na internet.
60% dos pais explicam aos filhos o que fazer se alguma coisa incomodá-los ou aborrecê-los na internet.
56% dos pais dizem sentar com os filhos para navegar juntos.

Filhos:
49% das crianças e adolescentes dizem que seus pais têm muito conhecimento das atividades que realizam na internet.
42% delas dizem que os pais conhecem "mais ou menos" e 8% dizem que eles não sabem nada
39% das crianças e adolescentes disseram ter testemunhado episódios de discriminação na Internet, especialmente referentes à cor e raça, aparência e orientação sexual
22% disseram ter sido tratados de forma ofensiva.
15% disseram ter agido de forma ofensiva.

Fonte: TIC Kids Online Brasil 2017

Kelli Angelini: "a internet é um ambiente de oportunidades mas de riscos também"

Segundo pesquisa mundial da agência Wearesocial, os brasileiros ficam conectados 9 horas por dia. Parece muito, mas não é uma surpresa, não é?
Sim, para quem trabalha com o computador, nove horas por dia é algo natural. Mas para um adolescente, por exemplo, que fica cinco horas na escola, mais outras tantas dormindo, fazendo lição de casa, tomando banho, praticando esportes, brincando etc. não cabem nove horas de internet ou de conversas no WhatsApp. Então, o que ele faz? Pula a hora de dormir, de comer e por aí vai. Ou seja, há um uso excessivo em muitos casos, e isso gera consequências no desenvolvimento físico e mental de crianças e adolescentes. Quando acontece o excesso, cabe aos pais, aos adultos, provocar reflexão e estabelecer limites. Limites, nessa idade, são benéficos.

Você fala muito na necessidade de envolvimento dos adultos.
Trabalho para promover o uso responsável da internet e, entre crianças e adolescentes, e tenho plena convicção que a participação dos adultos é fundamental. Os adolescentes estão em desenvolvimento e têm muita dificuldade de materializar prejuízos. Porém, se você o ajuda a pensar nas consequências, estimular a ter pensamento crítico, promove a conversa dentro de casa e dá exemplos de bons hábitos e riscos no uso da internet, tenho certeza de que ele vai pensar no assunto em algum momento.

Que tipo de exemplos?
Se ele fica acordado até tarde, como vai conseguir acordar? E se faltar na escola, como vai compreender o conteúdo? Ou se ele chegar com sono, como vai prestar atenção nas aulas e todas as consequências naturais disso. O adulto tem que alimentar o senso crítico do adolescente.

Leia mais: A moda de enviar nudes chegou às crianças? 6 dicas para controlar o tempo que seu filho fica no tablete ou celular

Mas não é fácil convencê-los, certo?
Não é, mas ajuda se os adultos entenderem as necessidades dos jovens aos estabelecerem combinados ou limites de uso. A gente precisa entender que, do lado dos jovens, ficar conversando pelo Whatsapp é um jeito de participar e ser aceito pelo grupo deles. Então, proibir ou impedir determinados acessos, dependendo da idade, pode ser até prejudicial. Mas é possível combinar horários para que o acesso à Internet não atrapalhe nas atividades cotidianas.

Que tipo de combinado você acha que funciona?
Aqueles que são construídos pela família, com uma conversa entre pais e filhos e especialmente se seguidos por todos. Se não é para usar celular nas refeições, pai e mãe também têm de respeitar a regra. Se é para desconectar às 10 da noite, o mesmo pode valer para os pais. Caso os combinados entre pais e filhos não estejam funcionando, existem muitos softwares de controle parental que ajudam a controlar horários, a bloquear acesso a conteúdos inadequados. Eles também mandam alertas para os pais sobre as atividades dos filhos na internet e isso auxilia os pais a terem conversas direcionadas.

Mas isso não é invadir a privacidade?
Entendo que o acompanhamento dos pais é necessário quando se permite o acesso a esse ambiente imenso de oportunidades que é a Internet, mas que também há riscos. Acredito que os pais podem ser transparentes e informar os filhos quando vão instalar os softwares de controle e explicar o porquê. Essas ferramentas podem permanecer até que os pais vejam que o filho já tenha  maturidade para  fazer o autocontrole.

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Sobre a autora

Brenda Fucuta é jornalista, escritora e consultora de conteúdo. Autora do livro “Hipnotizados: o que os nossos filhos fazem na internet e o que a internet faz com eles”, escreve sobre novas famílias, envelhecimento, identidade de gênero e direitos humanos. Além de entrevistar pessoas incríveis.

Sobre o blog

Reflexões de uma jornalista otimista sobre nossa vida em comum

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