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Alguns homens ainda acham que a pensão vai para a ex e não para os filhos

Brenda Fucuta

05/09/2020 04h00

Ouço a conversa de dois jovens pais que foram obrigados a pagar pensão alimentícia aos filhos. Estão revoltados. Um deles diz que não ganha, no mês, a quantia da pensão determinada em juízo. O outro reclama que seu dinheiro será desperdiçado pela ex. Enquanto conversam, lembram, um ao outro, que adoram seus filhos e odeiam as mães deles.

Por que é tão difícil, para muitos pais, entenderem que dar parte de seus ganhos para o sustento dos filhos não é absurdo? Que medo é este de que o dinheiro vá ser gasto pela mãe com "coisas para ela" e não para a criança?

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A ameaça de prisão em caso de não pagamento da pensão alimentícia é assustadora, claro. E existe muita gente com renda variável, gente que de fato pode não conseguir fazer, no mês, o que foi determinado que eles paguem aos filhos. Entendo tudo isso. Mas crianças precisam comer, se vestir, se divertir, se educar todo dia, certo?

Me pergunto de onde vem o medo de que o dinheiro vá ser gasto pela ex-mulher. Fruto de uma visão antiga –e machista– sobre a responsabilidade na criação dos filhos? Uma visão que ainda associa crianças a um projeto de casal, e não de dois adultos? Explico. Muitas vezes, me parece que, para muitos pais, acabado o casamento, acaba também a responsabilidade sobre os filhos.

Até mesmo a responsabilidade emocional pode desaparecer. Nessa semana, a coluna da jornalista Monica Bergamo, na Folha de S.Paulo, publicou a seguinte notícia: a Justiça autorizou, pela primeira vez, que o nome de uma pessoa fosse modificado porque tinha sido dado por um pai que a abandonou. Ao rejeitar o nome, a filha adulta tratava de esquecer a rejeição do pai.

Quantas histórias de abandono não conhecemos? Vamos lembrar que mais de 30% dos lares brasileiros são chefiados por mulheres, o que dá uma pista sobre a quantidade de mães solo no país. Por acaso, é muito comum que os juízes estabeleçam o valor das pensões alimentícias  em 30% da renda.

Nunca conheci uma mãe, divorciada ou solo, que achasse injusto gastar 30% dos seus ganhos mensais com a família. Em geral, gasta-se tudo. Ou seja, me parece que pais que ficam com dois terços de sua renda para gastos próprios estão no lucro.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Brenda Fucuta é jornalista, escritora e consultora de conteúdo. Autora do livro “Hipnotizados: o que os nossos filhos fazem na internet e o que a internet faz com eles”, escreve sobre novas famílias, envelhecimento, identidade de gênero e direitos humanos. Além de entrevistar pessoas incríveis.

Sobre o blog

Reflexões de uma jornalista otimista sobre nossa vida em comum

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