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Projeto do YouTube convida a pensar que recado você quer deixar pro futuro

Brenda Fucuta

25/07/2020 04h40

(Daniele Franchi/Unsplash)

Não sei se você viu, mas o YouTube nos convidou a pegar o celular neste sábado (25) e gravar trechos do cotidiano. Como o convite não é exclusivo,  imagine a quantidade de cenas do dia a dia que serão capturadas e enviadas ao diretor de cinema Ridley Scott, contratado para produzir o documentário sobre nossas vidinhas. Um filme "cápsula do tempo", definição do próprio YouTube. 

Não é a primeira cápsula do tempo, não deverá ser a última. Existem várias por aí, com música, roupas, documentos –e até um Chevrolet– aguardando milênios para serem abertas. As cápsulas criadas pela empresa Westinghouse, em 1939 e em 1965, estão três metros abaixo do solo de Nova York e têm instruções para serem abertas apenas em 6939.  Várias cápsulas estão no espaço, na difícil missão de apresentar a humanidade para extraterrestres. Duas viajam a bordo de naves Voyager, outras descansam no interior das sondas Pioneer 10 e Pioneer 11. 

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O que a cápsula do YouTube deveria conter? O que diríamos sobre nós mesmos a outro ser humano do futuro? Vamos começar pelos "big numbers". Somos quase 7,8 bilhões de pessoas [1] e continuamos crescendo. Inventamos uma tecnologia que controla a quantidade de filhos, mas, ainda assim, apenas no primeiro dia de 2020, nasceram 392 mil bebês humanos. [2]

Produzimos comida suficiente para alimentar todo mundo e estamos tendo mais problemas de saúde relacionados ao excesso de comida do que à falta dela. Mesmo assim, existe gente passando fome. Estamos nos perguntando, agora, se os recursos da Terra serão suficientes para a nossa sobrevivência, já que nossa atividade afetou 75% da superfície dela. Verdade que conseguimos chegar à Lua e planejamos aterrissar logo em Marte, mas ainda não encontramos outro lugar para morar e prolongar nossa existência.  

Falamos mais de 7.000 línguas e quase todos conseguimos ler os letreiros de ônibus e escrever o próprio nome.  Mas 10% dos nossos ainda são analfabetos. Por outro lado, estamos nos comunicando como nunca, falando mais do que escrevendo, porque inventamos um aparelho que facilita a comunicação e permite enviar e receber mensagens gravadas.

É verdade que estamos dependentes dele, especialmente as crianças. Um dado que fala muito sobre nossas condições atuais: ganhamos muitas décadas de vida. Hoje, os brasileiros chegam aos 80 anos. No começo do século passado, mal beiravam os 40. Por este ponto de vista, é como se passássemos a viver duas vidas em uma.

Somos muito parecidos, uma espécie bem homogênea. Alguns poucos traços nos diferenciam, mas insistimos em valorizar mais as diferenças do que as semelhanças, o que naturalmente gera bastante tensão. Não nos incomodamos muito com desigualdades econômicas e sociais, embora o eixo ético e religioso predominante defenda a justiça e a compaixão. No fim da Segunda Guerra Mundial, no meio do século 20, nos comprometemos a garantir direitos a determinados grupos humanos que havíamos acostumado a desprezar, a excluir, a privar do acesso ao que chamamos cidadania.  Estamos brigando até hoje para que este compromisso seja honrado.

Nos consideramos muito violentos. De fato, nos matamos e nos agredimos, mas um psicólogo canadense, Steven Pinker, diz que nossa era é mais pacífica do que pensamos [3]. Conflitos e guerras contemporâneos, por exemplo, fizeram menos vítimas do que outros eventos do passado. Proporcionalmente, morreu, na Segunda Guerra, metade do número de pessoas que perdeu a vida na queda de Roma, há 16 séculos. As conquistas mongóis, entre os séculos 13 e 14, por sua vez, teriam matado cinco vezes mais vezes mais do que a última guerra mundial.

Somos reclamões por natureza e temos angústias. Uma doença chamada depressão acomete 350 milhões de pessoas no planeta. Mas somos meio bobos também, gostamos de piadas e comédia. Gostamos de estar juntos, o que certamente nos ajudou a chegar onde chegamos enquanto espécie. Agora, estamos em um momento incomum, quando uma doença altamente contagiosa nos isolou dentro de casa, matou mais de meio milhão de pessoas em poucos meses e aumentou muito o número de pessoas em estado de extrema pobreza.  

Mas ainda acreditamos que vamos sair dessa. 

Enviar um pedaço do nosso presente para o futuro, exatamente neste momento, é mais do que uma experiência documental. Acho que é um exercício de fé. Ainda não sabemos exatamente quem somos e em que lugar da história estamos. E, mesmo assim, não nos imaginamos sem futuro. Somos seres bem esquisitos. 

Boa sorte para Ridley Scott.

 

[1] Our World in Data.

[2] Unicef/estimativa

[3] No livro "Os Anjos Bons da Nossa Natureza". Companhia das Letras. 2013.

Sobre a autora

Brenda Fucuta é jornalista, escritora e consultora de conteúdo. Autora do livro “Hipnotizados: o que os nossos filhos fazem na internet e o que a internet faz com eles”, escreve sobre novas famílias, envelhecimento, identidade de gênero e direitos humanos. Além de entrevistar pessoas incríveis.

Sobre o blog

Reflexões de uma jornalista otimista sobre nossa vida em comum

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