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O que aprendi com a minha pia de louça suja

Brenda Fucuta

18/07/2020 04h00

Foto: Harry Grout/Unsplash

Entro na casa dele. Arrumada, limpa, feita para receber. Cada canto tem uma graça. Um móvel resgatado da família. Um vaso com folhagens secas, resgatadas do desprezo, em um arranjo surpreendente e encantador. Livros empilhados –de maneira irregular, como um sorriso levemente torto, mas bonito ainda assim. Penso que esta casa é um presente para os olhos dos visitantes que, como eu, apreciam minúcias.

Agora, a cozinha, onde vejo a pia seca. Óbvio que tudo foi lavado e guardado, como eu já esperava. Mas o detalhe daquela grande superfície de inox sem um pingo de água me chama a atenção. Quem consegue isso, meu Deus? Uma pia imaculada, como a Virgem Maria? Começo a salivar, estou com inveja.

Minha cozinha nunca ficou assim. Juro que já tentei, nestes últimos cinco, seis anos, quando passei a lavar a própria louça e a da família. Mas, ao contrário da pia que eu estou vendo, a minha sempre tem uma colherzinha suja de café, um copo com bordas manchadas de suco, um prato com lascas de pão. Por trás da torneira, por mais que eu seque, o granito se afoga nos respingos.

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E vamos à história da briga com minha pia. Ela me escraviza. Posso passar horas diante dela, até ficar com dor nas costas, e não consigo deixar de servi-la. Máquina de lavar louça ajuda, mas não resolve. A pia foi, é e continuará sendo motivo de brigas com filhos e gatilho para combinados novos.

"A partir de segunda-feira, sujou, lavou", dizem eles. "E as panelas? O escorredor de macarrão? A jarra de suco?",  pergunto. "Ah, então a gente deixa juntar até acabar a louça do armário", tentam. "E quem aguenta viver assim?",  pergunto de novo. Meus filhos acham que sou neurótica com esse negócio de arrumação. Eu acho que eles folgam porque têm uma mãe neurótica.

Quando você olha para o abismo, ele olha para você de volta. Eu e a pia. Olho para ela, o abismo me chama. Como já passei muito tempo diante da cuba, da torneira e do detergente, refleti bastante, tenho certa intimidade com o tema. (Preciso reconhecer que isso eu faço e acho bom enquanto lavo louça: penso.)

"O que eu realmente quero, qual o meu sonho em relação à pia?", me pergunto, brincando de terapeuta imaginária comigo mesma. "Quero uma pia limpa", me respondo. "Sempre limpa. E, se não for desejar demais, seca como a do meu amigo." Mesmo que isso pareça anúncio de absorvente, não reviso a minha vontade. Desejo controlar a pia. Quero que ela congele na situação ideal. Linda. Irretocável. Impossível. Tipo "ninguém entra e ninguém sai". Tipo "'parem as máquinas". Tipo "quem manda aqui sou eu".

Em relação à pia, sou uma fotógrafa, nunca uma cineasta. Desejo arrumar a cena, ajeitar a luz, cuidar da simetria. Consertar a realidade, talvez? Eternizá-la no frame que me agrada. Para ser bem sincera, esta história de congelar cenários também se repete fora da cozinha. Mania de controle vicia, mas é tão frustrante quanto a maldição de Sísifo, o príncipe que passa a eternidade subindo uma pedra que sempre retorna ao lugar de onde foi tirada. Ou, para quem não gosta de mitologia grega, querer controlar é tão frustrante quanto secar gelo. O que é vivo –a pia ensina– é incontrolável. Coisa mais injusta…

Sobre a autora

Brenda Fucuta é jornalista, escritora e consultora de conteúdo. Autora do livro “Hipnotizados: o que os nossos filhos fazem na internet e o que a internet faz com eles”, escreve sobre novas famílias, envelhecimento, identidade de gênero e direitos humanos. Além de entrevistar pessoas incríveis.

Sobre o blog

Reflexões de uma jornalista otimista sobre nossa vida em comum

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