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A pergunta que eu não fiz à minha mãe quando ela se tornou avó

Brenda Fucuta

04/07/2020 04h00

Recebo da minha sobrinha uma foto antiga pelo WhatsApp. Já descolorida, mostra minha mãe e meu filho mais velho. Estão lado a lado, de cócoras, com as mãos sobre as bordas de um cocho d'água, um pneu de trator cortado ao meio. Galinhas ciscam ao fundo. A bunda de um porco enorme, branco e preto, está em primeiro plano, o que deixa a foto meio engraçada. No fundo, a única cor que preservou a vivacidade vem de uma grande árvore.

Onde eles estavam? Quando foi isso? Eu não me lembro.

Até receber o registro dela, aquela cena seria considerada uma impossibilidade. Não havia visitado minha família apenas quando meu filho era bebê de colo? E só voltado a vê-los, no Maranhão, cinco, seis anos depois? A foto, tão insignificante na sua banalidade, estava impondo outra história. Subversiva, surpreendente.  

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É uma situação estranha. Um pedaço do passado que se perdeu na minha memória e que voltou porque alguém o encontrou, no fundo da gaveta, na forma de uma fotografia. Voltou não para me assombrar, mas para me deixar perplexa, como quando se ganha um presente inesperado no meio de um dia comum. Desembrulhei a foto, camada por camada, com o maravilhamento de quem percebe que, dentro do pacote singelo, existe algo de que você vai gostar muito.

Olho atentamente para o rosto do meu filho, um pouco contrariado, parece. O clique deve ter interrompido sua intenção de colocar a mão na água do cocho. Um movimento suspenso, assim como o tempo.

Seu pequeno corpo, só de short, mostra a barriga gordinha das crianças pequenas. Três, quatro anos de idade, calculo. Ao seu lado, uma mulher mais jovem do que eu sou hoje, da qual eu também tinha me esquecido porque minha mãe, a atual, a substituiu completamente. (Quem se lembra da mãe quando ela era jovem? Somos implacáveis na atualização da imagem dos pais, mas absolutamente condescendentes nas nossas. Aos 40, 50 e 60, não nos sentimos duas décadas mais novos?)

Minha mãe veste calças compridas, salmão apagado. O cabelo não tem fios brancos ainda, e ela já é avó. Se fôssemos estranhas, eu diria a ela que parecia muito jovem para ter um neto. E ela responderia que, imagina, até que tinha demorado para vir o primeiro. Eu também perguntaria como ela se sentia sendo avó –pergunta que, aliás, nunca fiz, embora agora me pareça tão obviamente interessante. Perguntei como dar banho no bebê, que chá fazer para a cólica, mas nunca quis saber dos sentimentos dela diante de um neto. Claro, estava muito mais preocupada com meus sentimentos diante de um filho.

Fico curiosa e com vontade de perguntar àquela mulher da foto como estava se sentindo perto de um neto que via tão poucas vezes, que morava tão longe. Estava com medo de que ele não gostasse de seu quintal? Ou tinha certeza de que, sendo criança da cidade, ele tinha se encantado? Eu queria conhecer aquela mulher, queria conversar com ela.

Da primeira visita que fiz a minha família, um ano após ser mãe pela primeira vez, eu me lembro muito bem. Eles tinham acabado de mudar radicalmente de vida, deixando suas antigas e citadinas profissões para estrear na lavoura, em uma cidade que fica a mais de 3.000 quilômetros de distância da minha. Fazenda sem luz, sem água encanada, casa com telhado de sapé e chão batido. Da rodovia mais próxima até a sede, duas horas de viagem em estrada de terra e de areia. Quando furava o pneu, duas horas e meia. Quando furavam dois pneus, seis horas no mínimo, considerando que tínhamos que andar até um vilarejo para encontrar o borracheiro.

Naquela ocasião, eu precisava desesperadamente de férias com meu marido, depois de um ano cuidando do bebê. Sem dormir direito, sem sair para dançar ou ir a uma festa. E como tinha festa nos anos 80 em São Paulo! Na minha fantasia, poderia deixar meu filho com a avó enquanto fugíamos para a praia mais próxima. Foi uma decepção que nunca superei, o fato de minha mãe não ter aceitado nossa proposta. Meses depois, já enxergando a situação de forma mais racional, entendi que ela tomou a decisão correta. Seria um risco muito grande manter o bebê –o bebê da filha– em um local tão precário, distante da cidade e de cuidados médicos.

Entendi, mas não superei.

E percebi isso ao olhar para essa foto como se ela viesse de um universo paralelo. Suponho que a mágoa com minha mãe eclipsou da minha memória o fato de eu ter, sim, visitado a família pouco depois daquela vez em que me foi negada a oportunidade de desfrutar de uma segunda lua de mel, já que a primeira, por falta de opção, foi passada em um motel barato.

Coisas estranhas acontecem quando nossas emoções batem à porta do hipocampo, o centro da memória no cérebro. Coisas estranhas acontecem quando o passado permite ser reescrito. É uma história pequena, boba. A história de uma foto com porcos, galinhas, uma árvore, uma mulher e uma criança. Minha criança. Minha mãe redescoberta. E, enfim, perdoada.

Sobre a autora

Brenda Fucuta é jornalista, escritora e consultora de conteúdo. Autora do livro “Hipnotizados: o que os nossos filhos fazem na internet e o que a internet faz com eles”, escreve sobre novas famílias, envelhecimento, identidade de gênero e direitos humanos. Além de entrevistar pessoas incríveis.

Sobre o blog

Reflexões de uma jornalista otimista sobre nossa vida em comum

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