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Carta para mães e pais que não assumem seus filhos LGBTs

Brenda Fucuta

20/06/2020 04h00

Foto: Margaux Bellott/Unsplash

Junho é mês de celebrar o orgulho LGBT+. Enquanto alguns pais e mães estão levantando a bandeira por um mundo mais acolhedor, existem outros que continuam fugindo da luta. Para estes últimos, escrevi o texto abaixo, minha maneira de dizer: junte-se a nós. Orgulho é um sentimento muito mais digno do que a vergonha.

Cara mãe,

Seu filho está na minha casa. Ele é gay. Eu sei disso e tenho quase certeza de que você sabe também. Ele me conta que está namorando. Uma menina.

Imagino que você esteja aliviada com esse namoro. Agora, vai poder dizer para irmãos e cunhados que seu filho é um garotão, menino normal. Que aquele jeito diferente, que deixava todo mundo meio inquieto, era apenas uma fase. Ele é só um pouco mais sensível do que os outros, e daí? Você mal pode esperar para levá-lo, junto da nova namorada, ao próximo encontro da família.

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Quando seu filho disse que estava gostando de uma colega, aquela aflição que você sentia desde que ele tinha 2, 3 anos de idade diminuiu bastante, não é? Uma coceirinha, um alfinete que espetava fininho toda vez que ele lhe lembrava uma menina. Ou dizia coisas de menina. Ou só tinha amigas meninas. Ou se escondia no quarto para brincar com uma boneca velha que a priminha tinha esquecido na sua casa.

Você nunca disse coisas horríveis que outras mães costumam falar. "Isso não é coisa de homem!", por exemplo. Nunca impediu seu filho de nada. Mas também não incentivou porque, no fundo, achava que aquilo ia passar. Achava, não. Torcia. Rezava.

Com o tempo, seu filho foi aprendendo o que ele podia fazer ou evitar fazer quando você estava por perto. E, para o bem de todos, se levantou um acordo silencioso de convivência. Seja discreto, era sua fala no acordo. Aquela risada que você dá… melhor, não.

Agora, eu pergunto: quanto você acha que custa para o seu filho namorar uma menina? É fácil calcular. Imagine você dando um beijo ou fazendo sexo com alguém que não lhe desperta o menor desejo. Pelo contrário, dá até uma certa repulsa. Imagine você passando a vida inteira sendo algo que não é, tendo que fingir gostar do que não gosta, sendo impedido de ficar com alguém que ama?

Não estou querendo acabar com sua alegria. Seu filho pode continuar saindo com meninas e até decidir morar com uma. Mas, caso isso aconteça, tenho certeza de que a coceirinha vai continuar te perturbando. Por outro lado, caso seu querido filho consiga se libertar, consiga se olhar no espelho e se enxergar, caso decida que vai procurar um amor –porque a vida é dele e é só uma–, caso ele se case com outro homem e caso você esteja ao lado dele quando isso acontecer, eu garanto: não haverá coceira e nem alfinete. Apenas uma sensação de liberdade. E dignidade. Você sabe que fez a coisa certa.

Caros pais,

Seu filho é uma garota-garoto. Cabelos curtíssimos, óculos grandes, camiseta larga e calça jeans larga também. Quando nos apresentamos –ele iria passar a tarde em casa fazendo um trabalho de escola com meu filho–, soube que ele se chamava Antonio. Um nome bonito, pensei.

No fim da tarde, antes de ligar para vocês para combinar a volta dele, Antonio me avisou, alarmado: "Alice, para meus pais eu sou Alice".

Pergunto a ele se vocês, os pais, não desconfiam da sua identidade verdadeira. Antonio me diz que isso nem passa pelas suas cabeças. Seu filho tem apenas 15 anos e já conhece o peso de um segredo. Já aprendeu, bem cedo, que vai precisar carregar esse peso sozinho, porque, aparentemente, vocês não são capazes de ajudá-lo com isso.

Fico com muita vontade de sacudi-los. Como assim? Como vocês não percebem que têm um filho? Como preferem deixá-lo enfrentar sozinho as dores do mundo –que não são poucas para transexuais? Do que vocês têm tanto medo? Por que não assumem o papel que, nós, pais, prometemos cumprir quando nascem os filhos? Que nós os amaremos e os aceitaremos como eles são, que tentaremos colaborar para que o mundo em que vivam seja um lugar seguro, que não vamos sacrificar os desejos deles para que os nossos prevaleçam?

Mas sei que não posso fazer isso. Não vou dizer a vocês que acho muito triste que Antonio só possa ser ele mesmo fora de casa. Na própria, ele precisa viver fantasiado de Alice.

O que eu sei sobre a vida de vocês? Vou apenas escrever este texto e torcer para que, um dia, quem sabe, algo nele faça sentido para pais e mães de Antonios.

Sobre a autora

Brenda Fucuta é jornalista, escritora e consultora de conteúdo. Autora do livro “Hipnotizados: o que os nossos filhos fazem na internet e o que a internet faz com eles”, escreve sobre novas famílias, envelhecimento, identidade de gênero e direitos humanos. Além de entrevistar pessoas incríveis.

Sobre o blog

Reflexões de uma jornalista otimista sobre nossa vida em comum

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