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"Meghan e Harry se precipitaram", diz estudiosa de famílias reais

Brenda Fucuta

18/01/2020 04h00

Meghan Markle e o marido, Harry (Getty Images)

A professora Astrid Beatriz Bodstein tem acompanhado com muito interesse a cobertura da imprensa sobre o polêmico Megxit: o abandono da Coroa britânica pela atriz Meghan Markle e pelo seu marido, o príncipe Harry. Estudiosa das famílias reais, a professora formada em história e jornalismo pela Universidade Federal de Mato Grosso –ela mora em Cuiabá– avalia que o casal rebelde se precipitou ao anunciar a decisão de se mudar para o Canadá.

"Não existe exatamente um protocolo a seguir em casos assim, mas a rainha e sua equipe deveriam ter tido tempo de avaliar a situação e propor soluções ao casal", diz Astrid. "E essa precipitação pode causar danos à imagem da família real."

Além de dar aulas no ensino profissionalizante, na área de gestão de pessoas, fazer palestras e escrever artigos sobre famílias reais e questões de gênero, Astrid administra perfis dedicados aos assuntos monárquicos nas redes sociais.

O mais famoso deles, no Instagram, tem 37,5 mil seguidores – @royaltyandprotocol. Entre eles, segundo Astrid, o príncipe Dimitri da Iugoslávia e a princesa Sekhothali Seeiso, de Lesoto. A menor página, no Facebook, tem menos de 70 seguidores e se chama Monarquistas LGBTTs Brasil. Sim, Astrid Beatriz, além de ser monarquista –ou apesar de– presidiu o Grupo Brasileiro de Transexuais, de 1995 a 2002.

Qual sua posição em relação ao casal Harry e Meghan? Eles agiram de acordo com o protocolo?

Impossível dizer. Não existe exatamente um protocolo a seguir em casos assim. O único precedente recente foi aberto pelo tio-bisavô de Harry, o rei Eduardo 8º, que renunciou ao trono em 1936 e se casou com a americana Wallis Simpson. Mas o rei renunciou a tudo, o que não se sabe ainda se será o caminho a seguir por Harry e Meghan. Até agora, está indefinido se o casal vai abrir mão dos direitos, e não só dos deveres, que eles têm como membros da família real.

Quais são esses direitos a que eles renunciaram e por que isso tem importância? 

São principalmente três: a renúncia aos títulos e tratamento como altezas reais, a renúncia às propriedades da Coroa e a renúncia à participação da lista civil. O último direito, o da lista civil, significa que eles recebem dinheiro do Estado para cumprir os compromissos da Coroa. Em termos de opinião pública, a renúncia à lista civil é muito importante. A imagem da Coroa fica comprometida se o contribuinte precisar pagar uma espécie de salário a funcionários que não estarão trabalhando.

Na sua visão, que tipo de atitude protocolar seria mais sensata neste caso?

Me parece que o que gerou desconforto foi o fato de o anúncio da decisão do casal ter sido feito antes que a própria decisão pudesse ser amadurecida entre seus familiares, incluindo a rainha. Comparando de novo com o seu antecessor, o Duque de Windsor (rei Eduardo 8º): ele primeiro renunciou a todos os direitos. Só depois, foi agraciado pelo irmão, que subiu ao trono, com o título de duque. Mas mantendo a renúncia à lista civil. Naquela época, já havia uma imensa preocupação com a opinião da sociedade. Me parece que não houve tempo para que a família real e sua equipe de conselheiros pudessem discutir todos os pontos da renúncia. Agora, vão precisar fazer isso de forma mais atrapalhada, já com críticas da opinião pública.

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Mas essa decisão não deveria ser exclusivamente do casal? Os costumes da monarquia não deveriam evoluir com a sociedade? 

As monarquias evoluem. Há muito tempo deixaram de ser monarquias pelo direito divino. Hoje elas são parlamentaristas, democráticas. Mas sempre vai existir uma preocupação com a imagem, porque elas personificam as virtudes do Estado, na minha opinião. Como isso vai acontecer se um dos seus membros não quer mais trabalhar e, ainda assim, quer receber, por exemplo? Na Suécia, apenas dois dos sete netos do rei permanecem como altezas reais. São os filhos da princesa herdeira. Os outros, quando crescerem, vão trabalhar na profissão que quiserem, não serão funcionários da Coroa.

 

A professora Astrid Beatriz, estudiosa das famílias reais

Por que somos fascinados pelos casais da realeza britânica? 

Eu acredito que o fascínio tenha a ver com o fato de a simbologia da realeza estar impressa no nosso inconsciente coletivo. As mitologias, as religiões, os eventos, as celebrações: todos trazem símbolos da monarquia. Estamos chegando ao Carnaval, que tem rei, rainha. No dia a dia, as meninas são chamadas de princesas quando são elogiadas. O comércio usa termos como rei e rainha para se destacar dos competidores. Rei e rainha são sinônimos, ainda hoje, de excelência.

Até serem substituídos pelo adjetivo gourmet… Mas a gente não se interessa por qualquer rei ou rainha, não é? Só pelos que envolvem gente bonita e histórias de amor. Os Windsor, Grace Kelly, Diana e agora, Harry e Meghan, atriz de Hollywood.

Sim, é verdade que o ideal de princesa e de rainha envolve a beleza. Também colaboram as histórias românticas dos contos de fada. Mas também tem a ver com uma enorme campanha de autopromoção da realeza britânica, que começou depois dos anos 1940, talvez. Antes da renúncia do rei Eduardo 8º não havia paparazzi seguindo a família real. Depois da renúncia dele, começou a moda de mostrar o cotidiano da realeza na imprensa. Os Windsor abriram a caixa de pandora e o projeto de autopromoção saiu do controle. Diana e, agora, seu filho Harry são a prova disso. Tudo o que eles fizeram ou fazem é mapeado pela mídia. Li, por exemplo, que um comentarista de TV [Danny Baker, da BBC, no Twitter] comparou o filho de Harry e Meghan a um chimpanzé. Imagine a violência disso. Muitos disseram que era bobagem, mas a comparação só é bobagem se você for loiro. Quando se trata de uma criança afrodescendente, isso é intolerável.

Sendo mulher trans, como é a sua participação no movimento monarquista? 

Tenho que reconhecer que grande parte do movimento monarquista hoje é composto por jovens conservadores e reacionários. A maioria não leu nenhum livro sobre o assunto, se guia apenas pelo que pesquisa na internet. Dentro desse movimento, temos uma cisão. A própria família imperial brasileira é composta por dois ramos, o de Petrópolis, liberal, e o de Vassouras, reacionário.

Os príncipes do ramo de Vassouras me abominam. Mas sou respeitada pelo ramo de Petrópolis, incluindo dom Pedro Carlos de Orleans e Bragança, chefe da família imperial brasileira, e pelo príncipe João Henrique, fotógrafo, que é extremamente antenado e apoia os direitos LGBTQs [Pedro Carlos e João Henrique são bisnetos da princesa Isabel]. Minha posição, no movimento, é a de uma pessoa LGBTQ que acredita na monarquia. Ser trans, mulher e monarquista, na minha visão, é absolutamente possível. As monarquias europeias atualmente estão em perfeita consonância com os direitos das pessoas LGBTQs. O primeiro-ministro de Luxemburgo é gay e costuma ser convidado pela família real junto com seu marido a eventos. Dinamarca e Holanda foram dois dos primeiros países a aprovar o casamento entre gays. E eles são monarquias.

Mas você me contou que ser monarquista a fez se afastar da militância LGBTQ. 

Sim porque tanto a esquerda quanto a direita reacionária me jogam pedra. No espectro político, sou de centro-direita. A militância LGBTQ é quase exclusivamente formada por ativistas que confundem a luta por direitos com a posição partidária-ideológica. Isso fez com que eu me afastasse. Além disso, a própria existência de uma pessoa trans já é uma forma de militância em uma sociedade tão hostil.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Brenda Fucuta é jornalista, escritora e consultora de conteúdo. Autora do livro “Hipnotizados: o que os nossos filhos fazem na internet e o que a internet faz com eles”, escreve sobre novas famílias, envelhecimento, identidade de gênero e direitos humanos. Além de entrevistar pessoas incríveis.

Sobre o blog

Reflexões de uma jornalista otimista sobre nossa vida em comum

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