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O que dirigir um Fusca na Dutra me ensinou sobre a vida

Brenda Fucuta

04/01/2020 04h00

Foto: Bruna Soares/Unsplash

Eu tenho um Fusca. Uns 15 anos mais novo do que eu, mas, para carros, a idade humana não deve servir de referência. Multiplicamos por quanto? Por dois? Então, meu Fusca tem uns 80 anos de idade. E, para 80, ele está ótimo.

Gosto de usá-lo na roça, onde ele é "tipo" 4×4. Colocá-lo nas rodovias é raro. Mas, como eu avisei no título do texto, também é bastante instrutivo. O Fusca me obriga a andar mais devagar e essa alteração no ritmo muda tudo. Então, a partir da perspectiva de velocidade, vou contar minha aventura na rodovia Presidente Dutra, em um domingo à tarde, voltando para casa.

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A Dutra liga duas enormes cidades brasileiras –Rio e São Paulo.  Nela, a velocidade máxima permitida é de 110 km/h para carros pequenos. Quando dirijo meu carro de cidade –um adolescente–, não fico abaixo disso. No Fusca, vou a 90. Me mantenho na faixa da direita, educadamente, onde acho que não atrapalho nem sou atrapalhada.

Esse é meu primeiro erro. Na faixa da direita, ficam os ônibus e os caminhões. E se tem algo de que eles não gostam é de Fusca. Pressionam, empurram, ofuscam. Me sinto um aluno franzino correndo de uma porção de valentões. Não é brincadeira, é assustador. Com um gigante às minhas costas, eu penso na possibilidade de que o Fusca sofra um infarto e morra de repente, sem dar tempo para que o caminhão pare. Morte súbita para nós dois. Horripilante.

E aí, percebo que cometi o erro número dois. Fantasiei uma viagem charmosa, com cabelos esvoaçantes, janelas abertas, já que Fusca não tem ar-condicionado. Nessa ingênua ilusão, esperava que outros motoristas, vendo o esforço daquele velhinho valente (o carro), começassem a buzinar de um jeito simpático, solidário, querendo dizer: força, estamos com você!

Mais uma história em que o romantismo não triunfa sobre a realidade.

Meu carro tem rádio (e até bluetooth), mas nada ouço por causa do barulho do motor. Não tendo como me distrair com notícias ou podcast, me resta pensar durante a viagem. Reflexão inicial: acredito que a implicância dos grandões não tenha a ver com o modelo em si, mas pode ter a ver com o tamanho. Sabemos que carros grandes tendem a circular com mais facilidade, entrando no meio das filas, ganhando a prioridade nos cruzamentos. É a lei dos mais fortes.

Reflexão posterior e inevitável: grandes chances de também ter a ver com a idade. Tenho certeza de que um Fiat 147 provavelmente sofreria o mesmo tipo de bullying. Será que é disso que se trata? Uma metáfora automotiva para a vida competitiva e corrida dos humanos?

Me lembrei da minha própria impaciência diante de idosos que, na calçada, na fila do restaurante, no corredor do shopping, andam devagar. Ou em um ritmo diferente do meu. Na verdade, muitas vezes, só de perceber que havia um idoso na minha frente, eu já passava para a outra "pista". Ele nem precisava andar devagar. Só precisava parecer que andaria devagar.

Na Dutra, eu e meu Fusca não atrapalhávamos o trânsito, mas parecíamos atrapalhar. Estávamos a uma velocidade perfeitamente funcional, mas parecíamos andar devagar. Tínhamos o direito de ocupar a estrada, mas parecíamos errados. Tenho certeza de que, no fundo, os motoristas pensavam: "Por que não ficam em casa?"

Velhos, carros ou humanos, são um estorvo para quem vive com pressa. Às vezes, porque velhos se desequilibram, porque dão passinhos curtos, porque param no meio da calçada para tomar um fôlego. Outras vezes porque, mesmo sem fazer isso, sua simples presença deve nos lembrar de algo incômodo. Vai chegar uma hora em que todos nós teremos de reduzir a velocidade. Nessa hora, tenho certeza que de vamos valorizar o que mais estamos desperdiçando: o lento passar do tempo.

Sobre a autora

Brenda Fucuta é jornalista, escritora e consultora de conteúdo. Autora do livro “Hipnotizados: o que os nossos filhos fazem na internet e o que a internet faz com eles”, escreve sobre novas famílias, envelhecimento, identidade de gênero e direitos humanos. Além de entrevistar pessoas incríveis.

Sobre o blog

Reflexões de uma jornalista otimista sobre nossa vida em comum

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