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Queremos ser uma sociedade que esconde pessoas com deficiência?

Brenda Fucuta

07/12/2019 04h00

Foto: Audi Nissen/Unsplash

Faz duas décadas que a classe média e a classe média alta das empresas brasileiras vêm suando, rebolando mesmo, para cumprir a Lei de Cotas para pessoas com deficiência, PCDs. Por que essa dificuldade para cumprir a lei? Por vários motivos. Na empresa onde trabalhei por muitos anos, por exemplo, existia um esforço do RH em cumprir a meta –2 a 5% de funcionários tinham que ser PCDs– e uma resistência, mesmo que inconsciente, dos não PCDs. A cada nova vaga, começava o cabo de guerra. Estava escrito na testa dos gerentes: "Minha equipe está enxuta, preciso de um profissional competente, não posso contratar alguém só porque é cego, mudo ou cadeirante".

Os gerentes precisavam entregar o resultado esperado, fruto de uma equação em que custos diminuem e receitas aumentam. Para falar português direto, pessoas que são diferentes comprometem a produtividade até que estejam incorporadas ao modelo de trabalho. Em geral com pouca qualificação, os candidatos PCDs costumavam ser empurrados para funções pouco importantes porque ninguém tinha tempo para treiná-los, porque eles não tinham experiência e porque muitos nem sequer dominavam a etiqueta de trabalho nas empresas. Foram duas décadas desafiadoras, em que precisamos refazer e questionar nossa ética e nossa estética.

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Existem quase 15 milhões de brasileiros que apresentam alguma limitação na audição, visão, no andar ou no movimento de partes do corpo. Até a Lei, de 1991, essas pessoas não costumavam frequentar empresas. Ficavam em casa, escondidas, sem autonomia financeira, obrigando que outra pessoa da família, sua cuidadora, também deixasse de ganhar dinheiro. Um estudo do DataSenado, divulgado na semana passada pela Agência Senado, revelou  que 41% dos brasileiros conhecem alguém que depende da ajuda de um parente ou cuidador para comer, tomar banho ou trocar de roupa.

Apesar da resistência que citei acima, a paisagem na empresa onde trabalhei começou a se modificar ao longo dos anos. Aos poucos, mas consistentemente, chegavam corpos, personalidades e condições diferentes ao restaurante, à catraca, à cadeira ao lado. E, assim, por causa de uma lei, muletas, cadeiras de roda e próteses passaram a integrar as cenas cotidianas da empresa. De início, eu via o incômodo no olhar das pessoas: entendo, ficamos perturbados com a falta de simetria. Depois, essas novas formas se somaram à paisagem com certa naturalidade. Fomos perdendo o constrangimento, fomos aprendendo a conviver. Aquele era o mundo verdadeiro: assimétrico, imperfeito, surpreendente.

Todo mundo que convive com uma pessoa diferente, uma pessoa com alguma limitação ou assimetria, sabe que a grande fonte de sofrimento vem do olhar do outro, daquele que não reconhece beleza nem capacidade no diferente. Tenho certeza de que, em muitos casos, é essa a razão para escondermos as pessoas com deficiência. Ou para que elas próprias se escondam, como nos contos de fada, quando se sucumbe à rejeição e se adota a vida reclusa.

Espero muito que isso não soe piegas nem paternal. Piegas, acredito, foi a fala do presidente da República que, em junho de 2019, disse em um evento de paralímpicos: "Servir a pessoas especiais como vocês não tem preço". Vou desconsiderar a falta de criatividade do presidente e apelar para a sua coerência. Desde que assumiu seu novo emprego, Jair Bolsonaro afirma defender os direitos dos PCDs –a primeira-dama, Michelle Bolsonaro, inclusive, luta pela "comunidade de surdos".

Pois bem, no comecinho da semana, como vocês sabem, esse mesmo presidente enviou ao Congresso um projeto de lei para acabar com as cotas de PCDs. O projeto será analisado por comissões da Câmara e depois votado por deputados e senadores. Ele substitui a obrigação de contratar PCDs por contribuições das empresas que seriam aplicadas na reabilitação e qualificação dessas pessoas. Desnecessário dizer que o longo trajeto de inclusão corre o risco de ser interrompido. Quem ganha com isso? Empresas? O mercado de trabalho? Que conta burra é essa em que alguns trocados valem mais do que viver com dignidade?

Chega uma hora em que precisamos decidir que tipo que sociedade queremos ser. Na semana passada, por ironia a Semana Nacional da Pessoa com Deficiência, flertamos com a possibilidade de esconder nossos irmãos, filhos e sobrinhos no quartinho, no armário. Estivemos muito perto de trocar um projeto de evolução de sociedade por um projeto de ganhos financeiros duvidosos. De fato, isso não tem preço.

Sobre a autora

Brenda Fucuta é jornalista, escritora e consultora de conteúdo. Autora do livro “Hipnotizados: o que os nossos filhos fazem na internet e o que a internet faz com eles”, escreve sobre novas famílias, envelhecimento, identidade de gênero e direitos humanos. Além de entrevistar pessoas incríveis.

Sobre o blog

Reflexões de uma jornalista otimista sobre nossa vida em comum

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