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Perguntar se a filha gosta mais do pai ou da mãe já era. Graças às deusas

Brenda Fucuta

30/11/2019 04h00

Sai de Silva/Unsplash

"De quem você gosta mais, da mamãe ou do papai?" Se você tiver mais de 40 anos de idade, deve se lembrar dessa brincadeira de pais com seus filhos, uma técnica de tortura à qual sobrevivemos bem. Assim espero.

Existe uma nova versão para essa pergunta Em vez de agoniar o filho com uma escolha de Sofia, os pais introduzem um novo elemento na brincadreira: a autoestima. Já explico. Estou em um restaurante, sexta-feira à noite, com várias pessoas à mesa, entre elas um casal jovem, de 30 e poucos anos, e sua filha de 5, a quem chamarei de Catarina. A menina está em sua cadeira, esperando o sanduíche. A mãe, para distraí-la, pergunta:

"De quem você gosta mais, filha?", naquele tom cantado que a gente costuma adotar quando fala com crianças pequenas.

Catarina não respondeu, não estava a fim de brincar, acho que morria de fome.

"De você mesma, Catarina. Você gosta mais de você mesma", respondeu a mãe.

Claro que eu esperava outra resposta, a tradicional. Quando ouvi aquilo, olhei maravilhada para as duas. Estava testemunhando uma imensa mudança de comportamento. Comentei  com a mãe, Isabela, que era a primeira vez que ouvia a brincadeira terminar daquele jeito.

"É para ela aprender a gostar de si mesma, a se valorizar."

"Ah, entendi."

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Várias outras coisas foram modificadas por Isabela e pelo marido –representando vários pais da geração Y, cujos integrantes nasceram nos anos 1980. Por exemplo: eles não falam graças a Deus. Dizem graças às deusas. Assim, a filha não cresce imaginando que a divindade é um homem de barba. Sim, porque Deus pode ser mulher, não é? Aliás, Deus não deve ter nem gênero, assim como os anjos.

Que mais?

"Deixamos ela lavar seu corpo sozinha, desde pequena."

"Dá certo? Ela se limpa direito?"

"Às vezes, dou uma checada. Pergunto se ela está com cheirinho de queijo e ajudo."

Com isso, os pais de Catarina querem que ela entenda que nenhum adulto, conhecido ou não, está autorizado a tocar seu corpo.

Não é a primeira vez que olho com admiração para a maneira com que esses jovens pais cuidam dos seus filhos. Às vezes, acho meio exagerado –afinal, sou da geração que criou os filhos de forma muito mais solta, acreditando que o amor salvava.

Mas, no geral, os novos pais e mães estão certos. Açúcar e refrigerante, que eles tiraram da dieta das crianças, não fazem bem mesmo. Reforço da autoestima para as meninas é importante, quanto mais cedo melhor, elas vão precisar disso no futuro. E, finalmente, ensinar que determinadas partes do corpo não deve ser tocadas por adultos é uma aula de educação sexual. O tipo de educação que a ensinará a dizer não. E a protegerá de abusos.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Brenda Fucuta é jornalista, escritora e consultora de conteúdo. Autora do livro “Hipnotizados: o que os nossos filhos fazem na internet e o que a internet faz com eles”, escreve sobre novas famílias, envelhecimento, identidade de gênero e direitos humanos. Além de entrevistar pessoas incríveis.

Sobre o blog

Reflexões de uma jornalista otimista sobre nossa vida em comum

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