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Mãe pode chorar diante dos filhos. E do chefe também

Brenda Fucuta

06/10/2019 04h00

 

Neosiam/Pexels

Um dia desses, como se não tivesse mais nada para fazer, comecei a chorar. Meu filho ficou preocupado, mas… Depois de ter começado, foi como se o freio tivesse deixado de funcionar. Naquele momento, eu tinha duas opções: engolir o choro, dar aquele sorriso fingido de mãe (não foi nada, me emocionei com a música) ou continuar chorando.

Continuei chorando.

Eu queria chorar. Dane-se a culpa, dane-se a preocupação.

Eu queria chorar.

Chorar de raiva, de saudade, de uma tristeza indefinida. Chorar de cansaço?

Meu corpo pedia soluços. Queria chacoalhar o peito. Lavar a alma, como se dizia tão lindamente.

Quando eu era pequena, caía e chorava, minha mãe dizia baixinho: vai passar, vai passar. Era um mantra, produzia milagres. Alguém em que eu confiava –quem mais do que a mãe?– me assegurava que, em algum momento, eu não sentiria mais dor. Fiz o mesmo com meus filhos e funcionou muito bem enquanto eles foram crianças.

Mas por que um adulto chora? Choro, entre adultos, só pode no luto, no divórcio, no divã ou no banheiro. Lembro o meu desconforto quando uma jornalista que gostava de chorar ia até minha sala, na redação. Talvez ela fosse menos reprimida do que a maioria, talvez ela fosse uma péssima manipuladora. Mas, na minha cabeça treinada pelo mundo corporativo, eu só enxergava duas coisas acontecendo: ela estava chorando na frente da chefe; ela estava chorando para pedir aumento. Dois erros graves. Eu ficava mais constrangida pelos escorregões protocolares do que pelo choro, para falar a verdade.

Anos depois, fui eu quem chorou na frente do chefe. (Haha, não foi para pedir aumento.) Claro que você sabe que homens se sentem totalmente perdidos quando mulheres choram. Esse chefe, especialmente, estava acostumado a lidar com uma equipe durona de mulheres, do tipo que nunca, jamais, baixava a guarda. Então, imagine o desespero dele quando as minhas lágrimas começaram a cair, no começo devagarzinho, depois tomaram gosto e se transformaram em chuveirada. Ele ficou apavorado ao testemunhar meu descontrole, minha fraqueza, minha vulnerabilidade. Depois de algum tempo, eu achei que devia alguma explicação. Alguma coisa que não tivesse a ver com emoção ou fragilidade, algo asséptico, que era determinado por um fenômeno da natureza: a tal da menopausa. Vi o alívio no rosto dele.

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Imagino que o choro seja uma resposta do corpo a uma emoção forte. De sofrimento ou de alegria. Uma tentativa de jogar para fora, de declarar –sim, tem algo acontecendo comigo agora–, de consertar, reparar. Como o sono, o choro pode ser reparador.

O problema com o choro é que ele provoca uma reação no outro também. Parece que estamos programados para nos contaminarmos com as emoções de quem consideramos parecidos –outros da mesma espécie, em geral– ou de quem gostamos –pets, por exemplo. Nós acudimos as crianças que choram, sofremos com o sofrimento do outro.

Será por isso que temos vergonha de chorar? Não queremos chamar a atenção do outro, não queremos dar trabalho? Ou queremos reservar essas emoções apenas para o privado?

Uma das boas coisas que ganhei ao sair de uma empresa foi o direito ao choro. Fora do trabalho, sou manteiga derretida, choro no fim de filme, de seriado e de livro. Não preciso mais me segurar se algo me emociona ou me entristece demais, como fiz tantos anos ao lado de colegas e diante de chefes. Agora, ando chorando até diante dos filhos, já que eles cresceram e podem ver a mãe desmontar um pouquinho. Ficar vulnerável.

Foi o que aconteceu naquele dia lá do começo desse texto. Depois de chorar, em cima da pia, sosseguei, o peito aliviado, uma certa serenidade e, com a idade que tenho, a certeza de que no dia seguinte estaria tudo certo –ou certo o suficiente para seguir em frente.

 

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Brenda Fucuta é jornalista, escritora e consultora de conteúdo. Autora do livro “Hipnotizados: o que os nossos filhos fazem na internet e o que a internet faz com eles”, escreve sobre novas famílias, envelhecimento, identidade de gênero e direitos humanos. Além de entrevistar pessoas incríveis.

Sobre o blog

Reflexões de uma jornalista otimista sobre nossa vida em comum

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