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Dia do Idoso: é para comemorar ou protestar?

Brenda Fucuta

29/09/2019 04h00

Foto de Alex Harvey/Unsplash

No dia 1º de outubro, comemoramos o Dia Internacional do Idoso. É o caso de nos perguntarmos: temos motivos para comemorar? Sim, temos. A expectativa de vida, informa o IBGE, continua aumentando: mulheres que nasceram em 2015 vão viver quase 80 anos, e homens, 72 e uns quebrados. A cada ano, aumentamos o tempo que passamos vivos.

Em 1900, a expectativa de vida era de 34 anos. Diante desse tipo de dado, claro que temos que comemorar. Quem quer viver apenas até os 34 anos no século 21, quando muitos nem saíram da casa dos pais ainda? "Esse crescimento representa uma importante conquista social e resulta da melhoria das condições de vida", diz página do Ministério da Saúde dedicada ao idoso.

Outro bom motivo para comemorar: baseada em pesquisas mundo afora, a antropóloga Mirian Goldenberg estabelece que a felicidade volta a brilhar a partir dos 60 anos de idade, depois de um declínio entre os 40 e 50. Mirian, que pesquisa idosos desde 2015, foi vista mais de 1 milhão de vezes no vídeo-palestra do TEDx São Paulo A invenção de Uma Bela Velhice e recentemente lançou o livro "Liberdade, felicidade & foda-se" (Ed. Planeta).

Mas, antes que a gente saia presenteando velhinhos com bombons e sorrisos, postando declarações de amor a mãe, tia e avô, vamos refletir um pouco mais sobre esse dia? Existe um lado –entre tantos outros– que merece nossa atenção no futuro da velhice dos brasileiros, que é a saúde. Por exemplo, a dependência do SUS (Sistema Único de Saúde). É um alívio saber que o país fornece atendimento gratuito aos velhos –garantido no Estatuto do Idoso, inclusive–, o que provavelmente diminui a desigualdade da qualidade de vida entre ricos e pobres.

Por outro lado, é preocupante pensar que um sistema já sobrecarregado possa suportar a explosão demográfica de velhinhos. Hoje, mais de 75% deles dependem do SUS para tratar suas doenças crônicas: hipertensão, dores na coluna, artrite, depressão e diabetes[1]. Quase metade retira seus remédios na farmácia do SUS, segundo estudo feito entre 2008 e 2009 pelo pesquisador André Baldoni, da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto – USP, com dados de mais de 1.000 idosos usuários do SUS.

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Daqui a dez anos, em vez dos 28 milhões de idosos, teremos 40 milhões. Um acréscimo de 12 milhões de pessoas, 9 milhões delas novas dependentes da saúde pública. Isso sem contar com a possibilidade de um novo empobrecimento dos idosos no país, o que aumentaria ainda mais o número de usuários com mais de 60 anos.

O que essa sobrecarga no SUS significaria para a qualidade de vida desses brasileiros? "Diante de tais evidências verifica-se a necessidade de se adotar estratégias para melhoria da farmacoterapia e a assistência prestada à saúde do paciente idoso", dizia o pesquisador André Baldoni ao concluir, entre outras coisas, que mais de 44% dos idosos pesquisados utilizavam remédios inapropriados à idade. Isso foi em 2010, quando o país não tinha nem 20 milhões de idosos.

"Apesar de avanços, como a aprovação do Estatuto do Idoso, a realidade é que os direitos e as necessidades dos idosos ainda não são plenamente atendidos. No que diz respeito à saúde do idoso, o Sistema Único de Saúde ainda não está preparado para amparar adequadamente esta população", diz a Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia em carta aberta à população publicada em 2014. "Os profissionais da saúde têm olhar fragmentado do idoso e não foram capacitados para atendê-lo de maneira integral."

Se alguém souber como cuidaremos da saúde de tanta gente, por favor, me avise. Caso nada estiver sendo feito, talvez seja melhor comemorar o Dia do Idoso na rua, exigindo planejamento e ação.

[1] Esses dados são do Estudo Longitudinal de Saúde dos Idosos Brasileiros (Elsi), do Ministério da Saúde, divulgados no ano passado.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Brenda Fucuta é jornalista, escritora e consultora de conteúdo. Autora do livro “Hipnotizados: o que os nossos filhos fazem na internet e o que a internet faz com eles”, escreve sobre novas famílias, envelhecimento, identidade de gênero e direitos humanos. Além de entrevistar pessoas incríveis.

Sobre o blog

Reflexões de uma jornalista otimista sobre nossa vida em comum

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