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Minha filha me converteu em feminista, diz publicitária

Brenda Fucuta

18/08/2019 04h00

Eli e a filha Fernanda/Arquivo Pessoal

A publicitária paulistana Eli Prado passou a vida sem saber direito o que era feminismo. Quando ela nasceu, nos anos 60, mulheres protestaram contra concursos de beleza jogando sutiãs na lata do lixo. (Elas só jogaram, não queimaram os sutiãs, apesar do que ficou registrado na nossa memória.)

Os protestos contra o machismo aconteceram no mundo todo. Mas, como os movimentos da história não seguem em uma só direção, mulheres também foram às ruas contra a mudança de costumes. No Brasil, isso ficou conhecido como a Marcha da Família com Deus pela Liberdade, talvez o marco zero do período de ditadura que viria a seguir. Nos anos 80, parte das mulheres estava dançando as músicas new wave, muito provavelmente como Eli e eu. Outra parte estava pressionando o governo para criar delegacias especializadas em mulher e debatendo os direitos femininos na ONU. E todo mundo assistia ao seriado "Malu Mulher", da TV Globo, em que a atriz Regina Duarte interpretava uma heroína incrível, que se divorciava e "ia à luta" para encontrar sua identidade. Na época, falávamos muito de emancipação feminina, pouco de feminismo.

Conto toda essa história para apresentar Eli Prado porque acredito que ela simboliza a geração que chamamos de X, tida como individualista e perdulária (a geração, não a Eli)*[1]. A geração X emancipou as mulheres, mas as transformou também em yuppies, ratas das corporações, trabalhando até a exaustão e terceirizando os cuidados com seus filhos Y.

E foi exatamente uma representante Y, filha única de Eli, que fechou o ciclo dessa história, convertendo a mãe em feminista. Veja como isso aconteceu.

Universa: Nós somos da mesma geração e ex-colegas de empresa. Fomos muito independentes, do ponto de vista financeiro, e sobrevivemos em um ambiente bastante machista, mas não nos identificávamos com o feminismo. Por quê? 

A gente achava que precisava provar para o mundo que as mulheres eram tão boas quanto os homens, no trabalho principalmente, mas morríamos de medo de perder a feminilidade. Era uma confusão. A ideia era ser guerreira, boa profissional, sensual, magra e boa mãe. Você conhece essa história, a gente mal tinha tempo para pensar ou questionar isso.

Eli Prado: De onde você acha que veio essa antipatia pelo feminismo?

A visão da mulher que parecia querer ser homem… Foi uma visão que eu aprendi, acho. Sou de uma familia de mulheres muito fortes. Mãe, tias, avó, todas cumprindo vários papéis ao mesmo tempo, fazendo várias jornadas para não perder o que elas achavam que as definia – acolher, cuidar do filho. Isso deu uma distorcida na minha visão. Por exemplo, minha vó criou cinco filhos com umbigo no balcão da padaria. O meu modelo de mulher era de uma mulher forte, mas que não queria ser chamada de feminista. Quando eu fui para o mercado de trabalho, no meu convívio profissional, achava que as mulheres que chegavam à direção se comportavam como homens. Então, acho que essa era a preocupação da minha geração: como dar conta de tudo e continuar feminina.

 Você foi mãe solo, bem difícil na época, mas mais comum do que a gente imagina. Como foi para você? 

Eu tinha 29 anos e era muito conservadora, apesar de minha filha nascer sem que eu tivesse me casado. Minha vó, minha mãe e eu estudamos em colégio de freira, aprendemos que nosso papel era casar e cozinhar. Quando eu engravidei, não pude ficar com o homem que eu gostava, o pai dela. Então, eu chorava muito. Como não podia mostrar fraqueza para minha mãe, eu parava na casa de uma amiga, no caminho de volta do trabalho, só para poder chorar. Eu tive a Fernanda com 29 anos. Foi difícil para a minha mãe no começo, mas ela evoluiu muito e, além do amor que tem pela neta, acho que ajudou ela ter visto que eu consegui dar conta. Só casei aos 40 anos, antes disso trabalhei e cuidei da minha filha.

Como você enxerga o feminismo hoje? 

Eu sinto uma mudança enorme no mundo e agradeço por não chegar tão atrasada [risos]. A mudança aconteceu primeiro com a Fernanda. Ela ficou muito mexida quando se descobriu manipulada emocionalmente por um namorado e decidiu que ninguém ia mais fazer isso com ela. Acho que foi um gatilho para o ativismo feminista dela. A partir daí, ela foi me catequizando, me ensinando. Um dia, a Fernanda falou: 'Mãe, você foi mãe solo, cuidou de mim, subiu de classe social, foi uma executiva bem-sucedida. Mãe, você é feminista'.

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Qual foi sua reação? 

De choque. Falei 'de jeito nenhum'! Mas comecei a pensar no assunto e perceber que as mulheres com quem convivi foram feministas, lutaram pelo seu lugar no mundo, batalharam contra o machismo nas empresas, provaram que não dependiam de homens para viver. Aí, eu fui fazer um curso sobre feminismo e comecei a seguir sites e blogs que minha filha ia indicando. Hoje, para mim, dizer que sou feminista é muito natural, embora eu ainda esteja aprendendo e escorregando.

Que tipo de escorregão? 

Um dia, por exemplo, cheguei em casa e falei: 'Encontrei a prima e ela está linda, magérrima'. Minha filha respondeu que ninguém precisa ser magérrima para ser linda. E claro que a Fê tem razão, a gente precisa deixar de falar coisas no automático quando essas coisas são só repetições de preconceitos. Para mim, é um aprendizado maravilhoso. É muito bonito aprender com um filho, recompensador. Tentei ensinar tantos anos e agora estou aprendendo. Virei feminista por causa da minha filha.

O feminismo aproximou vocês? 

No começo, o ativismo dela foi um pouco radical para mim, a gente acabou discutindo muito. Mas, hoje, não. Ela amadureceu, eu passei a ver coisas que não enxergava. Passei a valorizar a solidariedade entre as mulheres, em vez de ficar falando que elas competem entre si, sabe aquele tipo de conversinha? Hoje, para mim, mexeu com uma, mexeu com todas. Também comecei a ver, quando vou visitar empresas clientes ou que podem se tornar clientes, o quanto a direção ainda é masculina. Antes, eu nem pensava nisso e achava normal ouvir chefe falar que eu estava de TPM. Sim, o feminismo mudou meu jeito de ver muita coisa. E me aproximou da minha filha, com certeza.

 

[1] No livro de Neil Howe e William Strauss, "Millennials Rising: The Next Great Generation". Random House

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Brenda Fucuta é jornalista, escritora e consultora de conteúdo. Autora do livro “Hipnotizados: o que os nossos filhos fazem na internet e o que a internet faz com eles”, escreve sobre novas famílias, envelhecimento, identidade de gênero e direitos humanos. Além de entrevistar pessoas incríveis.

Sobre o blog

Reflexões de uma jornalista otimista sobre nossa vida em comum