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"Mãe que fala que filho gay 'é discreto', não o aceita", diz especialista

Brenda Fucuta

2024-02-20T19:05:00

24/02/2019 05h00

Edith Modesto criou o primeiro grupo de pais de homossexuais do Brasil

Além de uma filha, a doutora em semiótica, escritora e psicanalista Edith Modesto tem cinco filhos. Nenhum gosta de futebol, nenhum é do tipo machão. Quatro deles são heterossexuais, um é gay. No projeto de família de Edith, não constava a homossexualidade. "Quando meu filho contou que não gostava de mulher, eu chorei, briguei, lutei contra. Foi uma angústia dilacerante, uma coisa incômoda que não passava." Isso aconteceu nos anos 90, período em que Edith criou o autodeclarado primeiro grupo de pais de homossexuais no Brasil, o GHP: quatro mães trocando experiências e se apoiando, uma navegação às cegas por um mundo desconhecido. Nenhuma delas entendia direito o que acontecia com seus filhos. Hoje, Edith é especialista em identidade de gênero e, em seu consultório no bairro de Pinheiros, São Paulo, atende outros pais que sofrem do mesmo jeito que ela sofreu décadas atrás.

Você entrevistou centenas de familiares de gays e escreveu livros sobre o assunto (Mãe Sempre Sabe? Vidas em Arco-íris.) Quais os dilemas mais comuns entre pais de lésbicas, gays, bissexuais e transexuais, as pessoas LGBT+? Existem muitos dilemas em torno da aceitação. Vejo muitos pais que deslocam seus preconceitos para os outros. Pais que se enganam achando que seu problema com a homossexualidade tem a ver com a rejeição e a discriminação que seus filhos sofrerão pela sociedade. Mães que não deixam o filho sair no fim de semana "para ele não ser espancado". É uma tentativa de racionalizar o que eles sentem, de não lidar com a verdadeira dificuldade de aceitação, que é deles próprios. O ser humano é muito complexo, os sentimentos da gente são escondidos pelo lado racional.

Mas eu também tenho medo de que meu filho seja agredido na rua… Na verdade, hoje todo mundo tem medo. O discurso político atual deixa a gente apavorada porque legitima o preconceito e as agressões.

Na sua visão, o que os pais de pessoas LGBTs podem fazer para combater este cenário hostil? Preconceito, todo mundo tem, é do ser humano. Se alguém bate no seu carro, por exemplo, o que vai vir à cabeça primeiro? Você vai classificar o motorista do outro veículo de acordo com o preconceito que couber no momento, chamando-o de gordo, de negro, de velho, de viado…. Isso porque você estará estressado e sem filtro para o politicamente correto. Então, não acredito que vamos conseguir acabar totalmente com o preconceito. Como mães e pais de LGBTs, o que temos que fazer é lutar arduamente para diminui-lo.

Por que as pessoas se perturbam tanto com a homossexualidade e a transexualidade? Por puro medo do desconhecido. A homossexualidade e a transexualidade ainda são um mistério para quem não convive com elas de perto. As pessoas gostam de acreditar que vivem num mundinho organizado, controlado e conhecido. Neste mundo, as pessoas "escolhem" ser homossexuais, "escolhem" ser safadas. Quando alguém tenta mostrar que ser homossexual– ou heterossexual – não são escolhas, essas pessoas se desestabilizam, acontece uma rachadura na realidade delas. Por outro lado, quando o desconhecido deixa de ser um mistério, as pessoas não se sentem mais ameaçadas.

Isso aconteceu com você, não foi? Sim, aconteceu. Naquela época, anos 90, mesmo sendo professora universitária, tendo acesso a muita informação, a homossexualidade era algo que até podia acontecer na casa dos outros, mas distante de mim. Aceitar que meu filho era gay foi um processo longo e doloroso. Senti medo e muita tristeza, como se ele tivesse uma doença incurável. A aceitação de uma mãe passa por muitas fases.

Que fases? Ah, muitas. Tem a descoberta, a negação, a conformação, a aceitação. A primeira fase, depois da descoberta, é a do luto. A mãe tinha um filho hetero, de repente ganha um filho gay. Simbolicamente, o filho hetero morre e tem que renascer como homo. Na fase da negação, as mães têm esperança de mudar os filhos. Recebi casais, no consultório, que tinham submetido o filho a tratamentos caríssimos, de cura gay. Ou feito despacho em encruzilhada. Quando isso acontece, tanto os pais quanto os filhos ficam destroçados.

E a conformação? A conformação está entre negação e aceitação. Você se conforma quando acha que não tem outro jeito. Vejo muitas mães que se conformam, em geral religiosas, imaginando que a homossexualidade seja um castigo que elas merecem. Isso é tristíssimo porque nessa situação os filhos não têm nem o direito de brigar com as mães, de se defender.

Você havia comentado que a vergonha é o sentimento que mais demora para ir embora. Que vergonha é essa? Vergonha do filho não ser como a gente aprendeu que devia. Vergonha e tristeza por um projeto de filho que saiu diferente. Ninguém se prepara para ter um filho homossexual. Quando seu filho está na barriga, você pensa nele como menino ou menina. Ouço muito o relato de mães que enaltecem os filhos gays. "Ele é muito discreto." "Meu filho gay é meu melhor filho." "Ele é gay, mas é o mais bem-sucedido." Nenhuma dessas mães aceitou seus filhos, ainda estão criando mecanismos para compensar a vergonha que sentem.

Mães mais jovens não estão mais preparadas? O processo de aceitação parece mais curto hoje em dia. Mas a maioria das grávidas ainda pensa em seus filhos como hetero. Se tiver um irmão ou um amigo gay, talvez ela considere uma outra alternativa. Agora, transsexual é mais difícil ainda. Estamos no marco zero da aceitação.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Brenda Fucuta trabalhou em jornais e revistas por 30 anos e se especializou no comportamento de jovens e mulheres. Atualmente, estuda a convivência de gerações e escreve sobre o universo digital dos adolescentes.

Sobre o blog

Reflexões de uma jornalista otimista sobre nossa vida em comum