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Meta de Ano-Novo: esqueça o desapego

Brenda Fucuta

2027-12-20T18:05:00

27/12/2018 05h00

(Foto: Trent Haaland/Unsplash)

Antes da máquina de lavar, da TV de tela plana e dos smartphones da Apple e da Samsung, a moda já tinha inventado a obsolescência programada — a falência precoce de um objeto. Essa é a força motriz da nossa economia, o desejo do consumidor pelo novo modelo mesmo quando sabemos que o antigo ainda funciona bem.

Isso deve explicar por que toda vez que arrumo meus armários, entre o Natal e o Ano-Novo, fico dividida entre duas constatações:

  • não preciso comprar roupa até o fim da minha vida.
  • vou me sentir muito mal se estiver usando uma roupa velha no Réveilon.

A primeira constatação é como um tapa na cara, um balde de água fria. Meu Deus, tenho muita roupa, mais do que preciso, sou uma consumista, uma perdulária.

A segunda constatação é, ao contrário, fruto de um momento de autoindulgência, a recompensa pelo duro que damos, um afago na pessoa que mais gostamos, nós mesmos. E entre o tapa na cara e o afago, quem você acha que ganha? Por essa razão, meus armários continuam superlotados e precisam de uma reorganização a cada 12 meses. A meta do desapego, de 2016, de só comprar uma roupa quando eu doasse a antiga, não está funcionando. É só um jeito bonitinho de continuar rodando a roda do consumo excessivo.

Talvez a gente tenha que inverter a lógica do desapego, que valorizamos tanto hoje. Desapegar é legal e imagino que continue valendo para o aprimoramento espiritual do ser humano. Mas, em termos de consumo, será que não temos que imaginar o contrário? Em vez da ânsia para substituir apressadamente os objetos, as roupas, o sofá, o carro, a geladeira, seria possível recuperar o desejo por manter e preservar algo que conhecemos e de que gostamos? Algo que, mesmo em medida pequena, nos define como indivíduo? Que foi fruto de uma escolha? De uma época?

O escritor Henning Mankell tinha um personagem, um detetive rabugento chamado Kurt Wallander, que se perguntava com tristeza por que os suecos, seus conterrâneos, tinham deixado de cerzir meias. Era uma pergunta retórica porque Mankell sabia a resposta. Os suecos do século 20 — e 21 — preferem jogar fora as meias rasgadas e comprar outras nas magazines globalizadas ou na lojinha de bairro, onde uma meia dúzia delas é vendida por menos que um knäckbröd, o pão escandinavo.

Entendo que Mankell criticava a obsolescência programada, aquela que nos faz consumir loucamente, nos insensibiliza para o desejo — antes de desejarmos muito, já está adquirido –, superlota casas e armários.

Não bastasse tudo isso, a lógica da obsolescência programada está minando o nosso futuro. Ela exaure o planeta. E, até agora, este foi o único condomínio a nos aceitar como inquilinos.

Vamos nos apegar?

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Brenda Fucuta trabalhou em jornais e revistas por 30 anos e se especializou no comportamento de jovens e mulheres. Atualmente, estuda a convivência de gerações e escreve sobre o universo digital dos adolescentes.

Sobre o blog

Reflexões de uma jornalista otimista sobre nossa vida em comum