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Como o amor de mãe venceu Bolsonaro

Brenda Fucuta

02/10/2018 04h00

 

 

Getty Images

A mãe de um amigo gay vai fazer 80 anos no dia 7 de outubro. De presente de aniversário, ela pediu aos outros dois filhos que não votassem no capitão. Estive com Beatriz – nome que vou dar a ela neste texto – várias vezes nos últimos anos. Em janeiro, quando almocei em sua casa, Beatriz, ela própria, simpatizava com Bolsonaro. Argumentava com o filho, exasperado: o candidato parece ser honesto e firme, o tipo de homem que o Brasil precisa.

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Como estratégia para desviá-la do mau caminho, este amigo passou a exibir videos protagonizados pelo capitão. Primeiro, os clássicos insultos às mulheres. Depois, as falas ignorantes sobre gays. Finalmente, os discursos violentos: o país deve ser visto como um campo de guerra; alguns mocinhos devem tombar para que os bandidos sejam vencidos; o cidadão do bem deve matar para se defender.

Beatriz odeia a esquerda, morre de medo de comunistas. Nunca votou no PT e culpa o partido pela crise econômica e pelo desemprego de um dos filhos.

Mas, para vencer seu inimigo, acabou desistindo do deputado. Bolsonaro é muito agressivo, ela concluiu. "Não quero que o Brasil entre em guerra com este homem", disse aos filhos. "Não quero que ele persiga seu irmão", terminou.

Seus outros filhos, no entanto, não foram convencidos pelos vídeos. Eles continuaram vendo no capitão a saída para o fim da violência (ironia), da corrupção e das cotas. O que fez meu amigo perder a paciência. "Se vocês não consideram o que vai ser minha vida com um presidente homofóbico, então não pensam em mim como um irmão."

Beatriz, que vai fazer 80 anos, no dia 7 de outubro, dia das eleições, viu sua pequena família se estraçalhar. Até aqui, ela tinha conseguido manter os filhos juntos, se respeitando apesar das diferenças. Agora, a fantasia da fraternidade tinha se dissipado.

Desencantou-se, deprimiu. Deixou de aguar as plantas, ritual diário, de visitar os netos, de conversar com as amigas. Fui visitá-la neste período – e só fui recebida porque a antitriã era muito educada.

Fiquei muito triste por ela, pelo meu amigo e por todas as famílias e pessoas queridas que se separaram no debate eleitoral deste ano. (Na minha casa, neste tema, estou na zona de conforto. Meus filhos e eu concordamos, pelo menos, em quem rejeitar.)

Na semana passada, meu amigo me ligou para contar que sua mãe havia se levantado da cama, finalmente. Ela tinha encontrado um jeito de reparar o divórcio da família. Da maneira que só mães conseguem operar, convocou-os para uma reunião, em sua casa. Havia um anúncio a ser feito.

Mesmo rompidos, os três atenderam o pedido, claro. Beatriz avisou que não a interrompessem enquanto falasse.

Em 80 anos, nunca tinha pedido um presente de aniversário. Nunca. Nem para seus pais, seu marido e muito menos para seus filhos.

O que ela ia pedir agora era mais do que um pedido. Era uma ordem.

O filho mais novo, meu amigo, deveria voltar a falar com seus irmãos. Os filhos mais velhos não deveriam votar em Bolsonaro. Ela faria questão de acompanhá-los às urnas, para garantir a obediência. Eles que resolvessem a logística no dia das eleições.

Eu ri muito da solução. Para situações extremas, medidas extremas, brinquei com meu amigo.

Mas sei que nada disso foi engraçado. Custou sofrimento, desilusão e uma reação autoritária que não combinava com Beatriz.

Vale a pena conquistar dois votos a menos para Bolsonaro usando o expediente de mãe?, me pergunto.

Para o meu amigo, sim, vale. O medo de ver o capitão transformar o país em um inferno para mulheres, LGBTs, negros e outros grupos minoritários justificaria o desfecho da história.

Mas, no fundo, ele sabe que a democracia não pode flertar com o autoritarismo – nem que seja de mãe, nem que pareça justificado.

Dá trabalho conviver com ideias como as dos irmãos dos meus amigos. Dá trabalho conversar, tentar entendê-los e tentar convencê-los – ou correr o risco de ser convencido por eles.

Optar pela democracia – uma crença na capacidade da sociedade se autogovernar – em vez de regimes totalitários, é optar pelo diálogo. E quem já frequentou uma assembléia de condomínio, uma mesa de bar com torcedores de time rivais ou testemunhou uma briga de casal, sabe que não é fácil conviver com a diversidade. Mas se "a democracia pressupõe a capacidade de cada um pensar com sua própria cabeca, também pressupõe a possibilidade de cada cidadão pensar de modo diferente", ensinou a historiadora Heloísa Starling*.

Pelo jeito, é o único jeito, Beatriz. E para que sua solução realmente funcionasse para decidir estas eleições, todas as mães teriam que fazer aniversário no dia 7 de outubro.

Mas esse dia, nesta história, é só seu.

Parabéns, Beatriz.!

 

 

* Entrevista da professora Heloisa Starling, co-autora do livro Brasil: uma biografia, junto com Lilia Shwarcz, ao podcast Politiquês, do Nexo Jornal.

 

 

Sobre a autora

Brenda Fucuta trabalhou em jornais e revistas por 30 anos e se especializou no comportamento de jovens e mulheres. Atualmente, estuda a convivência de gerações e escreve sobre o universo digital dos adolescentes.

Sobre o blog

Reflexões de uma jornalista otimista sobre nossa vida em comum