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O que sente uma mãe quando seu filho resolve usar saia

Brenda Fucuta

02/06/2018 12h48

O dia em que meu filho vestiu uma saia talvez tenha sido um dos mais felizes de sua vida. Ele não estava apenas satisfeito com o resultado estético; ele estava eufórico, como uma criança que ganha um Playstation 4 no aniversário ou como um adulto premiado com uma promoção que dobra seu salário.

Vestir uma saia foi um desejo reprimido por pelo menos dez anos – desde o dia em que, aos 4 anos de idade, na festinha da escola, ele pegou – e largou – a fantasia de Branca de Neve. Infelizmente, aos 4 anos de idade, uma criança pode ter que abrir mão de uma fantasia. E isso é triste demais. Fantasias são preciosas, especialmente na infância.

Por isso, desconfio que a saia plissada, encontrada no fundo do guarda-roupa da madrinha, tenha chegado para cumprir uma missão muito importante. Ela não só recuperou o lugar da fantasia bloqueada como também anunciou a chegada de uma decisão sem volta. Meu filho começaria a vestir saias.

O problema é que, em vez de comemorar a decisão, passei a ser aterrorizada por ela. Ele iria resistir aos olhares de estranhamento dos parentes? Aguentaria os comentários dos colegas? E o pior de tudo: sobreviveria às agressões que poderiam acontecer na rua?

Até os 14 anos, meu filho viveu protegido. Teve irmãos que o apoiaram. Tias e tios que, embora não entendessem muito suas escolhas, nunca o desrespeitaram. Teve padrinho e madrinha que sempre deram colo. Professores que o estimularam a se autoconhecer e se auto-afirmar. Uma avó que o presenteou com bonecas. Teve amigas que o levaram para conversar no banheiro feminino, com naturalidade. Alguns amigos que continuaram por perto mesmo quando o maior programa da turma passou a girar em torno do futebol – que meu filho nunca gostou.

Mas vestir uma saia seria um capítulo novo. Eu sabia disso, ele também.

Mais ou menos na época em que incorporou a nova peça ao seu guarda-roupa, meu filho começou a tomar ônibus para ir à escola, um passo importante para sua autonomia e maturidade. Por outro lado, ele estaria exposto, mais do que nunca, ao mundo de verdade, aquele onde tragédias, injustiças e abusos acontecem.

Minha primeira orientação – antes mesmo de falar sobre o preço da passagem – foi: “Não use saia na rua. Guarde na bolsa para vesti-la quando chegar à escola. Na volta, a mesma coisa. Tem todo tipo de gente na rua. Gente que não vai te entender e pode até te agredir. Promete que vai me ouvir?”

Ele me ouviu, mas não obedeceu. Meu coração pula toda vez que vou buscá-lo no ponto e o vejo descendo do ônibus com a saia plissada (ele só tem duas, mas a plissada é a preferida). Pego em sua mão e dou um abraço forte. Sei que estou tentando protegê-lo, mesmo sabendo que isso não é mais possível.

Combinamos que ele vai carregar um spray de pimenta. Estratégias para escapar de agressões e agressores passam a frequentar nossos momentos juntos, no jantar. Fazemos isso porque precisamos fazer. Meninas que usam short curto, mulheres que andam sozinhas, gays que andam abraçados costumam sofrer mais violências – verbais e físicas – do que o restante da população. Meninos que usam saia são ainda mais vulneráveis a agressões.

Meu filho é um menino valente. Ele acredita que tem direito de usar o que quiser na rua. Acredita que não deve esconder o que sente ou o que é. Nunca deixo de ficar espantada com o tamanho da sua integridade.

Já eu, me vejo como uma mãe dividida. Apoio sua coragem e sua causa? Escondo suas saias por medo, por zelo pela sua seguranca? Assim como as crianças não deveriam ter fantasias roubadas, mães não deveriam se fazer este tipo de pergunta.

No entanto, ao publicar este texto, fica óbvio que já tomei partido pelo apoio aberto à causa. Sem enfrentarmos as trevas – o preconceito burro e violento – não haverá futuro que valha a pena ser contado. Por isso, vivam as saias! E todos os meninos que quiserem usá-las.

Este artigo foi ilustrado pelo meu filho, que autorizou a publicação desta parte de sua história.

Sobre a autora

Brenda Fucuta trabalhou em jornais e revistas por 30 anos e se especializou no comportamento de jovens e mulheres. Atualmente, estuda a convivência de gerações e escreve sobre o universo digital dos adolescentes.

Sobre o blog

Reflexões de uma jornalista otimista sobre nossa vida em comum

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