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Urso panda no "Tinder", homens que não gostam de sexo

Brenda Fucuta

10/10/2017 08h02

Foto de Elena Ferrer/ Unsplash

As mulheres da Geração X, que nasceram nos anos 60 e 70, chegaram à idade adulta valorizando a sensibilidade em um homem. Caras sensíveis não tinham medo de vestir calças baggy. Não se entediavam com os filmes de Woody Allen. Gostavam de dormir abraçados com suas namoradas e se comportavam como seus melhores amigos – até que não, mas isso é outra história.

Por este motivo, acho engraçado quando minha entrevistada de 48 anos, a quem chamarei de Sônia, me conta que seu último relacionamento terminou por excesso de sensibilidade por parte do namorado. Vamos conversar sobre sua experiência em aplicativos de dating, um tema que tenho pesquisado há dois anos, desde que o Tinder – e seus concorrentes Happn e OkCupido – passaram a frequentar as conversas de amigas. Comecei a colecionar essas histórias porque achei divertido, mas também porque percebi que elas, ao contrário do que eu preconceituosamente imaginava antes, podem ser uma honesta narrativa da busca de amor no mundo contemporâneo. Estima-se que os brasileiros respondam por 10% da população global do Happn e que 7 milhões de matches – as combinações dos pares – aconteçam diariamente no país. Estamos, então, falando de milhões de usuários gerando bilhões de histórias, uma enorme teia de narrativas de encontros e desencontros.

Executiva da área financeira que nunca se casou ou teve filhos, Sônia optou por morar em um flat a fim de se desobrigar de cuidados domésticos. Gosta de ser livre, me diz. Quer viver para trabalhar e ganhar dinheiro, viajar e beber bons vinhos, gastar o que quiser em cosméticos e bolsas de grife. Engenheira, é muito prática.

Na sua vida particular, nunca precisou negociar nada com ninguém. “Sempre tive namorados que compreendiam meu estilo e nunca me pressionaram”, ela conta. No final do ano passado, ao terminar um longo relacionamento com um colega de trabalho, Sônia decidiu investir no Happn, postando uma foto de corpo inteiro, bem afastada.

Foi bastante seletiva. Perto de meia dúzia de vezes passou do Happn para o WhatsApp – a sequência natural das conversas nos aplicativos. Interagir com os “disponíveis” era uma boa brincadeira que animava seus dias. Até que aconteceu o primeiro encontro de verdade, com o dentista que chamarei de Roberto, depois de uma série de mensagens que trocou com ele durante uma sessão de vinho com duas amigas. Roberto se transformou em um forte candidato a um dating quando pediu que Sônia ligasse para ele ao chegar em casa, queria conferir se estaria tudo bem. Ela ficou encantada com a gentileza e passou a falar com ele de manhã, de tarde e de noite.

Quando, enfim, se encontraram no flat dela, pareciam velhos conhecidos. Ficaram juntos naquela noite e continuaram se falando várias vezes ao dia e se vendo nos fins de semana. Depois de dois meses, estavam namorando. Ele era divertido, companheiro, não queria filhos – já tinha dois de um casamento anterior. Suas amigas aprovaram Roberto e sua família também.

Só havia um problema. Depois do segundo encontro, Roberto passou a evitar sexo. Havia beijos, abraços e carinhos e dormir junto. Mas sexo mesmo não acontecia. “Ele fugia do assunto quando eu tentava dizer que namoro sem sexo não fazia meu estilo.” Sônia lembra que Roberto era muito hábil em desconversar e, por isso, o namoro durou tanto. Mas ela decidiu terminar quando percebeu que, se deixasse, o relacionamento prosseguiria imaculado pelo resto de suas vidas.

Várias outras mulheres relataram dificuldades no relacionamento sexual com pessoas que encontraram nos aplicativos. No começo, estranhei, já que parece fácil resolver eventuais problemas de ereção de homens com mais de 50 anos. Basta ir à farmácia e comprar um Viagra, certo? Depois, com a sucessão de relatos parecidos, comecei a pensar em outra explicação. Talvez estes homens se contentem apenas com abraços, beijinhos e carinhos. Existe um grupo de pessoas que não gostam de sexo, mesmo quando estão namorando. Elas são chamadas de assexuais e calcula-se que quase 8% das mulheres e 2,5% dos homens se encontrem nessa condição[1]. Na página da Comunidade Assexual do Facebook, existe a seguinte definição: “assexual é a pessoa que não tem – ou tem pouco – interesse na prática sexual”. A página tem 3,6 mil seguidores.

Pergunto à Sônia se ela acha que Roberto é assexual, visto que ele parecia estar feliz e satisfeito com aquele tipo de namoro. Sônia diz que nunca tinha pensado em assexualidade, nem conhecia o termo. Para ela, o ex-namorado se enquadrava na categoria dos fofos. “Como é mesmo o nome daquele urso fofo que não gosta de transar? Panda. Urso panda. Este era o Roberto.”

[1] Dados de relatório do Programa de Estudos em Sexualidade (ProSex), da USP, Universidade de São Paulo, citados na revista Superinteressante

 

Sobre a autora

Brenda Fucuta trabalhou em jornais e revistas por 30 anos e se especializou no comportamento de jovens e mulheres. Atualmente, estuda a convivência de gerações e escreve sobre o universo digital dos adolescentes.

Sobre o blog

Reflexões de uma jornalista otimista sobre nossa vida em comum

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