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Você se irrita com quem demora para digitar a senha do cartão?

Brenda Fucuta

16/09/2018 04h00

Foto Daniel Cheung/Unsplash

"Quer CPF na nota?"

"Crédito ou débito"?

"Pode inserir o cartão".

"Pode digitar a senha."

"Pode tirar o cartão."

Ouço tantas vezes este comando no meu dia a dia que presto cada vez menos atenção a ele. É um diálogo chato, repetitivo, robótico. Mas me submeto a ele porque imagino que seja o preço a pagar pelas delícias de meu estilo de vida urbano e contemporâneo. Da mesma maneira, me submeto às filas diante do semáforo, à exasperante busca de vagas nas cidades, à longa espera do ônibus.

Tudo isso faz parte do contrato que assinei e renovo todo dia com uma entidade sem forma e, aparentemente, sem controle: a vida moderna. Vibrante, ela corre numa pista supersônica. Cada vez mais rápida, exige que a gente se segure com firmeza no carrinho da montanha-russa. Quem não conseguir – ou tiver o estômago fraco – vai sair do trilho ou descer do passeio. Não é assim que funciona?

Mais de 90% dos brasileiros, nas últimas seis décadas, passaram a morar nas cidades. Portanto, de alguma maneira, somos todos signatários deste pacto.

E se a vida moderna é veloz, achamos legal automatizar os processos a fim de ganhar tempo e gastar menos energia. Atividades mecânicas exigem muito pouco do cérebro. Não precisamos ser criativos ou buscar novas saídas porque o caminho das funções cotidianas já é conhecido.

Mas aí nos deparamos com um problema: na busca por ganhar tempo, estamos perdendo tempo com atividades imbecilizantes e ficando cada vez mais impacientes.  É fácil perceber isso. O carro que buzina, atrás do seu, porque o sinal abriu há 1 segundo e você não estava apertando o acelerador – ainda. As indelicadezas à porta do elevador ou do metrô – pessoas que desafiam a lei da física, querendo entrar em espaços ainda ocupados.

Há poucos dias, percebi que a impaciência coletiva tinha chegado a um novo patamar.

Voltando às maquininhas dos caixas.

Durante a operação do cartão de débito, por uma fração de segundos eu deixei a mensagem do pedido da senha piscando na tela. Como castigo, fui açodada por um "Já pode digitar".

Não, não foi a moça do caixa que disse isso, como costuma acontecer. Foi a moça que estava atrás de mim, uma colega de fila.

Achei tão inusitado que, antes de digitar a senha, virei a cabeça, curiosa. Quem seria capaz de uma grosseria dessas?

Para minha surpresa, era uma mulher normal. Nenhum monstro, nenhuma bruxa. Era apenas uma pessoa que, como eu, carregava, em uma das mãos, o lanche do almoço rápido comprado na rotisserie do supermercado.

Ao me ver, ela levou a mão à boca, envergonhada e espantada com seu próprio comportamento. Mesmo sem nos falarmos, nos entendemos na hora. Auto-flagrada numa atitude mecânica, a mulher reincorporou a humanidade e me pediu desculpas com o olhar. Sorrimos uma para a outra e, meio apressadas, fomos embora.

Sobre a autora

Brenda Fucuta trabalhou em jornais e revistas por 30 anos e se especializou no comportamento de jovens e mulheres. Atualmente, estuda a convivência de gerações e escreve sobre o universo digital dos adolescentes.

Sobre o blog

Reflexões de uma jornalista otimista sobre nossa vida em comum