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Brenda Fucuta

"Somos eternos estrangeiros", diz brasileira que descende de coreanos

Brenda Fucuta

08/02/2020 04h00

 

Sabrina Kim em foto de família

Há dois anos, recebi um convite da arquiteta e empresária de moda Sabrina Kim para participar de um grupo de discussão sobre identidade dos brasileiros descendentes de asiáticos – eu tenho ascendência japonesa e brasileira; Sabrina tem ascendência coreana. Ambas nascemos no Brasil, mas ainda somos chamadas de japa. Na semana passada, diante das demonstrações de preconceito contra os asiáticos, decidi retomar o contato com Sabrina. Queria ouvir o que ela tinha a dizer sobre estereótipos e a xenofobia despertada pelo medo do coronavírus. Nesses dois últimos anos, ela levou suas reflexões sobre a identidade dos brasileiros que descendem de asiáticos para sua conta no Instagram – yon_sabrinak – e teve oportunidade de entrar em contato com vários coletivos que debatem a mesma questão sob diferentes pontos de vista – feminista, LGBT etc… Sabrina é casada com um mestiço, descendente de italianos, sírios e brasileiros do Nordeste. "Mas ninguém acha que ele não seja brasileiro. Simplesmente porque é branco."

Sabrina, você que sempre defendeu o direito de descendentes de asiáticos serem vistos como brasileiros, como se sentiu quando leu a notícia sobre a senhora do Rio que chamou de porca uma estudante com ascendência japonesa

Foi péssimo, mas não me surpreendeu. Esse não é um caso isolado, acontece o tempo todo. Com o coronavírus, as pessoas se sentem mais autorizadas a expressar o preconceito porque, em tese, elas têm um argumento que pode justificá-lo, o medo do contágio.

Sempre achei que o preconceito contra negros era uma das maiores desgraças do país, um motivo para a gente se envergonhar de ser brasileiro. Diante disso, falar sobre preconceito contra japoneses, chineses ou coreanos seria exagerado?

Minha história e minhas reflexões são sobre os estereótipos que o Brasil construiu em relação aos asiáticos, não tento comparar preconceitos, legitimar um e desclassificar outro. No caso dos asiáticos, eu acho que a gente não fala abertamente do preconceito porque seus descendentes tiveram maior inserção social, conseguiram ascender economicamente, o que criou uma espécie de filtro, uma camada de proteção. Mas nós, filhos, netos, bisnetos, mestiços que descendemos de asiáticos só somos aceitos na sociedade até certo ponto. Para mim, isso é óbvio. Tenho milhares de exemplos que justificam nossa crise de identidade. A miscigenação faz parte do Brasil, mas os descendentes de asiáticos ainda são tratados como eternos estrangeiros no próprio país.

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Quais são esses exemplos? 

Somos vistos como exóticos pela mídia e pela publicidade. Nossa ascendência é uma marca distintiva, algo que nos deixa sempre no lugar do diferente, do outro. Você sabe o que é andar na rua e ser assediada por homens que falam com a gente com palavras como sushi, sayonara? Já é ruim o assédio, mas é horrível ter que ouvir esse tipo de coisa o tempo todo. Outra coisa que as pessoas continuam fazendo e é muito irritante: chamar todos de japa…

Odeio isso também. Apesar de ser descendente de japoneses, o que nem é o seu caso, prefiro ser chamada pelo meu nome. 

Exatamente. A gente não é uma categoria, somos indivíduos e somos brasileiros, não somos japas. Nascemos aqui, muitos dos nossos pais nasceram aqui, nossos filhos nasceram aqui. Há quantas gerações os japoneses estão no Brasil? Quatro? Cinco? Você sabia que, nos aplicativos de encontro, os tipos menos procurados são os asiáticos? Por quê? Por causa daquele estereótipo… Os estereótipos chegam antes da gente, sempre. As mulheres asiáticas são submissas, os homens são CDFs – nerds são os brancos, CDFs são os asiáticos – e os chineses são associados à sujeira, assim como os coreanos foram há algumas décadas.

Não sabia disso. 

Quando eu era criança, os colegas que iam à minha casa falavam que ela cheirava esquisito, por causa do kimchi, uma acelga salgada, típica da culinária coreana. Um descendente de coreano que conheci me contou que sua família tinha sido pressionada a deixar o prédio onde morava por causa do cheiro da comida. A situação mudou agora. O K-pop é adorado no Brasil, a comida coreana está súper na moda. Imagino que isso vá acontecer com os chineses também em pouco tempo. Aliás, eu mesma me peguei um dia usando a expressão xing ling numa conversa. A pessoa que estava ouvindo, e não era asiática, me deu uma lição. Para você ver como os estereótipos estão impregnado em todos nós. São os vieses inconscientes [preconceitos que temos e não nos damos conta]. Hoje, tudo vem da China, inclusive os I-phones da vida. Os produtos chineses são de ótima qualidade e mesmo assim existe essa imagem negativa.

Como desarmar os preconceitos?

Acho que temos que investir na infância. As crianças reproduzem muito do comportamento dos adultos. Há algum tempo, um dos meus filhos levou um manju, aquele doce japonês com feijão preto, para o lanche da escola. Os coleguinhas viraram a cara, nunca tinham visto, não achavam normal e meu filho ficou bem chateado, a ponto de não querer repetir a experiência. Precisamos criar ambientes diversos, estimular nossos filhos a conviver com o diferente. Religiões e etnias diferentes. O que eu acho interessante é quando você passa a conviver com o diferente, o diferente deixa de ser esquisito e se transforma em uma possibilidade.

Como o manju no lanche da escola. 

Sim. Como ele.

Sobre a autora

Brenda Fucuta é jornalista, escritora e consultora de conteúdo. Autora do livro “Hipnotizados: o que os nossos filhos fazem na internet e o que a internet faz com eles”, escreve sobre novas famílias, envelhecimento, identidade de gênero e direitos humanos. Além de entrevistar pessoas incríveis.

Sobre o blog

Reflexões de uma jornalista otimista sobre nossa vida em comum

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